Pensamentos sob o olhar

Cada vez mais onipresentes, as produções audiovisuais continuam, em boa medida, sendo reproduzidas acriticamente nas escolas. Mas começam a aparecer os decifradores de sua linguagem – e de suas armadilhas

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O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi a primeira comunidade a participar do projeto de Laís Bodanzky

Nos primeiros anos do século 20, quando a exibição de filmes começou a ganhar espaço em vaudevilles e outros locais caracterizados pela multiplicidade de atrações, as pequenas narrativas veiculadas estavam longe da linearidade que alcançariam poucos anos mais tarde. Temerosos de que as formas não narrativas levassem as plateias a um excessivo estado de excitação – ou a um “nervosismo insalubre”, como escreve o historiador Tom Gunning, um dos principais artífices da revisão histórica desse período do cinema – grupos reformadores americanos buscaram de toda forma reproduzir no novo meio os princípios do teatro e do romance do século 19. Ou seja, recriar nas telas a ilusão de reprodução da realidade pela arte, direcionar o olhar do público a uma leitura de caráter universalizante.

Um século depois, mesmo com todo o advento das mídias digitais e de seu universo fragmentário, a tentação da narrativa audiovisual clássica e de seu efeito de realidade continua mais presente do que nunca. Nas escolas, os filmes e programas televisivos diversos chegam como documentos comprobatórios de realidades, sem que haja discernimento mesmo por parte dos professores de seu caráter seletivo e da articulação discursiva que há por trás deles.

Para colocar essas e outras questões em perspectiva, estudiosos, docentes e realizadores têm, cada vez mais, tentado destrinchar a linguagem cinematográfica e os filmes, na tônica de que, no mais das vezes, ambos falam muito mais sobre a época em que foram produzidos e o olhar de quem produziu do que sobre os objetos retratados.

Com o intuito de facilitar o trabalho dos professores com a ferramenta audiovisual, a cineasta Laís Bodanzky, premiada por filmes como Bicho de Sete Cabeças (2001), Chega de Saudade (2008) e As Melhores Coisas do Mundo (2010), desenvolveu um projeto educativo com workshops e palestras. O projeto também mantém, por três semanas, uma sala de cinema em comunidades de baixa renda.

“Através dessas ações queremos fortalecer a formação das pessoas na linguagem audiovisual, o que é fundamental hoje em dia. Além disso, queremos trabalhar em parceria com os professores na criação de novas perspectivas para a educação”, destaca Laís. O objetivo dela é fazer com que a escola dialogue mais com os jovens atuais e que proponha atividades mais próximas do universo referencial dos alunos. O primeiro passo para isso é ver determinado filme apenas como um ponto de vista sobre determinado tema e permitir que os alunos desenvolvam suas próprias opiniões a partir do que viram, sem a interferência da visão do professor. Nessa perspectiva, o audiovisual é visto como uma ferramenta para criar uma escola com visão mais contemporânea.

Cinema para educar
O projeto é uma extensão do Cine Tela Brasil, iniciativa de Laís Bodanzky em parceria com o também cineasta Luis Bolognesi, que já exibiu gratuitamente filmes brasileiros em mais de 340 cidades do país desde 2005. “Durante esse período fomos cada vez mais nos certificando do poder do cinema para educar. Já tínhamos um desejo grande, há bastante tempo, de aproximar nosso trabalho da educação formal”, conta a cineasta.

A primeira comunidade a receber o projeto, que tem duração de três semanas e oferece três workshops para professores, que também aprendem a montar oficinas de vídeo e cineclubes nas escolas, aconteceu no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, entre 28 de maio e 17 de junho. Também estão confirmadas edições em São Paulo, São Carlos e Limeira.

“Levar o cinema para as escolas não significa abandonar os livros. Mas é fundamental que a escola faça a mediação da relação dos alunos com o audiovisual, preparando-os para uma leitura mais reflexiva e crítica daquilo que eles assistem”, acredita Henry Grazinolister, coordenador pedagógico do Educativo Tela Brasil. “Existe ainda resistência por parte de alguns professores, que veem o cinema como algo não importante e transmitem essa visão aos alunos. Mas acreditamos que o cinema pode ser ótimo para os alunos refletirem e verem o mundo de forma diferente e com mais atenção”, finaliza Laís.

A presença do cinema na escola pode ir muito além da simples exibição de um filme para complementar o conteúdo de determinada disciplina. Como defendia o  sociólogo francês Pierre Bourdieu, a experiência das pessoas com o cinema contribui para desenvolver o que se pode chamar de “competência para ver”, ou seja, de compreender, analisar e apreciar qualquer história contada em linguagem cinematográfica, o que faz bastante sentido numa época marcada pelos audiovisuais.

Para Wenceslao Oliveira, pesquisador do Laboratório de Estudos Audiovisuais da Universidade de Campinas (Unicamp), o “Olho”, o uso do cinema para a educação tem ao menos três vertentes destacadas. Em primeiro lugar porque estamos inseridos em um mundo onde o cinema é responsável por muito do que pensamos e sonhamos, em termos de projeções de modos de ser e de lugares. Portanto, suas imagens e sons atravessam as escolas de múltiplas maneiras. Em segundo lugar, porque as obras do cinema e do audiovisual participam da educação visual realizada no mundo contemporâneo. E, por último, porque o “audiovisual como linguagem tem grande potência poética para fazer deslizar as políticas de subjetivação em outras direções, mais plurais, mais abertas ao novo, no sentido que [a filósofa] Hannah Arendt dá a esta palavra”, detalha.

Modelos
E é nesse sentido que a escola Carlitos, em São Paulo, introduziu o cinema em sua grade curricular. A expectativa é que os alunos se tornem espectadores ativos da arte cinematográfica desenvolvendo conhecimentos para que aprendam aspectos objetivos e subjetivos do filme. “Queremos que o aluno aprecie com critério diferentes produções, que entenda por que um filme se torna um clássico”, explica a diretora pedagógica da unidade 1 da Carlitos, Laura Piteri. A escola desenvolve diversas estratégias. A primeira delas é levar os alunos a salas de cinema. Para isso firmou uma parceria com o Espaço Unibanco, espaço exibidor de São Paulo, para garantir que o aluno tenha contato com a especificidade que uma sala de exibição oferece.

“A escolha do filme também é uma estratégia importante porque são filmes difíceis, pelos quais eles provavelmente não se interessariam espontaneamente” diz Laura. Depois disso, é proposta uma análise dos filmes considerando três eixos: a narrativa, o tempo, e as especificidades fílmicas, como o enquadramento, a montagem, os movimentos de câmera, a articulação entre som e imagem. Por fim, os alunos dos 2º, 5º e 8º anos produzem filmes de animação.

No entanto, há outros modelos. A Escola Municipal Aparecida Elias Draibe, de Cajuru, interior de São Paulo, primeira colocada no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2009, adotou o cinema como ferramenta interdisciplinar para seus 3,2 mil alunos. “Tentamos criar um ambiente para que o aluno se aproxime ao máximo da experiência de uma sala de cinema e da imersão necessária para a apreciação de um filme, que é uma ferramenta lúdica para sedimentar conteúdos trabalhados em sala de aula. O resultado é que a relação dos alunos com o que está sendo passado mudou completamente”, explica a coordenadora pedagógica Hélida da Silva Barbosa. 

Oliveira, da Unicamp, acredita que as duas possibilidades pedagógicas – o cinema como objeto de estudo e como ferramenta de aproximação de outros conteúdos – não se opõem, uma vez que é possível tomar um filme ou trecho dele para aproximar os alunos de certo tema ou questão e, ao mesmo tempo, conversar sobre este filme apenas como uma versão cinematográfica ou videográfica para aquele tema ou questão.  “Mas quando se lida somente com o cinema como ferramenta, o mais frequente nas escolas, elimina-se a conversa de que forma é conteúdo e de que o cinema e o audiovisual apresentam sempre a maneira de autor da obra grafar aquele tema, história, lugar, sensação e relação. Documentaristas como Eduardo Coutinho frequentemente apontam isto em suas entrevistas”, pondera.

O audiovisual pode servir de complemento a outras disciplinas, defende a mestranda na Escola de Comunicações e Artes da USP e orientadora educacional no ensino médio do Colégio Bialik, Krishna Tavares, desde que o professor esteja minimamente preparado para isso. “O uso desse recurso em sala de aula por outras disciplinas deve ser preparado, para que seu uso não tenha apenas um caráter ilustrativo. O uso de filmes em qualquer disciplina exige do docente um domínio, introdutório que seja, da história do cinema e da linguagem audiovisual”, ressalta.

Na mesma linha vai Carmem Zink Bolognini, professora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autora do livro Discurso e ensino: O cinema na escola . “A linguagem audiovisual ganhou muita força nos nossos tempos. Ela demanda um investimento analítico por parte de todos. Para que os professores preparem seus alunos, é importante que eles mesmos tenham acesso a um aparato teórico que pode subsidiar o processo de análise. As diversas materialidades significantes devem receber atenção, pois elas têm as mesmas características da língua: não transparência, sentidos ancorados à história e à ideologia.”

Quando não vistas como um discurso formulado a partir de um lugar de enunciação, essas características podem fazer com que o docente, especialmente quando exibe um filme sobre um tema que não domina bem, o acabe tomando como verdade acabada. “Nessa circunstância, ele tende a lidar com aquilo como uma obra verdadeira e não uma visão pessoal do autor. Até mesmo documentários partem do ponto de vista do autor”, sublinha Elisabete Bullara, secretária executiva da Cineduc Cinema e Educação, entidade filiada ao Centro Internacional do Filme para a Infância e a Juventude e também integrante da Rede Latino-Americana em Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino), que abriga estudiosos de diversas universidades.

Caráter ilustrativo
Para Cleuber Inácio Amaro, integrante de um grupo que estuda a relação entre cinema e educação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), habitualmente no Brasil os professores usam os filmes como um recurso didático auxiliar, e não a obra cinematográfica como uma produção única, com inúmeras conexões conceituais e estéticas. Isso pode se dar pela falta de familiaridade dos professores com estudos sobre linguagem cinematográfica ou pelas limitações técnicas que podem encontrar na prática do uso de filmes na escola. Mesmo reconhecendo a prevalência desse primeiro grupo, Amaro completa: “Observamos também que existem professores de escolas públicas e privadas realizando trabalhos mais profundos, que procuram explorar a pluralidade de aspectos e discussões que uma obra cinematográfica propõe. Mas esse diagnóstico ainda é resultado de uma investigação superficial”.

A indefinição sobre os objetivos de utilização é outro problema apontado. “Tivemos uma boa evolução quanto ao uso dos filmes. Mas, infelizmente, ainda falta clareza sobre o uso dos filmes em sala de aula. Eles não são programados e avaliados com base no potencial pedagógico que possuem”, diz João Luís de Almeida Machado, coordenador pedagógico da escola Moope, em São José dos Campos (SP).

Enquanto esperam por essa clareza, muitos estudantes – e professores – continuam a ver filmes ainda sob a mesma ótica unificadora que resultou da ação de setores da sociedade norte-americana no século passado, cujas ideias se tornaram majoritárias em todo o mundo. Numa época em que a palavra diversidade tem sido maltratada pelo uso excessivo, seria de bom tom exercê-la no que diz respeito aos produtos audiovisuais que são objeto do nosso olhar.

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