Para pensar a arte

Conheça a experiência de uma escola paulistana cujo currículo dá ênfase ao ensino de diferentes linguagens artísticas

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* Linguagens, Códigos e suas Tecnologias


Competência: compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade.


Algumas das habilidades que compõem essa competência:


– Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seu meio cultural.


– Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.

* Fonte: matriz de referência do Enem








Gustavo Morita
Alunos da Escola Viva: ênfase às diferentes linguagens artísticas

“Nós não vivemos mais, somos vividos. Não temos mais liberdade, não sabemos mais nos decidir, o homem é privado da alma, a natureza é privada do homem… Nunca houve época mais perturbadora pelo desespero, pelo horror da morte. Nunca silêncio mais sepulcral reinou sobre o mundo. Nunca o homem foi menor. Nunca esteve mais irrequieto. Nunca a alegria esteve mais ausente, e a liberdade mais morta. E eis que grita o desespero: o homem perde gritando a sua alma, um único grito de angústia se eleva do nosso tempo. A arte também grita nas trevas, pede socorro, invoca o espírito: é o expressionismo.”


O trecho acima foi retirado do Ensaio sobre a poética expressionista, de Hermann Bahr, base para o trabalho realizado com os alunos do primeiro ano do ensino médio da Escola Viva. Com um projeto pedagógico já voltado para o campo das artes, o colégio trabalha com quatro linguagens artísticas: artes visuais, artes cênicas, música e fotografia e vídeo. No ensino médio, os professores dessas diferentes disciplinas elaboram e dão suas aulas juntos para a realização de um mesmo projeto. “A proposta da Viva é organizada para poder provocar essa ação interdisciplinar por meio de eixos temáticos”, explica a coordenadora de artes e projetos Maria Betânia Galas.


Nesse semestre, sob a temática “Identidade, alteridade, corpo e representação”, a proposta é filmar um curta-metragem mudo com base na estética expressionista. Para isso, os alunos também assistiram ao filme Metrópolis, clássico do cineasta austríaco Fritz Lang, considerado um dos grandes expoentes do expressionismo alemão. “O objetivo do trabalho é que os alunos se entendam e se expressem a partir da arte. A avaliação é feita ao longo do curso, mas também exigimos do aluno um aprofundamento na justificativa do trabalho”, explica o professor de fotografia e vídeo, Fernando Roque. A sala de aula se divide em grupos de filmagem: alguns são responsáveis pelo roteiro, outros pelas imagens. Há também os que pensam o figurino e a trilha sonora e, como não poderia faltar, alguns fazem as vozes de atores.


Além de assistirem a filmes e lerem textos, os jovens também são levados a um estudo do meio no centro velho da cidade de São Paulo. Durante três dias, eles conhecem os principais pontos históricos e culturais da cidade e se deparam com diferentes tipos de pessoas. “Nós vamos de transporte público para o centro e dormimos em um hotel da região”, conta Paulo Rota, coordenador do ensino médio. Ele se lembra de uma história interessante. Em uma dessas visitas, os alunos conheceram um líder do movimento dos sem-teto, o que não estava previsto no roteiro traçado pela escola. Durante a conversa, eles tiveram a oportunidade de tirar suas dúvidas sobre as diferenças entre uma invasão e uma ocupação, além de debater questões como a cracolândia. “Lá eles se depararam com situações nunca antes vividas e pessoas que eles nunca conheceriam. Muitos deles sequer andaram de metrô ou de ônibus no próprio país”, aponta Paulo.


Durante o estudo do meio, os professores de artes orientaram os alunos a coletar material para ser usado no filme. Para a disciplina de artes cênicas, por exemplo, os estudantes foram orientados a observar os transeuntes e anotar suas características, expressões e movimentos. Já para a aula de música, foram feitas gravações de áudio com o objetivo de ambientar a paisagem sonora do filme mudo. Para Maria Betânia, o projeto dialoga com a competência proposta na matriz do Enem, uma vez que dá uma perspectiva cultural aos movimentos artísticos. “Há duas formas de trabalhar a arte: a primeira se preocupa apenas com o artista e a obra; a segunda trabalha os discursos produzidos a partir disso. É aí que entendemos a formação de identidades culturais e a arte como uma representação da sociedade”, ressalta.

No vídeo abaixo, Fernando Roque, professor de foto e vídeo da Escola Viva, explica com mais detalhes a atividade realizada com os alunos.



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