Pela ação orgânica

Ausência de políticas públicas claras leva, segundo professor, a atuação desorganizada do país na área cultural

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Autor de
A Casa da Invenção

(Ateliê Editorial, 271 págs., R$ 38) e de
Biblioteca

(Ateliê Editorial, 120 págs., R$ 28), o professor Luís Milanesi, diretor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, lamenta que, nos últimos anos, tenha crescido o desinteresse pela educação e cultura – “aliás, indissociáveis”.




A primeira biblioteca brasileira surgiu da iniciativa privada. Hoje, estamos fadados a depender somente da atuação do Terceiro Setor nessa área?


Não. O governo, com a sociedade, deve definir políticas públicas e implementá-las. O diálogo permanente com setores da população, de preferência organizado, é fundamental. Em alguns casos, o governo deve ser mais forte porque a sociedade é mais fraca. Em outros, quando há sólidas formas de organização, deve assumir papel mais regulatório e menos executivo.




Os colégios particulares têm a responsabilidade de abrir suas bibliotecas e centros culturais à comunidade?


Não. Seria ótimo se eles cuidassem dos serviços de informação e de ação cultural para os seus professores e alunos. Isso, infelizmente, nem sempre acontece.




Algumas instituições particulares abrem suas bibliotecas aos moradores do bairro, mas com prioridade para os alunos matriculados. Esse comportamento não ajuda a perpetuar uma educação para a dominação?


Cada instituição avalia o que pode oferecer e o que não pode. Abrir a porta a todos é uma ação generosa e… inteligente. Mas nem todos são inteligentes e… generosos.




A política cultural brasileira tem se tornado, como o senhor costuma dizer, um “feixe de eventos”?


Ainda estamos mais preocupados com eventos isolados. A idéia orgânica de ação cultural não se firmou. Por isso, a cultura é ação desorgânica ou desorganizada. Faltam políticas culturais claras.




O senhor diz que “centro cultural” é um álibi para a pasmaceira cultural. Como avalia o projeto dos CEUs construídos pela Prefeitura de São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT)?


Muitas vezes, as prefeituras criam espaços culturais que funcionam como “cartões postais” da cidade, mas se esquecem do conteúdo. Os CEUs, vinculados como idéia ao pensamento de Darcy Ribeiro, têm o DNA correto. Deveriam ser constantemente avaliados, aperfeiçoados… O esforço pela educação é a salvação da lavoura do país. Não se deseja aplicar bilhões na transposição do rio São Francisco? Por que também não se aplicam bilhões para irrigar as regiões pobres com escolas de alto nível? Morre-se de ignorância mais do que de fome.




Que experiências o senhor apontaria como possíveis núcleos irradiadores de mudança nas bibliotecas tradicionais?


Peço a todos que me ajudem a encontrar experiências extraordinárias no âmbito das bibliotecas. Parece-me que houve um momento de imaginação forte e realizações entre os anos 80 e 90. Depois, o refluxo. Fala-se pouco em bibliotecas no Brasil, mas muito na produção de livros, o que me parece contraditório e pouco inteligente. O gosto pela leitura nasce na escola. Mas escolas sem bibliotecas e sem professores leitores são o maior perigo para a indústria do livro. Os países mais desenvolvidos têm políticas de leitura muito mais fortes do que nos países menos desenvolvidos. Deve haver alguma relação causa/efeito.




Reportagem: Faoze Chibli




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