Periferia em ritmo de poesia

Em lugar de roda de samba, rap ou hip hop, grupo monta cooperativa para promover a declamação pública de poemas

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Sérgio Vaz, o criador: pontapé inicial para uma rede de saraus na periferia

O silêncio é uma prece. A frase estampada em uma faixa colocada numa das paredes do Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, zona sul de São Paulo, chama a atenção de quem entra no local. Logo à frente, um microfone. Quem está acostumado a reuniões de sambistas pensa que o boteco, com mesinhas de plástico espalhadas pelo salão e no quintal, está sendo preparado para receber músicos que tocarão e cantarão até que a chama da vela se apague, como num encontro de "samba da vela", ritual criado em São Paulo para marcar o fim das sessões musicais em dias de semana. 

As apresentações começam pontualmente às nove da noite, e com o bar sempre lotado. Do microfone não se ouve samba. Só poesia. Versos na maioria das vezes escritos pelos cerca de 40 poetas que se inscrevem a cada encontro. Um a um, eles são chamados a recitar seus poemas. Nas cadeiras ou de pé, uma platéia atenta, que normalmente chega a ser de mais de 200 pessoas, ouve, aplaude, vibra.

Esse ritual se repete toda quarta-feira até as onze da noite. É o Sarau da Cooperativa dos Artistas da Periferia (Cooperifa), que ocorre desde 2001, época em que o poeta Sérgio Vaz resolveu reunir um grupo de artistas anônimos da periferia para apresentar suas obras numa fábrica abandonada no município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.


Sarau ritual

Em quatro anos – os três últimos já no Bar do Zé Batidão – a iniciativa não só se consolidou, atraindo poetas e simpatizantes de diversos bairros, como serviu de motivação e modelo para que a idéia fosse posta em prática em outros lugares.

"Sarau passou a ser comum na periferia. Hoje, tem no Campo Limpo, em Itapecerica, Suzano, Itaim Paulista, Osasco, Carapicuíba", diz Márcio Batista, professor de educação física e um dos coordenadores da Cooperifa. A iniciativa levou-o a mostrar as poesias até então engavetadas e a escrever outras tantas. "Tenho um livro pronto, são 50 poesias para editar", revela.


Zé Batidão, dono do bar na Chácara Santana: orgulho de ceder o local para que as pessoas sejam ouvidas

As reuniões no Bar do Zé Batidão fizeram com que o lugar ganhasse outra conotação. Às quartas, o local se transforma em centro de cultura e supre uma carência comum aos bairros periféricos das grandes cidades. "Não tinha lazer por aqui, agora o bar virou um centro cultural", diz o mineiro José Cláudio Rosa, o Zé Batidão.

Rosa também tem algumas poesias escritas, mas ainda não teve tempo de mostrá-las. O que é impossível em dia de sarau, com o corre-corre para atender o pessoal com seus quitutes – jabá com mandioca e o escondidinho, além das batidas e da caipirinha. Seu Zé se orgulha de ceder o espaço a uma iniciativa que, segundo ele, permite que as pessoas falem e sejam ouvidas.


Estímulo ao estudo

Aos 40 anos, nascido e criado no bairro Jardim Maria Sampaio, o poeta, músico e taxista Jairo Barbosa é freqüentador assíduo dos saraus há dois anos. De lá para cá muita coisa mudou em sua vida.

"Depois que conheci os saraus passei a ler muito. O primeiro livro foi Abusado, do Caco Barcelos", diz. Por conta do novo hábito, virou freqüentador de sebos – prática comum a diversos dos fregueses do Bar do Zé Batidão, muitos dos quais passaram, desde que descobriram a poesia, a carregar livros para todos os lugares por onde andam, incluindo esperas nos pontos de ônibus.

Jairo mantém um caderno e uma caneta na bolsa da porta do carro para anotar o que vê. Começou a escrever e tornou-se um artista da periferia. Com a auto-estima elevada, pretende voltar a estudar. Quer terminar o segundo grau e, quem sabe, fazer uma faculdade: música ou serviço social. "Os saraus estimulam muita gente a estudar", avalia.

Uma dessas pessoas é Rose Dorea, a "musa da Cooperifa", como a anunciam ao microfone quando chamada para declamar suas poesias, o que começou a fazer há pouco mais de um ano, embora freqüente os saraus desde o seu início. Rose voltou a estudar para entender melhor o que as poesias queriam dizer. Como já havia terminado o primeiro grau, foi fazer o supletivo de segundo grau, concluído em 2004.

"Foi difícil voltar. Quando a gente tem mais idade, buscamos na escola coisas que ela não oferece", reflete. Aos 33 anos, Rose, que trabalha em uma banca de jornal, diz ter o sonho de fazer uma faculdade de Direito. Quer ser promotora ou delegada. 


Oralidades


Rodando pela cidade, o taxista Jairo Barbosa toma nota do que pode virar assunto em suas crônicas

Figura de destaque no cenário da poesia independente de São Paulo e na realização dos saraus de poesia da Cooperifa, Sérgio Vaz destaca que a oralidade aproximou as pessoas, criando uma identificação a partir da expressão de diferentes olhares sobre o mesmo mundo. "Uma das propostas do sarau é o desenvolvimento da cidadania por meio da literatura", explica.
 
Não é à-toa que a temática dominante dos poemas recitados esteja relacionada às dificuldades do dia-a-dia na periferia. Fala-se de política, da polícia, da condição da mulher, do negro, dos excluídos. A qualidade da produção lembra, em alguns momentos, a crueza sem rimas ricas do rap. Exemplo disso são os versos de Um Rolê, escrito por Jairo Barbosa durante uma corrida noturna:


Faz tempo a mesma história se repete
171, xaveco, assim se segue
Pras criança, pros idoso, saúde ensino precário, sei do que falo, vivo no cenário

Defensor da necessidade de a periferia ter sua própria produção cultural e não só consumir o que vem de outras realidades, Barbosa planeja lançar um livro de crônicas. Quatro delas já estão escritas. A idéia é que a obra, que pretende batizar de Idas e Vindas, Crônicas de um Taxista, seja composta por dez textos contando histórias que vivenciou rodando pelas ruas da cidade.

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