Peripécias desajeitadas

Falta de tradição nacional em aventuras infanto-juvenis transparece em Os Xeretas

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Sérgio Rizzo*



Sem jamais conseguir se estruturar industrialmente, a produção brasileira de cinema tem diversas lacunas gritantes. Um dos exemplos é a reduzida quantidade de biografias: embora nossa história seja repleta de personagens que dariam filmes no mínimo interessantes sobre suas trajetórias singulares e também sobre o período em que viveram, de Santos Dumont ao jogador de futebol Leônidas da Silva (o “Diamante Negro”), os projetos biográficos se tornam caros e complexos pela necessidade de reconstituição de época e de pesquisa histórica aprofundada, entre outros aspectos complicadores.



Outra área quase inteiramente descoberta é a da produção infanto-juvenil. Contam-se nos dedos, durante os últimos 30 anos, os filmes dirigidos a crianças e jovens que não tenham sido feitos por Renato Aragão e Xuxa. Antes deles, o cenário era ainda mais desértico. A escassez obriga a receber com atenção as raras tentativas de estabelecer pontes com essa fatia do público – filmes como
A Reunião dos Demônios

(1995), de Cecílio Neto (lançado nos cinemas em 2000 com o título
Os Três Zuretas

),
Castelo Rá-Tim-Bum

(1999), de Cao Hamburger,
Tainá

(2000), de Tânia Lamarca, e
Ilha Rá-Tim-Bum


O Martelo de Vulcano

(2003), de Eliana Fonseca.




Reúne-se ao grupo
Os Xeretas

, que marca a estréia na direção de longa-metragem do montador Michael Ruman. Realizada em 2001, mas só agora lançada em vídeo, essa aventura tem vários elementos capazes de despertar a identificação e o interesse de crianças e jovens. Os protagonistas são adolescentes comuns que se envolvem casualmente em uma história cheia de peripécias, lembrando
Os Goonies

(1985), produção de Steven Spielberg dirigida por Richard Donner. A rotina desses meninos inclui a escola (cenário raramente visitado pelo cinema brasileiro) e objetos de uso (ou desejo) dessa faixa etária, como bicicletas e um supercomputador.




Na contramão das imagens urbanas que dominam a produção nacional, a ação transcorre em uma cidade do interior, Castro (PR), com pouco mais de 60 mil habitantes. Os amigos Duda (Fábio Lins), Tato (José Eduardo Gomes) e Nick (José Luiz Batistella) atravessam o caminho de dois vilões (Francisco Cuoco e Roberto Arduin) que roubaram um medalhão antigo, relacionado a uma menina (Jéssika Bueno Barth) que viaja no tempo graças a um portal. As intenções são as melhores, mas a realização transparece a falta de tradição brasileira na área. O roteiro exagera no caldeirão de referências e torna-se confuso; algumas cenas de ação têm um ar desajeitado; e o elenco alterna bons momentos de improviso com outros em que a preparação dos atores iniciantes não foi suficiente para a boa caracterização de personagens e situações. Mais do que problemas exclusivos desse filme, são deficiências comuns em nossa filmografia.




*jornalista, professor e crítico da revista Set e da Folha de S.Paulo.


srizzo@uol.com.br



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