Para além do fim

Na mitologia, como na educação, a esperança é seiva vivificante

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Mario Sergio Cortella*



 



Dezembro sempre desponta como uma época especial para pensar sobre opções feitas, rever trajetórias, renovar desejos, refletir sobre as “sementes” que deixamos pelo caminho pedagógico e, claro, suspirar, expressando um eventual cansaço indefinido, resvalando para o musicado “mais um ano se passou”.





Apesar de a maioria de nós em educação estar sempre em “ano letivo” – que acaba antes do “ano civil” -, ainda assim ele parece muitas vezes interminável porque recomeça em breve. Tem momentos que a gente sente o grande sertão sem enxergar veredas, mas acaba ficando possuído pelo espírito que Guimarães Rosa capturou lá para dentro da sabedoria simples: “A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado.”





Fossemos todos adeptos da religiosidade grega clássica, por nós chamada de mitologia, invocaríamos Cronos, uma divindade pré-helênica e personificação do Tempo, pedindo auxílio para não ser por ele mesmo atingidos, tornando-o mais suave no passar e menos veloz na necessidade.





Não adianta. Cronos (filho de Urano, o Céu, e de Gaia, a Terra) foi derrotado pelo filho Zeus e acorrentado no Tártaro, um lugar abaixo ainda do inferno, no mais profundo do interior do mundo, e, por isso, só o deus supremo do Olimpo, aquele que pode distribuir o bem ou o mal aos humanos, decide se liberta ou nos acorrenta junto ao tempo.





No entanto, na mitologia, como na educação, a esperança é seiva vivificante. Talvez devêssemos abandonar Zeus e ir em direção a Saturno (versão romana de Cronos), deus italiano ligado às práticas agrícolas e seus tempos propícios.





O mundo latino da Antiguidade (do qual também somos herança e crítica), por se localizar no hemisfério norte do planeta, tinha dezembro como um período de rigoroso e inclemente inverno. Era fase da estação em que não se plantava ou colhia, a disponibilidade de alimentos escasseava e as noites alongadas reduziam a vitalidade trazida pela luz solar. Nessa época, especialmente na proximidade do solstício invernal e logo após os meados do mês, quando a noite mais longa do ano resultava do máximo distanciamento da Terra em relação ao Sol, o clímax da dificuldade parecia ter sido atingido e, daí em diante, tudo deveria ir melhorando.





Era a chegada a hora das Saturnálias, a celebração para honrar Saturno (“o semeador”) – que precisava ser festejado para ajudar na proteção das safras vindouras. As comemorações se alastravam por todo o território romano e entorno. Fogueiras eram acesas, presentes eram trocados, liberdades eram concedidas. Afinal, tal como muitos de nós, acreditavam aqueles que o dia venceria a noite, a luz derrotaria a escuridão.





Como inventou e cantou Nelson Antônio da Silva (mais um da Silva com pouca formalidade escolar), o nosso Nelson Cavaquinho: “O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente. / É o juízo final / A história do bem e do mal / Quero ter olhos para ver / A maldade desaparecer.”




Assim deve ser. Assim precisa ser.





*Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.




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