Pensando a própria carreira

Com mudanças no mercado de trabalho, o educador começa a enxergar a própria profissão como um bem a ser gerido, de forma a investir na formação continuada e ampliar sua atuação para além da sala de aula

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Torna-se necessária uma mudança na visão de desenvolvimento profissional, apontam especialistas

Quando Ednilson Ferreira resolveu deixar o seminário presbiteriano para se tornar professor de história, tinha certeza de ter escolhido uma carreira que conciliava investimento pessoal com missão social. Desde então, Ferreira começou uma construção lenta do caminho que gostaria de percorrer. Foi docente da rede particular, efetivou-se na rede esta­dual e, mais recentemente, tornou-se diretor de uma escola de educação infantil, cargo que exerce de forma concomitante à de professor. Enquanto isso, aprimorou-se em especializações na área de gestão e concluiu um mestrado. Aos 46 anos, já traçou o próximo passo: iniciará um doutorado, tão logo encontre tempo em seu dia repleto de atividades.

Ferreira traçou seu plano de estudos e foi em frente. “As portas se abrem, mas nunca por acaso”, diz. “Se queremos transformar os outros, precisamos estar preparados para nos transformar também”, é o lema do educador, que faz questão de ressaltar que o objetivo nunca é melhorar apenas de cargo, mas realizar um melhor trabalho para a sociedade. “Essa é a função do professor”, diz.

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Assim como Ferreira, muitos educadores têm olhado para a própria carreira como um bem a ser cuidado no curto, médio e longo prazo, conceito bastante difundido na área de Recursos Humanos. “Está mais do que na hora de dar esse passo, que já está muito maduro em outras áreas profissionais. É necessário para a profissão docente e para os indivíduos que a exercem”, analisa o consultor Carlos Bitinas, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), que há 30 anos trabalha com gestão de pessoas.

A busca pela gestão da própria carreira pode ser uma resposta às mudanças do mercado de trabalho. Segundo os profissionais de RH, hoje, por exemplo, estão em falta nas escolas particulares profissionais com bom trânsito na área de tecnologia. Fora da sala de aula também surgem oportunidades. Profissionais com experiência em sala de aula começam a encontrar espaço em organizações sociais e empresas que aumentam sua presença na área da educação, como as editoras, empresas de softwares educativos e outros.

A consultora Maíra Habimorad, sócia de uma das maiores empresas de seleção e recrutamento de jovens estagiários em toda a América Latina, dá um exemplo do que ocorre no mundo universitário. Recentemente, o Google comprou duas jovens empresas de tecnologia, fundadas no laboratório de inteligência artificial da Universidade de Oxford. Com isso, cinco doutores da universidade, uma das mais tradicionais do mundo, passarão a atuar também dentro do Google. “Movimentos como este só podem ser possíveis para acadêmicos que praticam de alguma forma este conceito de gestão de suas carreiras”, diz.

Os desafios, porém, são conhecidos, como apontam especialistas em educação. Desvalorização docente, baixos salários, falta de plano de carreiras e baixa qualidade dos cursos de formação continuada são apontados como desafios (leia mais na página 49). Ex-secretário da Educação de Pernambuco e diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos concorda que as mudanças em curso exigem do professor uma nova postura diante da vida. “É preciso que o professor compreenda a necessidade de uma formação contínua, e que isto possa ser visto por ele como investimento e não mais uma carga de trabalho nas costas”, diz. Mas ele lembra que o professor não deve estar sozinho nessa tarefa. “Também é importante que os gestores públicos ou privados reconheçam esse esforço, promovendo a verticalização na carreira”, completa.

Formação continuada
Como, então, um educador pode gerenciar sua carreira em meio a um cenário de falta de políticas sistêmicas para tal? Valorizar o próprio trabalho e conhecimento é o primeiro passo, mas saber analisá-los é a maior ajuda para a tomada de decisões, dizem os gestores de Recursos Humanos. “Precisamos saber quais são nossas qualidades, as áreas que podemos trabalhar mais e as competências que são necessárias para chegar aonde queremos”, diz Luciana Camargo, diretora de RH da IBM, que desenvolveu projetos para a IBM ligados à educação nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. “Trata-se de se perguntar sobre o que gosta, o que não suporta, o que te mobiliza, no que você acredita”, completa a consultora Maíra. Na visão de Carlos Bitinas, da FGV, esse é um exercício complexo, mas “inescapável”. “É preciso saber qual é a sua lista de desejos, objetivos e necessidades”, diz. “Não é à toa que hoje se fala tanto em autoconhecimento no mundo do trabalho”, completa.

O passo seguinte é estudar o próprio mercado onde se atua e o que se considera como competências nas atividades que se desenvolve. Trata-se de perguntar que características estão sendo valorizadas em seu campo de atuação. Por fim, lembra Bitinas, é preciso considerar as circunstâncias. Ou, nas palavras de Maíra, o campo de atuação. Há profundas mudanças em curso, que podem gerar novas oportunidades de ação e de desenvolvimento profissional, mas elas precisam estar atreladas aos valores de cada profissional.

Desse exercício de reflexão é que surgem as decisões de busca por cursos. Ele pode levar à conclusão, por exemplo, de que aprender definitivamente inglês pode ser mais urgente do que iniciar o mestrado; ou que se atualizar em relação ao uso da tecnologia pode trazer impacto mais imediato na carreira.

“O conhecimento da língua estrangeira se aplica para qualquer profissão. Você pode não precisar dele diariamente para se comunicar, mas qualquer profissional, para ter uma boa formação, busca conhecer bibliografias nacionais e internacionais em todas as áreas do conhecimento”, diz Luciana. Ela ressalta, também, que competências mais gerais são muito valorizadas, como liderança, boa comunicação e capacidade de trabalhar em equipe.

Uma vez dados esses passos é a hora de pensar na formação continuada. Hoje, há uma grande oferta de cursos presenciais e a distância, seja ofertados por universidades, seja mantidos por instituições de pesquisa e assessoria. Este é o caso, por exemplo, do Instituto Mathema, na área de ensino da matemática; do Avisa Lá, do Cenpec, entre outros. Algumas escolas também mantêm centros de formação abertos para público externo, como é o caso da Escola da Vila, o Projeto Vida, o Santa Maria e o Castanheiras, todas de São Paulo.

Mas, a qualidade da maior parte dos cursos ainda é motivo de preocupação e um dado a ser considerado pelo educador. Para Mozart Neves Ramos, especialista no tema da formação de professores, é preciso qualificar melhor os atuais programas de educação continuada. “Esses programas pre­cisam ainda ser capazes de dialogar com o chão de escola, e que, ao fazê-los, o professor possa sentir a mudança concreta no seu cotidiano escolar”, acredita.

Um estudo recente do Instituto Ayrton Senna, realizado em parceria com o The Boston Consulting Group, mostrou que o modelo de formação dos professores em serviço ainda é pouco eficaz, privilegiando modalidades mais tradicionais e de baixa aplicabilidade em sala de aula. Dos três mil profissionais ouvidos, menos de 2% relataram iniciativas reconhecidamente eficazes como a mentoria, ou seja, a orientação e acompanhamento por um profissional mais experiente.

Para profissionais de Recursos Humanos, entretanto, o mais importante ao traçar um plano de carreira é saber o que se busca – se é a resposta para questões mais localizadas ou é uma estratégia de pós-graduação. Este é o caso, por exemplo, dos cursos de gestão, para quem almeja postos de coordenação ou direção. A consultora Maíra acredita que esse é um caminho em expansão. “Tenho acompanhado de perto uma série de projetos e propostas inovadoras nas escolas, sem falar nos projetos de educação continuada corporativa. Em todos os novos modelos propostos, o professor é um dos elementos centrais”, diz. Para ela, o professor que conseguir repensar seu papel valerá ouro.

Novas perspectivas
Na visão de Jorge Proença, empreendedor que criou a Kiduca, empresa de games educacionais utilizados por 18 mil alunos, a carreira de educador está ressurgindo com uma nova perspectiva. “Aos poucos a sociedade vem revalorizando o professor. Acredito que os que estão na carreira precisam querer fazer diferença na vida dos seus alunos e se desenvolver com competências e habilidades que os credenciem como profissionais no mercado como um todo”, diz.

No campo da formação, outras mudanças podem estar em curso. Ramos desenvolveu uma proposta de formação de professores, que denominou Quero ser professor, apresentada ao Ministério da Educação. O objetivo é estimular os jovens do ensino médio a ingressar na carreira, com um suporte específico para chegar à licenciatura mais bem preparados do que ocorre atual­mente. A formação do futuro professor chegaria, assim, a levar sete anos, incluindo um modelo de residência pedagógica.

O segundo passo seria criar um programa de certificação em nível de pós-graduação focado nos conhecimentos que faltam ao docente em sala de aula. Por fim, o terceiro pilar seria criar nas universidades um centro de formação docente que integrasse professores universitários com aqueles mais qualificados da Educação Básica. Com tudo isso, Ramos acredita que a profissão teria um grande potencial de atração, pois é, ao seu ver, apaixonante. “Ser professor é algo extremamente gratificante. Sou professor universitário há 37 anos e fui também da Educação Básica, e o que venho colhendo ao longo da vida deve-se ao meu amor pelo magistério. Se um dia renascer, quero ser professor novamente”, diz.

Os especialistas em Recursos Humanos apontam ainda outro dado. Cuidar da autoformação é um passo necessário na gestão da carreira, mas não é o único. Estar em contato com colegas de outras escolas permite ampliar o repertório de experiências e conhecer oportunidades que não lhe chegariam por outros canais. Hoje, as redes sociais facilitam muito esse processo, e podem ser uma boa ferramenta de relacionamento profissional. Mas os contatos pessoais continuam sendo imprescindíveis. Daí a importância de aproveitar o tempo dos congressos para conhecer pessoas, estabelecer relações, apresentar-se como profissional.

O consultor Brian Perkins, da Escola de Professores da Columbia University, de Nova York, se surpreendeu com o fato de os professores brasileiros não terem um cartão de visita, por exemplo. “É muito importante que o professor se apresente sempre como um profissional, com toda a dignidade e a importância de qualquer carreira”, diz. Para Brian, os conceitos de liderança devem fazer parte da formação do educador, em qualquer posição que ocupe.

Os professores tendem a ver a profissão com bastante ceti­cismo, mas se há um ponto comum na fala dos especialistas em mercado é que o futuro depende dos educadores. “Esta é uma das profissões mais lindas que existem, pois tem um impacto muito grande na formação do ser humano em todas as suas dimensões. Sob o ponto de vista de Recursos Humanos vejo que existe muito espaço e oportunidade de melhorar as perspectivas de crescimento de carreira, gestão do conhecimento, avaliação de performance, reconhecimento e remuneração”, analisa Luciana Camargo, da IBM.

Para fechar o círculo, no entanto, é fundamental que as escolas também repensem seus investimentos em formação. “Tudo seria mais fácil se as escolas tivessem políticas claras de carreira e um sistema de remuneração com diferenciação por performance, num movimento também associado à formação”, diz a diretora da IBM.

Algumas poucas escolas começam a dar passos nesta direção, inclusive investindo em setores de RH. É o caso do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, que inspirou a experiência do Colégio Uirapuru, em Sorocaba. O plano de carreira leva em conta formação, cursos de especialização e aperfeiçoamento, mestrados e doutorados, avaliação institucional, entre outros critérios. Esses critérios estabelecem referências e níveis, com foco no mérito, que levam a melhorias salariais.

Para Maura Bolfer, coordenadora do Uirapuru, esse foi um grande passo. “Desde 1996, a LDB fala em valorização do professor, mas as carreiras baseavam-se na evolução por tempo”, lembra. A coordenadora se espelha em sua própria trajetória para avaliar a importância do reconhecimento do investimento que os professores fazem em sua carreira. Professora de formação, Maura fez magistério (nível médio), pedagogia, especializações, mestrado e doutorado. “Há mais de dez anos trabalhando com formação inicial e continuada de professores, sempre digo aos alunos que é fundamental reservarem um percentual do salário para investir na profissão, seja comprando um livro seja para pagar um curso. Tenho certeza de que para um bom professor não faltarão boas oportunidades.”

Pós-graduação

Uma das grandes preocupações do professor brasileiro ainda diz respeito a consolidar sua formação básica. Hoje, segundo dados do MEC, 25,2% dos professores da Educação Básica não têm curso superior, o que é uma determinação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Ao mesmo tempo, 30% dos docentes da educação têm algum tipo de pós-graduação, via de regra as especializações de curta duração. Com o avanço da consequência da importância da educação continuada, especialmente na rede pública, a oferta cresceu muito nos estados e nos municípios. Por isso, segundo os dados do MEC, 83% dos docentes participaram de atividades de formação, nos dois anos anteriores à pesquisa, mas 56% em cursos com menos de 80 horas de duração.

 

O desafio salarial

Como profissional, um dos primeiros critérios de atração e fixação é, certamente, o salário, que é um dos grandes desafios do país. Hoje, de acordo com dados do IBGE, a média salarial do professor da escola básica brasileira (R$ 1.874,50) equivale a 51,7% do salário de um profissional com formação de nível superior (R$ 3.623,50). O Piso Nacional do Magistério, implantado por lei federal há seis anos, ainda não é respeitado em sete estados, e será reajustado em breve, segundo o Ministério da Educação, para R$ 1.697. Metade dos municípios brasileiros ainda não tem planos de carreira. Na rede privada, raras são as escolas que oferecem qualquer tipo de plano de carreira – sequer há benefícios associados à profissão, como planos de saúde. Para completar o quadro, dados do MEC indicam que 44% dos docentes realizam outras atividades profissionais para complementar a renda, embora a maioria se mantenha no campo da educação.

O Plano Nacional de Educação (PNE) trouxe um vento de esperança para profissão docente da rede pública. Entre três das 20 metas, o tema é tratado – tanto para a equalização dos salários com os pagos para os profissionais de mesma escolaridade como para instituir planos de carreira para os educadores da rede pública nos próximos dois anos. Cada meta é acompanhada de um conjunto de estratégias de implementação. Uma delas, por exemplo, quer dar maior eficácia ao Piso do Magistério, abertamente descumprido por muitos estados e municípios. Outra trata de indicadores que permitam acompanhar mais claramente a evolução do salário do professor. O PNE ainda prevê a efetivação dos docentes e a criação de estágios probatórios e acompanhamento dos professores iniciantes por profissionais mais experientes, prática comum em muitos países. Outra medida importante é a proposição de assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais da rede pública. Embora as medidas propostas deem uma sinalização positiva – até porque incorporam demandas históricas dos professores – o caminho ainda é longo e incerto, avaliam os especialistas.

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