Para além dos muros da escola

Crise da cultura letrada põe em xeque os significados da educação formal

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Há algumas décadas que profissionais da educação se queixam de uma crescente perda de legitimidade social dos saberes escolares e, em especial, da cultura letrada. Num mundo marcado pela força da imagem e da mídia eletrônica, práticas e ideais escolares ligados à leitura e ao domínio da norma culta parecem fadados a desaparecer. Não se trata de mera obsolescência de recursos didáticos e metodológicos. O que se encontra em crise é o próprio ideal formativo que marcou a criação e o desenvolvimento dos sistemas nacionais de ensino a partir do século 19. Uma crise que não se origina nas instituições escolares, mas que a elas afeta diretamente.

 Os fatores que a condicionam são complexos e variados. Incluem desde o enfraquecimento da noção de ‘estado nacional’ até o predomínio da linguagem imagética sobre a conceitual. Este último, por sua vez, implica o aumento de poder de outras instituições ou organizações sociais – notadamente da mídia eletrônica – no estabelecimento de valores e princípios éticos, estéticos e políticos. Essa perda da legitimidade social da cultura letrada – e por extensão da escola – tem sido objeto de inúmeros estudos e pesquisas acadêmicas. Mas a encontramos de forma talvez ainda mais clara e pungente numa obra literária, escrita por um professor francês e recentemente adaptada para o cinema. Em
Entre os muros da escola

(França, 2008), François – um professor de língua e literatura francesa na escola básica – leciona a um grupo de jovens da periferia de Paris, em sua grande maioria, imigrantes ou filhos de imigrantes.

Conflitos de diversas ordens – étnicos, de classe, intergeracionais – surgem nesse contexto. A despeito dos esforços do professor, seu ideal de cultura não parece ter legitimidade nem fazer sentido para seus alunos. A incapacidade de se estabelecer vínculos de pertencimento destes com a escola – e por decorrência com a cultura e os valores que a animam – torna-se patente.

Professor e alunos vivem um constante embate entre o uso e reconhecimento da norma culta e as variantes linguísticas de que se servem os alunos, sempre impregnadas de gírias e expressões estranhas à cultura escolar. Em tese, falam a mesma língua, mas permanecem isolados em seus universos linguísticos, religiosos, étnicos, estéticos (cada um encerrado em suas próprias ‘paredes’, como sugere o título em francês:
Entre les murs

), sem lograr transformar a convivência escolar em um encontro formativo.

A câmera trabalha sempre com planos parciais, segmentados e rápidos, como a indicar a inexistência de uma perspectiva ampla e compreensiva em torno da qual se organizem experiências simbólicas compartilhadas. Somente na cena final, e de forma reveladora, há uma tomada ampla e em perspectiva da sala de aula como um todo. Mas o que se vê é um espaço vazio de significado: carteiras sem alunos, mesa sem professor, quadro sem lição. Uma sala de aula sem ‘alma’ a denunciar o esvaziamento do significado político e cultural da escola.


José Sérgio Fonseca de Carvalho



Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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