Perigo no caminho da escola

Uma preocupação a mais para os pais e os educadores: atualmente, de cada quatro vítimas de seqüestro em São Paulo, uma é estudante

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Débora Jabour







 






No dia a dia das escolas, notas baixas e vestibulares deixaram de ser as principais preocupações de pais, alunos e educadores. Seqüestros de estudantes vem ganhando espaço nos noticiários, nas estatísticas criminais e na atuação dos diretores dos colégios tradicionais da capital paulista. A cada mês cresce assustadoramente o número de casos de seqüestro envolvendo crianças e adolescentes. Segundo levantamento realizado pela Folha de S. Paulo com base nos boletins de ocorrência do crime no ano passado, os estudantes têm sido as vítimas mais costumeiras, aparecendo em 25% dos casos. Mais do que comerciantes (16%) e empresários (11,1%), geralmente apontados como alvos preferenciais dos seqüestros.

Por enquanto, o fenômeno parece estar restrito a São Paulo. Em capitais como Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as delegacias anti-seqüestro informam serem incomuns esses tipos de registro. De acordo com Edson Moreira, delegado da Delegacia Anti-seqüestro de Belo Horizonte, em todo o estado de Minas Gerais aconteceram apenas oito seqüestros no ano passado. Em somente um dos casos, o refém era um estudante universitário. Para Dom Geraldo Gonzalez, reitor do Colégio Santo Américo, um dos mais tradicionais da capital paulista, quando a violência chega à escola significa que já percorreu toda a sociedade.





Alguns casos seguidos têm chamado a atenção da sociedade. No dia quatro de agosto, dois irmãos, um de 10 e outro de 13 anos, foram retirados de dentro do ônibus escolar. Foram dezessete dias de pavor, que terminou quando a polícia estourou o cativeiro localizado em Embu-Guaçu. Na mesma semana, um estudante de 14 anos foi libertado depois que os pais pagaram o resgate. Dominado por bandidos quando caminhava em direção ao Colégio Santa Cruz, no Alto dos Pinheiros, a 400 metros da sua casa, ele passou quinze dias no cativeiro. Mais impressionante foi o caso da garota de 12 anos, aluna do Colégio Dante Alighieri, filha de um empresário dono de uma rede de lojas de decoração. Rendida no trajeto entre sua casa e o colégio, a menina ficou setenta dias como refém. O cativeiro foi estourado e dois bandidos mortos. A família, traumatizada, viajou para o exterior.





Para Guaracy Mingardi, diretor científico do
Ilanud

(Instituto Latino-americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente) são dois os principais fatores que levam ao seqüestro de crianças e adolescentes. “Os criminosos preferem deixar o pai fora do seqüestro, porque é ele afinal quem movimenta o dinheiro para pagar o resgate. Além disso, os adolescentes, costumam ser refratários a segurança. Uma menina que vai sair para namorar não vai querer levar um segurança junto”, explica. Na opinião de Luciana Guimarães, diretora do
Instituto Sou da Paz

, está ocorrendo uma mudança no modo do crime operar. “A segurança foi reforçada em outras áreas. Existe mais policiamento dificultando crimes como roubo de carros e homicídios. Em resultado, nota-se uma migração do crime. Há atenção sobre uma coisa e desatenção sobre outra”, afirma. Em termos quantitativos, o número de casos não é até pequeno, comparando-se com o universo de 627.200 alunos da rede paulistana privada de ensino. Mas é preciso levar-se em conta essas ocorrências e tomar precauções sem causar pânico para as crianças e os pais.






Carla Bonissoni, mãe de um aluno do Colégio Santo Américo, conta que sempre se preocupou com a segurança do filho, mas este tipo de violência a tem deixado muito mais apreensiva. Adriana Simões, que tem três filhos estudando no Santo Américo concorda com Carla. “Em São Paulo, sempre existe certa apreensão com relação a assaltos e seqüestros, mas os últimos acontecimentos nos deixaram bastante apreensivos por terem estudantes como alvo. Antes, e nem me preocupava com esse tipo de violência”, diz. Para ela, o papel da escola é alertar os pais e oferecer o máximo de segurança possível, por meio de seguranças e de câmeras no entorno da instituição – artefatos que a maioria das escolas particulares paulistanas já possuem há algum tempo. Segundo o reitor do colégio, Dom Geraldo Gonzalez, os alunos que têm costume de ir a pé para a aula são orientados a ocultar o uniforme. No Bandeirantes, os seguranças chegam a acompanhar os alunos até os shoppings do próximos colégio, para garantir a sua proteção.





Onofre Rosa, coordenador pedagógico do Colégio Bandeirantes, percebe uma certa tensão das famílias, em função dos últimos casos divulgados: “Muitos pais telefonam para a escola quando o filho atrasa, querendo saber se ele já saiu, se vai ter alguma atividade fora do horário. Quando tem alguma atividade à noite, a preocupação é maior ainda. Os pais costumam montar esquemas para trazer e buscar os filhos”. Fernanda Zocchio, diretora das seis unidades do Pueri Domus, diz que o colégio não tem notado um aumento na preocupação dos pais, devido ao seu forte esquema de segurança. “A criança só sai da escola com uma pessoa conhecida. Já aconteceu de uma avó vir buscar o neto e ele não ser liberado, mas é melhor errar pelo excesso”, explica Fernanda.





Para Luciana Guimarães, diretora do
Instituto Sou da Paz

, em situações como essas os próprios alunos devem liderar os processos de discussão e debate do tema dentro da escola. “É importante promover espaços de constante reflexão. A escola deve propor discussões importantes para a sociedade e deve fazer isso de forma permanente e periódica”, afirma. Segundo ela, para tranqüilizar os pais, o colégio deve buscar instrução e informação. Deve pesquisar casos bem sucedidos com a polícia, para saber como é possível resolver a questão e transmitir segurança a eles. É o que acontece no Colégio Santo Américo. De acordo com o reitor, a escola sempre promoveu reuniões envolvendo os pais para tratar de segurança. A orientação aos alunos também é foi priorizada. No Pueri Domus, o tema sido debatido com os alunos de modo informal. “Neste momento, no há propostas de debates sobre isso, mas com certeza esse é um assunto a ser tratado com eles”, diz a diretora Fernanda Zocchio. Já no Bandeirantes, a opção é não abordar o assunto em sala de aula, para não causar apreensão aos alunos.







Conseqüências psicológicas






Em casos de seqüestro, é sempre importante a assistência psicológica para a vítima e seus parentes. Segundo Amélia Thereza de Moura Vasconcellos, diretora do Instituto de Psiquiatria e Psicoterapia da Infância e Adolescência, após a libertação, o refém pode apresentar sintomas de stress pós- traumático. Quanto maior for o impacto do seqüestro na vida da pessoa, que tem como uma das variáveis o tempo passado no cativeiro, maior será a intensidade do trauma. “Quando uma criança ou um adolescente é seqüestrado em uma situação de rotina, como no caminho para a escola, certamente ele apresentará seqüelas. Ele poderá ficar com medo de ir à aula ou sentir-se vulnerável dentro da escola. O papel do educador é mostrar para o aluno que ele está seguro dentro do colégio”, explica.





Fernanda Zocchio conta que há cinco anos o Pueri Domus passou por essa situação. Um aluno de 12 anos foi seqüestrado no trajeto casa/escola e permaneceu por 40 dias no cativeiro. Quando foi libertado acabou voltando às aulas, mas depois de um tempo, a família optou por mudar-se para a Itália. “O clima na escola ficou muito pesado. É difícil processar coisas desse tipo, mas as crianças parecem lidar melhor do que a gente”, diz.





Dom Geraldo Gonzalez diz que nenhum aluno do Santo Américo foi seqüestrado, mas que a escola já passou por outras situações de violência, como o assassinato do pai de um dos estudantes. “Em qualquer circunstância de violência, oferecemos aos alunos acompanhamento religioso, espiritual e psicológico”, explica o reitor.






Prevenção e solução






Segundo Guaracy Mingardi, diretor científico do Ilanud, é muito difícil prevenir um seqüestro. “Ninguém pode ficar andando com um segurança o tempo todo. As escolas precisam cuidar de quem entra e quem sai. Existe uma prevenção que é muito individual, como, por exemplo, mudar o caminho habitual, mas ninguém pensa em colocar um segurança dentro de um ônibus escolar”, afirma. A saída, de acordo com ele, é uma repressão bem feita por parte da polícia e a orientação por parte das famílias e escolas. diz Sempre que pode Carla Bonissoni sai mais cedo de casa e muda o trajeto para ir a escola do filho.





Para o reitor do Colégio Santo Américo, Dom Geraldo Gonzalez, é preciso procurar as causas da violência e investir na educação. Luciana Guimarães, diretora do Instituto Sou da Paz, concorda que devem ser tomadas medidas emergenciais como evitar certo locais em alguns horários e aumentar o policiamento, mas é preciso pensar a longo prazo também. Segundo ela, uma experiência que pode ajudar na redução dos casos é a ocupação dos espaços públicos em grupos. “Seria uma ação mais coletiva. Um grupo de crianças acompanhado de duas ou três professoras pode inibir a ação de seqüestradores”, acredita.


 


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