Para jornalistas, professores e alunos precisam ser mais ouvidos pela imprensa

Três profissionais que cobrem educação revelam impressões sobre a mídia especializada de educação

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Direta ou indiretamente, a educação é um assunto que atinge todas as esferas da sociedade brasileira. Os maiores consumidores de conteúdo sobre a área são gestores, alunos e professores – aqueles que estão mais diretamente envolvidos com o universo escolar. E, ao que parece, são justamente eles os menos ouvidos pelos jornalistas.

A constatação é unânime entre os três profissionais da imprensa entrevistados pelo site da revista Educação. Mariana Mandelli, jornalista do movimento Todos pela Educação é categórica quanto à importância do assunto: “Longe da escola o debate fica vazio”, diz.

Luiz Fernando Toledo, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, aponta a falta de diálogo como a maior deficiência da profissão. “Mesmo que façamos matérias sobre o Escola sem Partido, por exemplo, não sabemos realmente se essa doutrinação acontece porque não alcançamos o interior da escola”, explica.

Já Rodrigo Ratier, editor da revista Nova Escola, destaca o local de fala do docente:  “Os professores ainda são silenciados no debate mediado pela imprensa”, diz. O editor acredita que é preciso encontrar fontes de informação para além dos governantes e especialistas da área, que costumam monopolizar o discurso nas notícias.

Educação em números
Além dos especialistas, outra fonte de informação domina a cobertura jornalística são as análises numéricas. Notícias baseadas em avaliações de larga escola estampam as manchetes desde que as pesquisas começaram a ser feitas nos anos 90, porém nunca antes houve tantos dados disponíveis para investigação.

Se Toledo pudesse dar um conselho aos repórteres da área, recomendaria que tivessem uma atenção especial com esses números, que são a origem de grande parte dos assuntos que mais rendem matérias.

Mariana concorda com a importância da análise de dados, mas ressalta que o jornalismo não deve parar por aí. “Contar as histórias por trás [dos números], especialmente as boas experiências, é fundamental para inspirar e mostrar que há, sim, progressos no nosso sistema educacional”, diz.

Em contrapartida, a falta de profundidade que algumas dessas matérias apresentam foi criticada pelos profissionais. –  Leia mais sobre isso aqui – “A análise [dos números] exige um olhar humano. Como vivemos um momento de enxugamento das equipes, em que o jornalista tem de fazer tudo, nem sempre isso é possível”, avalia Ratier.

Crise no jornalismo
Com a diminuição do número de funcionários, é cada vez mais difícil encontrar um jornalista nas grandes redações que se dedique exclusivamente a noticiar assuntos relacionados à sala de aula.

Toledo se encaixa nesse perfil. Inicialmente contratado pelo jornal Estado de S. Paulo como repórter de educação, atualmente “acaba fazendo de tudo”. O repórter constatou que existe uma tendência a deixar a cobertura da área nas mãos dos veículos setorizados. “Em grandes jornais, [educação] não é prioridade. O foco ainda é política e economia”, diz.

Para o editor da revista Nova Escola, a mídia especializada também tem sofrido baixas, principalmente em questão de verba. “O governo é um grande comprador de revistas segmentadas na área de educação, então essa crise é uma situação especialmente complicada para nós”, explica Ratier.

Conteúdo de qualidade
Quanto aos impactos da crise, Mariana acredita numa relação direta entre o momento financeiro vivido pelos grandes jornais e a estagnação do volume e da qualidade da cobertura jornalística dedicada à educação.

Embora concorde, Ratier é mais enfático ao afirmar que a atuação na área está longe de ser a ideal. Segundo ele, a formação do jornalista é um dos principais pontos que prejudicam a produção de conteúdo especializado. “Toda a informação que o repórter tem sobre como cobrir educação vem da prática, porque as universidades ainda não assumiram a educação como uma especialidade”, afirma.

Toledo confirma essa versão com a própria experiência. Como a grande maioria dos jornalistas do Brasil, estudou economia e política com especialidades no curso da faculdade, mas só aprendeu a cobrir educação no cotidiano do jornal. “Todo mundo que foi pra escola acha que sabe falar sobre educação, mas não é bem assim”, conta.


Os entrevistados

Quem é Luiz Fernando Toledo

O que faz Repórter do Jornal O Estado de São Paulo desde 2013

O que acha que deveria ser discutido hoje sobre educação “A prioridade é entender a escola, contar histórias do que acontece em sala de aula por meio de mais diálogo com os professores.”

 

Quem é Mariana Mandelli

O que faz Jornalista do movimento Todos pela Educação desde 2012

O que acha que deveria ser discutido hoje sobre educação “O cumprimento do PNE. Ele contém metas fundamentais para qualquer avanço que o Brasil pretende dar não só na educação, mas no seu desenvolvimento como nação.”

— Leia mais sobre a situação atual do PNE aqui — 

 

Quem é Rodrigo Ratier

O que faz Editor-executivo da revista Nova Escola, onde trabalha há oito anos

O que acha que deveria ser discutido hoje sobre educação “Qual tipo de formação desejamos oferecer, algo voltado só para aquisição de conhecimentos, ou algo ligado também à cidadania, aos direitos humanos?”

 

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