Para além da educação básica

Baixo rendimento dos alunos de ensino médio pressiona IES a adotar medidas para corrigir defasagens educacionais

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Depois de reconhecer os maus resultados do Ideb, o ministro da Educação Mendonça Filho anunciou que a prometida reforma do ensino médio finalmente sairá do papel. Por meio de uma medida provisória, o governo enxugou o número de disciplinas obrigatórias – o objetivo é que os alunos possam trilhar caminhos mais pessoais – e passou a incentivar a ampliação da carga horária de 800 horas para 1.400 horas anuais. Não há um prazo final para a implantação destas e outras medidas. As mudanças acontecerão de forma gradativa.

Enquanto a transformação não vem, o país segue formando jovens despreparados para compreender textos complexos e realizar operações matemáticas mais sofisticadas. Para se ter uma ideia, o Inep distribui o aprendizado dos alunos em níveis, utilizando a Escala Saeb (veja mais abaixo). Na Prova Brasil de 2015, a média de proficiência em português foi 260,88. Se os estudantes dominassem habilidades mais avançadas, a pontuação deveria variar entre 400 e 425. Em matemática, esse intervalo está entre 450 e 475, mas a média brasileira foi 260,04.

Apenas Pernambuco e Amazonas bateram as metas estabelecidas pelo MEC para o ensino médio. Alguns até pioraram o Ideb em relação a 2013, como é o caso do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais.

Foi uma má notícia e não só para a educação básica, dada a extensão de seus desdobramentos. Afinal, é dessa massa de jovens que saem os futuros universitários e profissionais do país. “O nível dos estudantes que estão chegando aos cursos de graduação está cada vez pior. E não estou falando dos nossos alunos. Esse é um quadro geral que se estende, inclusive, às instituições públicas”, observa o professor Oscar Hipólito, vice-presidente acadêmico da Laureate Brasil.

Essa queda na qualificação também é sentida por Claudia Hardagh, professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “De maneira geral, os calouros têm dificuldades para decodificar um artigo acadêmico, refletir, ter opiniões próprias”, aponta. “Eles chegam à universidade ignorando completamente o processo de produção de conhecimento. O que sabem fazer é reproduzir a fala do professor, o texto de um livro. Falta repertório também. Muitos chegam à universidade tendo visto apenas filmes e peças de teatro comerciais”, pontua.

Meio universidade, meio ensino médio
Frente a esse desafio, muitas instituições de ensino superior estão chamando para si a tarefa de completar a formação dos jovens recém-saídos do ensino médio. Há uma profusão de programas de nivelamento, embora algumas prefiram usar outros termos. O objetivo das ações, contudo, é o mesmo: dar condições ao aluno de acompanhar o curso e, com isso, diminuir as reprovações e o índice de evasão.

De acordo com Ronaldo Mota, reitor da Universidade Estácio de Sá, a adoção dessas iniciativas está atrelada à universalização da educação básica. Depois que o país conseguiu isso, houve uma explosão na demanda por cursos de ensino superior. Essa demanda, contudo, vem de uma parcela da população diferente daquela que frequentava o ensino superior na década de 1970. Nesta época, apenas as famílias abastadas ou com um bom nível socioeconômico tinham condições de mandar seus filhos para a faculdade, explica Mota. Hoje isso mudou. Há um conjunto diferente de pessoas buscando a graduação.

De fato, muitas dessas pessoas têm letramento insuficiente, reconhece. No entanto, o executivo afirma que seria um crime afirmar que jovens defasados do ponto de vista do conhecimento deveriam ficar de fora do ensino superior. “Muitos têm disposição para superar as dificuldades e, de fato, conseguem isso”, declara.

Foi pensando neles que a instituição passou a oferecer há um ano e meio, aproximadamente, cursos de nivelamento em várias carreiras. Engenharia é uma delas. No primeiro semestre, os alunos têm aulas introdutórias de física para recuperar conteúdos que deveriam estar consolidados, mas com que muitos ainda não têm familiaridade. Algumas dessas aulas são dadas virtualmente por um dos maiores especialistas da área, o professor e pesquisador do Instituto de Física da USP de São Carlos (SP) Vanderlei Bagnato. O cuidado em chamar um grande nome para a tarefa de “recuperar” esses alunos está ligado à ideia de que eles precisam, antes de tudo, desenvolver o gosto pelo conhecimento. Isso é até mais importante que o conteúdo em si, avalia Mota.
Como a iniciativa foi colocada em ação há pouco tempo, os resultados ainda estão aparecendo. Mas os índices de reprovação em Física 1, a disciplina que sucede o curso introdutório, já caíram, segundo o reitor da Estácio.

Tendo em vista a importância das habilidades de escrita e leitura para todas as carreiras, os alunos admitidos na Estácio também fazem curso de português no primeiro semestre. E aqueles que desejarem seguir os conteúdos de revisão antes mesmo do primeiro dia de aula podem fazê-lo no ambiente virtual de aprendizagem. Segundo o reitor, o custo desses programas supera largamente os benefícios gerados. “Não temos nenhum problema em realizar todas as operações de recuperação para assegurar uma qualidade aceitável em nossos cursos. Estamos melhorando progressivamente no Enade, o que comprova que todos podem aprender”, ressalta Mota.

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Vestibular como parâmetro
No vestibular do Mackenzie, os alunos que zeram em redação e na prova de português são automaticamente desclassificados. Em engenharia, o candidato também não pode zerar em matemática, em ciências biológicas, em biologia, e assim por diante. Essa seleção acaba excluindo os vestibulandos mais despreparados, mas isso não resolve o problema que afeta grande parte das IES, diz Milton Pignatari, professor e coordenador de Processos Seletivos da Pró-Reitoria de Graduação do Mackenzie. “Para o padrão atual, nossos alunos têm um nível ótimo. Mas se compararmos com o padrão dos calouros de uma década atrás, a constatação é que o nível piorou”, analisa.

As questões com menos acertos no vestibular servem de parâmetro para os professores saberem o que precisa ser reforçado. Conforme o perfil de cada curso, eles desenvolvem aulas de reforço para serem dadas nos intervalos da grade curricular. Não há obrigatoriedade de participar. Também não há custo. Porém, o projeto vem registrando uma adesão cada vez maior em função dos bons resultados obtidos pelos participantes. Pignatari garante que as reprovações caíram desde que a iniciativa foi implantada, há três anos aproximadamente.

Já a Anhembi Morumbi, uma das instituições sob o guarda-chuva da Laureate, orienta seus professores a trabalhar com revisões durante as aulas. Dependendo da complexidade da matéria a ser apresentada, os professores passam a limpo os conhecimentos que devem ser dominados previamente. Já para lidar com a dificuldade apresentada por muitos de estruturar textos, a Anhembi estimula os alunos a escrever com mais frequência. A adoção de provas discursivas no lugar de testes de múltipla escolha é um exemplo de ação desenvolvida com esse objetivo.

Para identificar a necessidade dessas estratégias, os docentes fazem avaliações – algumas até informais – para checar o nível dos alunos. Isso é feito o tempo todo, e não apenas com os calouros. “O professor não pode partir do pressuposto de que o aluno sabe todo o conteúdo do ensino médio”, informa Hipólito. Como resultado, a instituição tem registrado níveis decrescentes de evasão, garante. “Aquele aluno que deixaria a universidade por não estar conseguindo acompanhar o conteúdo se sente amparado e acaba ficando”, diz o vice-presidente acadêmico da Laureate Brasil.

Diagnóstico on-line
Martha Pedralina da Silva Francilino, 29 anos, está no 1º ano do curso de letras. Ela estuda na Universidade São Judas Tadeu, a mesma onde concluiu o curso de administração. Seu desejo agora é se tornar professora, mas depois de tanto tempo afastada do ensino médio a estudante gostou de saber que poderia revisar on-line os conteúdos aprendidos há mais de dez anos. O meio utilizado por ela foi a plataforma Adapti, implementada há um ano, aproximadamente, em todas as instituições que fazem parte do grupo Anima.

O programa tem a lógica dos games: os estudantes são desafiados a completar um percurso formativo, mas só “passam de fase” quando terminam com sucesso a etapa precedente. Como explica Edson Martins, coordenador de extensão da São Judas, cada percurso é único. Os estudantes fazem uma avaliação no primeiro contato com a plataforma para que o programa detecte os pontos fracos que precisam ser trabalhados. “Revisei muita coisa, mas também aprendi conteúdos novos que não tinha visto na escola”, conta Francilino. Os níveis também variam conforme a carreira. Um aluno de matemática terá mais “fases” nessa disciplina para cumprir, por exemplo.

Ao contrário do Mackenzie, a São Judas obriga todos os alunos a estudar pelo Adapti, que não tem custo. Aqueles que completam o percurso formativo no primeiro semestre ainda ganham meio ponto em todas as disciplinas. Por ter sido implantado recentemente, o professor Martins informa que ainda não há resultados tabelados. Porém, ele afirma que a necessidade de fazer revisão em sala de aula diminuiu. “Antes os professores gastavam uma boa parte do tempo com isso. A situação está mudando”, conta.

Reformas já
Embora estejam buscando soluções para contornar o problema da educação básica, gestores e professores das IES não deixam de ressaltar a necessidade de realizar reformas urgentes. “Enquanto não resolvermos o problema do ensino médio, não teremos condições de nos tornar um país competitivo. Podemos até crescer em alguns momentos, mas sem pessoas com um letramento adequado, este crescimento nunca será sustentável”, enfatiza o reitor da Universidade Estácio de Sá.

Claudia Hardagh, do Mackenzie, vai além e chama a atenção para a responsabilidade das IES que estão absorvendo esses alunos e colocando-os no mercado. “Quando há um colapso ambiental ou um acidente causado por falha humana, por exemplo, poucos relacionam o acontecimento a um problema educacional. Mas os dois eventos estão diretamente ligados”, alerta. Em sua opinião, o Estado precisa assumir suas responsabilidades com a educação, bem como o setor do ensino superior. Com críticas diretas às IES que aprovam indiscriminadamente todos os alunos, a professora diz que é preciso interromper esse ciclo para que mais pessoas qualificadas cheguem ao mercado de trabalho. Somente assim os desafios do século 21 poderão ser resolvidos.

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