Palestrando

Autonomia não rima com hierarquia

Compartilhe
, / 872 0

Perante a consensual descoberta da falência do modelo epistemológico baseado na pretensa transmissão de saberes, o modelo organizacional que o sustenta mantém-se hegemônico e inquestionável. Talvez essa crença da transferibilidade linear de saberes se mantenha porque as instituições de formação de professores tenham esquecido que o modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Que um curso ou palestra sobre autonomia, convivência e participação é, quase sempre, a negação do que pretendem transmitir, por se basear numa relação vertical geradora de dependência no objeto-ouvinte.

Se perfilharmos o princípio do isomorfismo, a formação de professores deverá adotar processos idênticos aos das práticas que visa suscitar no quotidiano das escolas. Os processos de aprendizagem não deverão estar centrados no professor nem no aluno, pois tudo passa pela relação. Nesse sentido, o educador deverá saber gerir a imprevisibilidade da relação, por ser impossível prever a multiplicidade e a variedade de situações com que pode deparar. Reconhecerá que, assim como formação não rima com solidão, autonomia não rima com hierarquia. Que, assim como se aprende a ler, lendo; e se aprende a fazer, fazendo, também nos autoformamos com os outros. E que é a autoria que confere dignidade ao ato educativo.

Há mais de três décadas, compreendi que não deveria continuar a reproduzir o modo como me adestravam em cursos e palestras. O modelo transmissivo de palestra e de aula, que ignora a possibilidade de produção de conhecimento a partir da interrogação e do diálogo, produz condicionantes socioculturais, que impedem a plena realização do ser humano. Num tempo em que não havia computadores, assistia à projeção de transparências com súmulas de teorias e propostas de práticas. Nenhuma delas se encaixava no
hic et nunc

da minha prática, talvez porque nenhum dos palestrantes tivesse posto em prática as teorias e práticas que recomendavam… E o que diziam aquelas sábias criaturas? Nas suas preleções, exortavam ao uso de uma técnica, ou falavam daquilo que tinham lido em livros, que eu poderia ler, sem necessidade de perder tempo a ouvi-los.

Ainda hoje vemos formadores e palestrantes estabelecerem a sequência e o ritmo da aula ou preleção, numa atitude de que não tomam consciência e cujas consequências – quero crer – ignoram totalmente. Recorrem à apresentação de slides e vídeos, quando poderiam constituir-se em mediadores entre o saber constituído e o domínio das preocupações daqueles que com eles interagem.

Recebi convite para realizar uma palestra, acompanhado do pedido do "texto da comunicação". Respondi que aceitaria o convite, mas que não poderia enviar o "texto da comunicação". Expliquei que pratico o diálogo entre aprendizes. Que somente após escutar as perguntas eu poderia ensaiar as respostas, que não poderia adivinhá-las. A resposta voltou definitiva: "todos os palestrantes enviaram as comunicações. Por isso…". Compreendi que não poderia constituir exceção e enviei a derradeira mensagem: "junto envio um texto; se houver alguém que o leia, evitarei o desgaste da viagem e vós evitareis o gasto".
Não obtive retorno.


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN