Participar se aprende participando

Educador português defende que a participação dos pais na vida escolar precisa passar da esfera do dever para o campo do direito

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Para o educador português João Barroso, professor catedrático da Faculdade de Educação da Universidade de Lisboa, a sensação de desvalorização dos docentes e as queixas da baixa participação das famílias não são questões brasileiras, mas temas recorrentes também em outros países, como Portugal. Na entrevista abaixo, concedida à Educação, Barroso defende que a participação precisa passar da esfera do dever para o campo do direito, especialmente nas escolas públicas. 

Leia mais: O que cada escola realmente quer quando procura o envolvimento da família?

Muitas pesquisas mostram que a escola é uma das instituições em que os pais mais confiam. Contudo, a sensação de muitos educadores é a de que são desrespeitados pelos pais. Os docentes sentem-se desvalorizados pela sociedade, no Brasil. Essas informações não são contraditórias? Que tensão elas escondem?
A confiança que os pais depositam na instituição escola resulta de dois fatores principais: o valor social da educação e o profissionalismo dos professores. No primeiro caso essa confiança exprime o reconhecimento pelo papel que a escola desempenha na guarda das crianças; no acesso ao saber e à partilha de uma cultura comum; na mobilidade social ascendente, sobretudo na construção da “classe média”. No segundo caso, a confiança resulta da própria relação assimétrica em que se baseia o ato pedagógico – o “saber” do professor e o “não-saber” do aluno – e do diferencial de informação existente entre a escola e a família no que se refere ao que “é melhor” para o futuro das crianças e dos jovens.

Isso tende a mudar?
Esta situação tem vindo a mudar à medida que, por um lado, aumenta a escolarização da população e em que, por outro, a educação é governada pela lógica do mercado. No primeiro caso, os pais tornam-se consumidores avisados e querem emitir opinião e interferir cada vez mais nas trajetórias escolares dos filhos. No segundo caso, a educação adquire sobretudo um valor de uso e os professores são remetidos para um papel de executantes e prestadores de um serviço. Embora neste domínio da relação entre os pais e a escola não conheça muito bem o que se passa no Brasil, julgo que, à semelhança do que se passa em Portugal e em muitos outros países, o “desrespeito” dos professores e a sua “desvalorização” são conjunturais e não refletem a opinião majoritária. Claro que há incidentes e conflitos,mas eles resultam de contextos sociais e escolares específicos.

Há a queixa recorrente de que os pais participam pouco. Se isso é verdade, por que isso ocorre, em sua visão?
A queixa contra o déficit de participação dos pais é recorrente, em todos os países, mesmo naqueles em que os pais detêm uma representação relevante nos órgãos de gestão escolar e em que estes gozam de efetivos poderes de decisão. Arrisco três razões plausíveis. A primeira refere-se ao fato de a participação dos pais ser vista, normalmente, por parte dos professores, como um “dever” dos pais “ajudarem” a escola a resolver os seus problemas e não como um “direito” que lhes assiste quer como cidadãos, quer como responsáveis pela tutela dos filhos. A segunda razão tem que ver com o diferencial que existe, no caso dos pais pouco escolarizados, entre a cultura escolar e a cultura familiar. A distância entre a escola e as famílias explica que muitas vezes os pais não se sintam “habilitados” a intervir nas questões escolares e só aceitem ir à escola quando obrigados a resolver problemas dos filhos. A terceira razão reside nas dificuldades que a vida moderna, principalmente nos centros urbanos, coloca à participação cívica. Os pais têm pouco tempo disponível, demoram muito tempo nos transportes e chegam em casa tarde e com pouca disposição para se dedicarem aos problemas escolares dos filhos.

Há quem acredite que o peso da participação da família é supervalorizado e de que as famílias não têm condições de participar mais, até porque educação é um tema complexo. O quanto de pedagogia os pais devem conhecer para participar?
João Barroso – A participação dos pais deve respeitar o profissionalismo dos professores e não deve interferir nas questões pedagógicas.Os domínios a privilegiar são: o acesso à informação sobre a escola e seus resultados; a participação, através de órgãos representativos, na definição e avaliação dos grandes documentos de orientação estratégica; a colaboração na educação dos filhos, respeitando o campo específico das competências dos diversos atores. A participação dos pais deve ter em conta dois “estatutos” diferentes: o de pais responsáveis pelo acompanhamento da educação dos seus filhos (participação individual) e o de cidadãos interessados nas questões educativas da cidade e, nessa qualidade, responsáveis, com outros,  pelo controle social da escola pública.

O sentido do termo participação tem diferentes conotações, quando pensamos em famílias pobres ou nas escolas particulares, que atendem às classes altas? E, se for, as estratégias de aproximação também devem ser diferentes?
Na escola pública, os pais não constituem um grupo homogêneo e a sua diversidade é tanto ou mais vasta do que a dos alunos que frequentam essa escola. No ensino privado, a seleção social e a escolha da escola homogeneiza o corpo de pais. Na escola pública a participação dos pais é um direito de cidadania e por isso todos devem poder exercê-lo em condições de igualdade. A investigação sobre a autonomia das escolas tem mostrado que existe um enviesamento social na participação dos pais nos conselhos escolares, com uma reduzida participação da representação das classes populares.

O que o senhor pensa de iniciativas como escola de pais?
Não me parece que seja uma boa solução. A participação aprende-se participando. Em vez de “escola de pais” prefiro os “pais na escola”.

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