Instituições de ensino apostam em aulas de redação

O objetivo é melhorar as habilidades de comunicação escrita dos alunos e elevar os índices de alfabetismo

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No Brasil, apenas 8% das pessoas com idade entre 15 e 64 anos são consideradas alfabetas proficientes. Outros 42% são alfabetos elementares; 23% intermediários; 23% rudimentares e 4% são analfabetos. A grande maioria (42%) da população que chegou ou concluiu o ensino superior está no nível intermediário. Nesse cenário, não há dúvidas: é preciso continuar ensinando os jovens a escrever, a ler e a entender textos argumentativos mesmo depois de encerrada a educação básica.

“Quando se tem 23% [da população] em nível rudimentar [de alfabetização], que não percebe sutilezas maiores em um texto, que não distingue uma ironia, não separa fato de opinião, que lê mecanicamente, mas tem dificuldade para ler além do que está no texto, isso pode implicar importantes reflexões de compreensão do trabalho, de novas tecnologias, de decisões de liderança”, afirmou Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do Instituto Paulo Montenegro, à Agência Brasil. A executiva estava comentando o estudo “Alfabetismo no mundo do trabalho” (veja mais na próxima pág.), de onde foram extraídos os dados anteriormente citados.

Professora de língua portuguesa em diferentes cursos do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), Ana Valéria Sampaio Reis afirma que os estudantes estão apresentando cada vez mais dificuldades para elaborar textos claros, objetivos, coerentes e sem erros de ortografia. Também faltam bases nos argumentos. “Há termos da gramática, como regência ou colocação pronominal, de que muitos nunca ouviram falar”, diz.

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Outro grande problema na opinião de Cristiane Alperstedt, diretora de qualidade e regulação acadêmica da Anhembi Morumbi, é a dificuldade dos jovens em diferenciar o uso e a aplicação da comunicação oral do uso e da aplicação da comunicação escrita.

Muitos especialistas veem esse problema como um efeito colateral da era digital. Mas em vez de declararem guerra às redes sociais e aos aplicativos de mensagem, os professores devem encarar o fato como um desafio, acredita Manuel Carlos Chaparro, professor do departamento de jornalismo e editoração na Escola de Comunicações e Artes da USP: “Se há uma tendência de ‘atrofiamento’ da escrita reflexiva e argumentativa, não estamos diante de um retrocesso, mas de um bom problema novo a desafiar os nossos mecanismos educacionais”, avalia.

Recentemente, o professor disponibilizou na internet o programa “Artes do bem escrever”, composto por 23 videoaulas que, em síntese, propõem que “para alcançar sucesso, a escrita tem de ser entendida, ensinada e praticada como forma de interlocução”. Dentre as recomendações do professor está o incentivo à leitura crítica. “Texto que não é lido não existe. E se for lido sem ser compreendido, é inútil, porque nada transforma […].”

Diferentes iniciativas
Desde 2013, o Unisal oferece aulas de língua portuguesa nos cursos de psicologia, pedagogia, história, matemática, filosofia, relações públicas, logística, administração e engenharias. A disciplina é obrigatória nos 3º e 4º semestres. “Teve de ser assim porque a adesão voluntária foi pequena, principalmente dos alunos de exatas”, conta a docente.

A metodologia usada é inspirada no Writing across the curriculum (WAC: escrita através do currículo), a mesma utilizada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em resumo, por meio do WAC, os professores estimulam os estudantes a escrever com suas próprias palavras o que aprenderam. Outro exercício é escrever com estruturas e estilos textuais próprios de cada área de saber. “Os textos devem curtos, individuais e manuscritos presencialmente. O feedback também é individual e aos estudantes deve ser dada a oportunidade de reescrever o texto depois de esclarecidas as dúvidas”, explica Ana, que esteve no MIT para aprender a metodologia. A professora afirma que os bons resultados são observados pelos próprios alunos em suas autoavaliações. “Os estudantes reconhecem suas limitações e empenham-se em ler mais, escrever mais. Suas habilidades comunicativas melhoram e seus textos também”, afirma.

Nas Faculdades Integradas de Botucatu (Unifac), onde também são oferecidas aulas obrigatórias de redação nos primeiros semestres, os docentes confirmam que o incentivo traz uma série de benefícios. “O trabalho permite a familiarização dos alunos tanto com a linguagem acadêmica, quanto com a linguagem de mercado, contribuindo para o desenvolvimento de múltiplos saberes, competências e habilidades. Uma evidência é o desembaraço que apresentam nas exposições orais, nos trabalhos de iniciação científica e na inserção no mercado de trabalho”, afirma Cecilia Anderlini, diretora da instituição.

Já na Universidade Anhembi Morumbi, a solução foi fazer com que parte das avaliações passasse a conter questões dissertativas. Os exames são corrigidos a partir de uma matriz que considera o desempenho do estudante quanto ao uso da norma culta da língua portuguesa, à coerência, à coesão e à apresentação. Se tais aspectos não forem atendidos, desconta-se um ponto da nota final.

“A motivação para essa iniciativa se deve ao entendimento de que o uso correto da língua é essencial a qualquer profissional, independentemente de sua área. Reforçando esse direcionamento, a partir de 2017 teremos, como um dos instrumentos de avaliação continuada, uma prova composta integralmente por questões dissertativas”, adianta a diretora Cristiane. “Os estudantes estão cientes de que é responsabilidade deles mesmos se fazerem claros e objetivos. Mas o desenvolvimento de habilidades de comunicação escrita é uma questão que demanda tempo. Entendemos essa mudança como um processo”, completa.

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