Piaget em xeque

Especialistas defendem o ensino de princípios investigativos a crianças menores de 10 anos, e constatam má leitura da obra do pedagogo

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Crianças do Fundamental 1 em visita à Escola Parque Sabina, em Santo André (SP)

O método científico pode ser compreendido e aplicado por crianças. E quanto mais cedo, melhor. Mas, no Brasil, o contato com as regras da produção do conhecimento só acontece na universidade. Essa constatação foi o ponto de partida do livro Metodologia científica ao alcance de todos, de Celicina  Azevedo, lançado em junho. Professora de metodologia no mestrado em fitotecnia e ciência animal na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), a autora visa capacitar os docentes de escolas públicas a desenvolver em seus alunos o espírito científico.

Celicina observou feiras de ciên­cias produzidas por crianças em idade escolar nos Estados Unidos, durante seu doutorado na Universidade do Arizona. Percebeu que os experimentos eram realizados com uso rigoroso do método científico. "Achava que os países desenvolvidos produziam muita ciência porque tinham muito dinheiro. Mas produzem tanto porque começam muito cedo", diz. Segundo ela, as feiras brasileiras têm muita pirotecnia e pouco método científico. "Quero mostrar que é possível aplicá-lo em trabalhos escolares."

O projeto da Finep, que financiou o livro, incluiu a capacitação de professores da rede pública. Eles utilizam o método científico em feiras de ciências nas 29 escolas da região de Mossoró. O trabalho levanta questões relacionadas ao ensino de ciências: de um lado, o desafio metodológico e o contato escasso entre os centros de pesquisa pedagógica e, do outro lado, as escolas. Os avanços metodológicos e sua aplicação em sala de aula parecem habitar mundos diferentes.


Livro didático


Esse descompasso foi mostrado num estudo de Simão Vasconcelos, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele avaliou as metodologias de ensino de ciências em 31 escolas da rede municipal do Recife. Constatou que a interação com universidades locais é quase nula. Pior: nenhum entrevistado soube citar qualquer revista científica em sua área de atuação. Os recursos em sala de aula são centralizados no livro didático, mas 43% dos entrevistados têm dificuldades em obter acervo.

Segundo Eduardo Mortimer, da UFMG, a história dos livros didáticos no Brasil é cheia de idas e vindas. "Há períodos – como no início do século 19 – de grande homogeneidade, com uma única abordagem para o ensino científico", analisa. "Em outros momentos, há abertura para propostas múltiplas e heterogêneas, como em 1930. Mas a homogeneidade volta em 1940, depois há uma nova abertura na década de 60 e nova centralização na década de 70. Agora estamos em um momento de abertura."


Construtivismo


As metodologias também passam por metamorfoses. Mortimer identifica nuances no construtivismo. "Em alguns períodos predominou uma vertente mais radical, particularmente no Brasil, que professava que os meninos precisam construir o conhecimento, portanto não temos de ensinar. Isso teve uma repercussão danosa." Para ele, o construtivismo trouxe uma contribuição preciosa ao debate sobre o ensino científico. "Mas a principal delas, a noção de aluno como sujeito ativo, já era herança da Escola Nova."

Para o professor Ernst Hamburger, do Instituto de Física da USP, o que houve foi uma leitura "incompleta" de Piaget e de sua escola, que resultou na percepção de que as crianças não teriam capacidade mental para fazer investigação. "As pesquisas de Piaget eram de psicologia.

Foram tiradas conclusões pedagógicas que não se justificavam. Os estágios não são absolutos, depende do que você faz com a criança. Se ela tem uma porção de atividades que estimulam o raciocínio, vai mais depressa. Há um desenvolvimento mental, ninguém duvida, mas ele não exclui o raciocínio da criança pequena."

Segundo o pesquisador paulista, se deve muito a esse fato a não utilização do ensino investigativo com crianças pequenas. Mas mesmo no ensino médio, em que não valia o argumento psicológico, era raro ter aulas em que os próprios jovens fizessem investigação. "Um exemplo positivo aqui em São Paulo foi o das escolas vocacionais, fechadas pelo governo militar nos anos 60", aponta.

Hamburger considera que a dúvida sobre a capacidade das crianças pequenas foi respondida de modo mais convincente nos últimos 20 anos, basicamente por trabalhos feitos nos EUA. "Na educação, é difícil levar adiante a capacidade de raciocínio, de investigação, de questionar e testar o próprio conhecimento", afirma. "Essas são idéias da educação investigativa. Elas partem do pressuposto de que o professor saiba o que é investigação e leve isso para a classe."


Afeto e calor


As pesquisas acadêmicas sobre ensino de ciências ganham hoje cada vez mais refinamento, e cabe em boa parte aos professores traduzirem isso para a sala de aula. Na classe é possível fazer experimentos e driblar a falta de material e de laboratórios, defende Hamburger. "Todo o trabalho que a gente faz é nesse sentido", diz. Com uma mesa horizontal e materiais de reciclagem (como garrafas PET), explica, muita coisa pode ser feita.

Mesmo teorias aparentemente áridas podem ser aplicadas. Eduardo Mortimer, químico e educador, criou a teoria dos perfis conceituais. É um modelo que procura compreender a convivência, em um indivíduo, de diversas representações de um mesmo conceito. Ou seja, cada um de nós tem desde as noções do senso comum até as concepções científicas. Para o pesquisador, o ato de aprender significa criar um diálogo entre essas concepções – muitas vezes incompatíveis.

Um exemplo: a idéia de calor utilizada no cotidiano concebe-o como algo proporcional à temperatura. O pesquisador explica que é mais exato defini-lo como proporcional à diferença de temperatura. "Só aprendo a idéia da física quando a vejo dialogando com minha idéia cotidiana de calor", afirma. "Podemos apresentar uma experiência com dois blocos à mesma temperatura, um de madeira e um de metal, mas em que sentimos um deles mais frio", afirma. Como diz Hamburger: "os métodos de observação e experimentação a gente usa não só na ciência, também utiliza na vida diária".

Mortimer também considera importante para a aplicação de metodologias inovadoras o envolvimento afetivo do aluno com os conteúdos. "Mas o professor não pode envolvê-lo se der aulas em três escolas e tiver uma visão negativa da profissão", observa. Ou seja: valem também aqui os problemas do ensino brasileiro como um todo. A participação dos pais no estímulo à criança é lembrada pelo professor de ciências Alexandre Vicentini, que dá aula na periferia de São Paulo – ainda pelos métodos tradicionais. "Quando os pais não participam, os alunos não têm interesse", diz.  (ARS)

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