Plano e ação

Educador espanhol defende importância do currículo e diz que professores precisam melhorar sua auto-estima

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Faoze Chibli

O espanhol Miguel Zabalza possui uma formação diversa, centrada na descoberta do comportamento humano: obteve doutorado em psicologia, licenciou-se em pedagogia e possui diploma em criminologia. Mas sempre trabalhou com educação. Há quase 30 anos na Universidade de Santiago de Compostela, desenvolveu diversos trabalhos de pesquisa e cooperação em instituições de ensino superior na Espanha, Itália e Inglaterra. Hoje, na faculdade de ciências da educação, é catedrático de didática e organização escolar – temas estratégicos na Espanha, que ele próprio define no livro
O ensino universitário

(Artmed, 242 págs., R$ 41) como “uma espécie de ecossistema de especialidades vinculadas entre si, em cujo cerne se produzem os processos de promoção e de seleção de novos professores”. Suas obras tratam de todos os níveis estudantis, do infantil ao superior. Zabalza é defensor da busca da qualidade nos processos educacionais, desde as condições de trabalho até o desenvolvimento curricular. Para ele, escolas alternativas têm seu valor, como “estrelas polares” que servem de inspiração. Mas é a escola pública que deveria ser “mimada”, pois trata-se da principal formadora na sociedade. O estudioso virá ao Brasil para o Congresso Educador, que acontecerá paralelamente à Feira Educar, no pavilhão de exposições do Center Norte, entre 19 e 22 de maio em São Paulo (SP). O tema do acontecimento será
A educação do futuro e o futuro da educação

. Por e-mail, Zabalza antecipou alguns pontos de sua palestra.





Revista Educação – Como vencer a resistência de professores que desejam apenas dar aula?

Miguel Zabalza –



Em alguns casos, essa resistência é invencível. Em outros casos, não. Depende da experiência do professor: se suas experiências anteriores foram negativas ou pouco gratificantes, provavelmente acabam gerando uma espécie de rechaço pelo ensino. Isso resulta em um compromisso puramente formal, de fazer o que se tem de fazer e basta. Nesse caso, é necessário “ilusionar” o docente, dotar-lhe de novas ferramentas que tornem mais agradável sua atividade e melhorar, na medida do possível, o clima de trabalho – sobretudo pelo apoio dos companheiros.





O aluno consegue perceber a diferença entre um profissional burocrático e o professor preconizado pelo senhor?





Sem dúvida. Os alunos entendem muito bem o grau de intensidade e de vida que um professor põe em seu trabalho. Perdoam mais a falta de conhecimento ou de experiência do que a falta de motivação. Ademais, essa falta de motivação do docente contagia o aluno e acaba assumindo padrões de comportamento bastante similares aos de seu professor: tampouco ele se aplica e reduz seu trabalho a cumprir com o que lhe exigem, sempre sob a perspectiva do mínimo esforço.





No Brasil, centros formadores de docentes raramente possuem o sofisticado aparato metodológico necessário à formação de um “profissional reflexivo”. As escolas não estão distantes de oferecer essa formação?



Não só no Brasil. Esse é um problema geral de muitas instituições de formação do professorado. Falta a nós mesmos, como formadores de futuros mestres, um exercício pessoal da reflexão e o compromisso institucional com um tipo de proposta formativa que propicie esse trabalho.





Como lidar com a vaidade do educador para que a avaliação de processos seja efetiva?





Penso que a melhor maneira é propiciando uma cultura da visibilidade. No momento em que nos acostumarmos a que o que fazemos nas classes é um processo público, deixaremos de nos preocupar em apresentar nosso trabalho aos demais. Por outro lado, parece óbvio que os professores precisam melhorar sua própria auto-estima. Com freqüência, a vaidade não é senão um mecanismo de defesa de quem se sente pouco forte, pouco competente para realizar seu trabalho. E, em terceiro lugar, não podemos tampouco deixar fora de nossas considerações a ética profissional: necessitamos fazer as coisas o melhor possível porque de nossas atuações se derivam fortes conseqüências para nossos alunos. Essa é nossa responsabilidade e, por isso mesmo, não o fazer, não utilizar a avaliação como recurso de melhora de nossas práticas, acaba constituindo uma irresponsabilidade de nossa parte.





O senhor acredita na eficiência educativa de escolas alternativas, como Summerhill ou Escola da Ponte?


São extremamente úteis como pontos de referência, como estrelas polares que servem para orientar as estratégias das escolas em geral. Servem para alimentar as utopias pedagógicas. Mas, obviamente, na medida em que são escolas elitistas e reduzidas a seus possíveis beneficiários, não resolvem o problema da educação. Daí que o importante são as escolas públicas, as que atendem os alunos comuns. Essas são as que devem receber as atenções principais.





Há diferença entre os processos coletivos nas redes pública e particular?





Há muitas diferenças, uma vez que tanto os recursos disponíveis quanto a cultura institucional são muito distintos. A escola pública tem um compromisso mais difícil a cumprir, deveria ser especialmente mimada e atendida pelos poderes públicos. De todas as formas, não são redes que devam ser inimigas entre si, e sim colaboradoras.





Por que o senhor diz que a escola não possui recursos para enfrentar sozinha o desafio de construir um novo mundo para as crianças?





Os problemas que a educação deve enfrentar transbordam em muito as possibilidades que tem a escola para influenciar os pequenos e suas famílias: a fome, a saúde, a falta de estímulos, a falta de recursos, a marginalidade social, a desatenção familiar, a imigração etc. São fatores que condicionam de maneira muito forte o desenvolvimento das crianças, sobretudo dos menores. E sobre eles a escola tem pouco a oferecer se não trabalha em consonância com os outros agentes sociais – as autoridades locais, as famílias, as associações cidadãs e profissionais, as instâncias culturais. As escolas precisam abrir-se para a sociedade e enriquecer suas equipes com profissionais de mais amplo espectro.





O senhor defende uma maior integração entre os níveis de ensino. Como isso é possível?





O problema da conexão ou continuidade na experiência escolar dos escolares ultrapassa as modalidades de instituições. É um problema tanto das escolas públicas quanto das privadas. Estas somente conseguiram uma maior continuidade em seus projetos pedagógicos. No fundo, é uma questão de projeto pedagógico: quando as escolas o têm, o itinerário formativo que oferecem a seus estudantes tem continuidade. Quando carecem dele – sejam públicas ou privadas -, os avanços dos pequenos se fazem sempre aos pedaços e com um rendimento muito menor.





Por que a importância da integração com o meio ambiente na educação infantil?





Como sinalava antes, porque a escola não constitui um oásis, senão uma peça a mais do mundo vital em que meninos e meninas crescem. É um ambiente distinto, certamente. Mas o importante é que uns ambientes e outros – a família, as práticas de jogo, a escola infantil, a natureza – complementem sua ajuda à criança e esta vá desfrutando experiências variadas. O que a escola pode fazer é oferecer recursos para que os alunos explorem e tirem proveito, sob o olhar e a ajuda de seus educadores, das experiências que vão tendo em sua vida ordinária.





O que significa “não agir mimeticamente demais em relação à cultura do meio ambiente”?





Postman [
Neil Postman (1931-2003), acadêmico da Universidade de Nova York

] e Weingarten [
Charles Weingarten, médico e professor

] diziam que a escola deve atuar como um termostato: ser “agitadora” quando o ambiente ordinário de vida dos alunos é demasiado calmo; e ser “calma” quando esse ambiente de vida é muito agitado. Parece óbvio, portanto, que a escola há de atuar compensatoriamente quando o ambiente é deficitário [
em alimentação, cuidado higiênico, sociabilidade

], oferecendo aos garotos um contexto mais gratificante e positivo. E, desde o ponto de vista cultural, a escola deverá propiciar aquele tipo de estímulos e experiências que as crianças têm menores oportunidades de desfrutar em suas casas ou em seu meio ambiente: apresentar computadores quando não os podem ter em casa, apresentar vacas e plantas quando as crianças em suas habitações urbanas não podem entrar em contato com elas, por exemplo.





Quais são os limites para a participação dos pais no âmbito da escola infantil?



Não existem mais limites além dos que determinam o profissionalismo dos educadores e a necessidade de contar com um ambiente de aprendizagem suficientemente regulado. Mas os pais podem participar em todas as atividades e todos os momentos do projeto educativo que a escola desenvolve. Dessa maneira se faz em algumas das melhores escolas infantis do mundo.





A capacidade didática dos professores não deveria ser aferida tanto quanto o conhecimento técnico?





Dominar a disciplina científica que se vai ensinar é muito importante, mas também [
é importante

] saber como ensiná-la e, sobretudo, saber como atuar para que os alunos aprendam. Esse é o objetivo básico de qualquer professor universitário.





Por parte dos alunos universitários, não há uma cultura que enaltece o domínio técnico a despeito da didática?





Ultimamente, as coisas vão mudando muito. Na realidade, o que os alunos universitários querem é que seus professores lhes ensinem em maior quantidade e qualidade. No presente momento, isso é o conhecimento científico. Entretanto, quando depois lhes pergunta pelos professores que deixaram mais lembranças, eles se recordam não daqueles que mais sabiam do conhecimento científico, mas daqueles que souberam transmiti-lo melhor e motivar-lhes mais. Esses professores, em geral, coincidem com os que tinham melhores atitudes pedagógicas.



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