Pesquisadora argentina defende mudanças no processo de escolarização para tornar o aprendizado eficaz e relevante

Guillermina Tiramonti: as mudanças em curso no sistema educacional ainda são dispersas e marginais

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Ricardo Braginski
Guillermina Tiramonti: as mudanças em curso no sistema educacional ainda são dispersas e marginais

 

Esta entrevista foi feita em um dia fora do comum na cidade de Buenos Aires. É terça-feira, mas as ruas estão em completo silêncio. Não se escuta o som dos carros, e não se vê nenhum ônibus. Não há jovens nas escolas. É um dia de feriado nacional, decretado pelo conjunto das centrais de trabalhadores que pedem a revogação do imposto de renda que atinge diretamente os assalariados. Em meio a tanto silêncio, a pesquisadora Guillermina Tiramonti recebe Educação em sua casa para falar sobre a especialidade com a qual vem trabalhando nos últimos anos: o ensino médio.

Tiramonti é pesquisadora na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e professora da Universidade Nacional de La Plata. Licenciada em ciências políticas, toda sua carreira foi feita na área de educação, como professora e como pesquisadora. Nos últimos anos, especializou-se no ensino médio e escreveu pesquisas e livros sobre o tema. É uma das vozes mais ouvidas na hora de analisar a crise que assola essa etapa da educação.

Quais são as principais competências e habilidades que a escola de ensino médio deve ensinar hoje?
Esse é o cerne da questão. Estamos em um contexto de mudança cultural que exige das novas gerações uma série de habilidades individuais para participar tanto do mundo social, quanto da política e da economia. Eles são obrigados a extrapolar o conhecimento e a experiência para fazer seus projetos de vida, resolver problemas por si mesmos, serem capazes de se comunicar. Diante desta situação, o tipo de educação que os adolescentes estão recebendo não é a adequada. As referências culturais da escola média hoje são o Iluminismo e o enciclopedismo. A escola ainda está baseada na retenção de conteúdos, e não na capacidade de transformar esse conhecimento em instrumento de articulação e diálogo com o mundo.

Mas algumas mudanças estão começando a ser vistas na escola…
Mudanças sim, e muitas. Mas todas marginais e muito dispersas. Como política oficial, não há nada nesse sentido, nem na Argentina, nem em toda a América Latina. As políticas oficiais são direcionadas a aperfeiçoar o modelo moderno de escola, que é o da escola tradicional, ou para fazer com que os jovens dos setores populares – que agora estão começando a ir para o ensino médio – consigam permanecer na escola, que todos sabemos ser feita para selecionar, e para não universalizar. Em todos os países da América Latina, registramos uma série de propostas e tentativas para melhorar a retenção dos jovens, como aulas de apoio, tutoria e mudanças para tornar o percurso educacional mais flexível. Tudo isso é válido, mas não aponta para o tipo de conhecimento e habilidade de que eles precisam, de que falamos no início.

Existem projetos que consideram as novas competências e conhecimentos necessários para os jovens?
Sim, existem alguns muito pontuais. Por exemplo, na província de Córdoba, na Argentina, há um projeto-piloto de fazer os alunos trabalharem por projeto, que é o tipo de abordagem pedagógica que visa a formação das novas competências. Algumas escolas privadas da Argentina também já estão fazendo isso. Na Colômbia, existe uma experiência com jovens de setores vulneráveis. Mas o que acontece, às vezes, é que essas escolas mantêm o currículo tradicional pela manhã e à tarde fazem a experiência alternativa. Isso ocorre porque existe uma resistência muito forte à mudança por parte do núcleo duro da escola tradicional, que pensa ””cada professor tem de ter sua disciplina””. As experiências mais radicais anulam as disciplinas e o jovem trabalha em projetos nos quais exerce o papel de protagonista do processo de aprendizagem. Mas, para isso, eles devem contar com todo tipo de suporte para realizar visitas a locais de interesse e tocar adiante seus projetos. Também necessitam de professores para guiá-los e, ao mesmo tempo, lhes fornecer as noções básicas de que necessitam. Não há mais um programa de matemática, mas professores que dão os conceitos de matemática necessários para a realização dos projetos.

Nesse contexto, qual o perfil necessário para o professor? Como a senhora avalia a formação dos professores e as políticas de capacitação?
Um país de referência nisso é a Finlândia, que tem os professores de melhor qualidade. A exigência para entrar na profissão docente é extremamente forte e também há muita regulação posterior, o que não significa exames. Há regulação dos pares, sistema pelo qual os alunos de pedagogia observam os professores em atividade, entre outras coisas. Os mais bem remunerados na profissão têm um salário acima da média da população. É um modelo com docência de excelência. Temos de ir nessa direção.

Quão longe estamos disso?
Muito longe. No entanto, existem outras experiências que também temos de observar. Por exemplo, uma experiência dos jesuítas em Barcelona, que teve muita popularidade nos últimos meses. Eles têm uma dúzia de escolas de ensino médio em Barcelona. Em três ou quatro delas, acabaram com as disciplinas e estão trabalhando por projeto desde os anos finais do ensino fundamental até os dois primeiros anos do ensino médio. Eles fazem isso com professores que orientam e fornecem os conceitos de que os alunos necessitam. Nesse caso há bons professores, mas não se modifica estruturalmente a carreira docente.

Em seus trabalhos a senhora fala em “escolarização de baixa intensidade”. A que se refere?
Refiro-me a uma escolarização onde há um processo pedagógico de pouca relevância, seja porque o que se ensina, ou se pretende ensinar, é culturalmente pouco relevante, seja porque o que se aprende, se esquece no outro dia – que é o que geralmente acontece. Há também os casos em que o processo é continuamente interrompido em função ou da ausência do professor ou do aluno. Temos altos índices de absenteísmo tanto de professores como de estudantes. As ocasiões em que se juntam alunos e professores são poucas e, nessas poucas vezes, nem sempre se passa algo na classe que seja relevante, ou que permita ao aluno acessar os conceitos básicos da disciplina. Descobrimos por meio de uma pesquisa, que não terminamos ainda, que, dentro das disciplinas, se lida com uma série de conhecimentos irrelevantes, enquanto conceitos básicos e centrais são deixados de fora. Isso está acontecendo na maioria das escolas aqui na Argentina.

Quais são as principais medidas para se passar de uma escolarização de baixa intensidade para uma de alta?
Precisamos criar instituições educacionais que deixem de ser um espaço de passagem de alunos e professores para se transformarem em instituições com um corpo docente, com uma equipe de inovação para alimentar o processo de ensino-aprendizagem dessa escola, com uma direção que esteja regulando e guiando esse processo, e com um Ministério da Educação que, por sua vez, forneça ideias, materiais etc. É o inverso do que está sendo feito. Agora dizem que temos de ter excelentes professores, melhorar a formação, mas são apostas individuais. A experiência mostra que devemos assumir o compromisso de não reduzir a instituição a fazer um mero “projeto institucional”, onde cada um elabora um pequeno projeto que não impacta em nada o todo.

A escola pode promover a igualdade, quando a sociedade é tão desigual?
Não. Se você olhar para os países que alcançaram uma educação mais equitativa, perceberá que já eram sociedades mais igualitárias. A escola pode melhorar as oportunidades para alguns indivíduos, de alguns setores sociais, como a classe média. Mas como uma possibilidade de igualdade de oportunidade para todos, não. É necessária uma sociedade mais equilibrada, mais justa. E não é verdade que a escola tradicional foi feita para igualar toda a população. A escola primária tinha a intenção de divulgar instrumentos básicos da cultura e homogeneizar culturalmente, em seus valores e princípios, uma população muito heterogênea. Mas o ensino médio foi concebido como uma escola diferenciadora. Agora temos de pensar de forma diferente e romper o propósito diferenciador da escola moderna. Mas a mudança para reduzir as desigualdades deve vir do mundo do trabalho. O que importa é que o mercado de trabalho se amplie e diversifique. Como a classe média surgiu na Argentina? Foi porque os jovens foram para a escola, mas também porque havia um mercado de trabalho onde as pessoas podiam ser inseridas. Se agora se democratiza a escola e aumenta o número de egressos, mas o número de postos de trabalho que exigem qualificação se mantém estável, o que acontece é que, para as posições mais básicas, se começa a exigir mais qualificação, sem que isso se traduza em salários mais altos ou melhor qualidade de vida.

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