Palavras de brincar

Escritores falam sobre o processo criativo e as possibilidades de uso da poesia para crianças pequenas

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Alguns escritores gostam de dizer que poesia não serve para nada. Segundo o poeta Manoel de Barros, o poema é um ‘inutensílio’. De fato, a linguagem poética não tem compromisso com a objetividade e o pragmatismo. Não há modo de usar ou aplicação precisa. Mas, para além do apuro estético, a poe­sia tem um grande potencial filosófico, humanístico, pedagógico. Porque trata, ao mesmo tempo, do indivíduo, do outro, do mundo e da própria linguagem.


Por isso, vários professores e poetas acreditam hoje que, sim, a poesia serve para muita coisa. Além de Barros, diversos outros renomados escritores dedicaram versinhos ao público infantil. Fernando Pessoa, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, João Paulo Paes e Haroldo de Campos são alguns dos exemplos mais emblemáticos. Essa turma parece saber o que fazia.


Um poema é um dos meios mais expressivos de comunicação. A organização dos versos, o ritmo, os efeitos acústicos, tudo comunica. É por isso que muitos poetas e professores enxergam nessa linguagem um meio privilegiado de contato com as crianças e estímulo à leitura. Para o escritor Henrique Rodrigues, coautor de Alho por alho, dente por dente (Editora Memória Visual), a poesia fala a língua das crianças.


“Os pequenos têm naturalmente um modo de pensar que é transgressor por excelência. Eles pensam poeticamente,” diz Rodrigues. No livro, escrito em parceria com André Moura, são apresentadas ‘transgressões’ de provérbios. Eis um exemplo: “A abelha comia de tudo/ E ao voar sentia o corpo pesado./ Então faz uma dieta: antes só/ Do que mel acompanhado”.


Rodrigues tem apresentado seu trabalho em escolas no Rio de Janeiro. “As crianças se amarram em [adoram] muitos trocadilhos que nós, adultos, consideramos infames”, diz. Elas não se censuram tanto. O escritor fez mestrado sobre a obra de Millôr Fernandes, que também já dedicou versinhos ao publico infantil. Agora, sua tese de doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) trata da relação entre humor e poesia.


Muitos de seus leitores – professores, pais e crianças – se tornam “amigos” do autor no Facebook (www.facebook.com/henrodrigues), o que para ele ajuda a aproximar o universo poético do cotidiano. “Esse tipo de contato ajuda a desmistificar o estereótipo do escritor recluso, barbado, distante”, reflete.


Poesia na escola
“Se pensarmos bem, vamos perceber que a poesia sempre fez parte do cotidiano das crianças. Cantigas de roda, histórias infantis, muito desse universo no qual elas já vivem é poético”, lembra Maria dos Remédios Cardoso, coordenadora do ensino fundamental na Escola Móbile, em São Paulo.


No Móbile, a poesia faz muito sucesso nas rodas de leitura diárias do ensino fundamental. Um dos livros mais pedidos é Pequeno pode tudo (Editora Moderna), de Pedro Bandeira. Na história, um pardal se refugia em um deserto depois que outras aves zombam dele. As sementes que vai derrubando no lugar, enquanto vive ali, acabam dando origem a uma floresta. “É um livro sobre autoestima e sempre rende uma bela discussão”, afirma a coordenadora.


Na Escola Carlitos, também em São Paulo, os alunos são os autores: poesias são publicadas no jornalzinho Ipê Amarelo, editado pelos alunos da 6ª série. Neste ano, até os cartõezinhos do correio elegante, durante a festa junina, reproduziam trechos de poemas. “Os alunos sempre ficam mais entusiasmados quando podem apresentar ou publicar as obras”, diz a diretora pedagógica Laura Piteri.


A professora Andréa Albano, do Centro de Educação Integral Paulo Freire, em Campo Verde (MT), enxerga na poesia uma excelente ferramenta no processo de letramento. “Há todo um trabalho com a sonoridade por meio de rimas, aliteração, assonância”, diz. “A criança não sabe o que são essas figuras de linguagem, mas as percebe e se diverte com elas.”


Andréa lembra que mesmo crianças muito pequenas, que ainda não sabem ler, podem ser expostas a livros de poesias, apresentados por pais ou professores. “Elas podem manusear o livro, entrar em contato com as letras, com as linguagens verbal e não verbal, iniciando as próprias relações de aprendizagem”, compara. A professora trabalha com alunos de 4 a 11 anos, isto é, do ‘pré 2’ ao 5º ano do ensino fundamental.


Poemas visuais
A variação de linguagens é precisamente o foco do trabalho da poeta pernambucana radicada no Rio de Janeiro Ayssa Bastos, que acaba de publicar Aguardados (Ed. Paulinas), o primeiro da coleção Vice-Verso, dedicada ao público infantojuvenil. São poemas visuais­, que combinam versos e ilustrações, também de Ayssa, que há muitos anos trabalha como ilustradora. “Em cada página do livro, o texto tem uma fonte diferente”, acrescenta a autora. Todos os elementos gráficos são carregados de significado e mesmo o texto propriamente dito tem múltiplas possibilidades de interpretação. Embora tenha sido professora da 4ª série, dos 18 aos 24 anos, Ayssa, hoje aos 50, diz que não era sua intenção escrever para crianças e adolescentes.


“Minha ideia era escrever para todo mundo”, afirma. “Poesia é sentimento.” A identificação dessa comunicabilidade com o público infantojuvenil foi da editora – mas a poeta garante que adorou a ideia. “Isso fez muito sentido para mim: no livro, há alguns poemas que escrevi aos 12 e 13 anos, guardados uma vida inteira.”


Por meio da editora, Ayssa tem visitado escolas para conversar com alunos-leitores. “Uma menina me disse que já havia lido o livro quatro vezes e que sempre encontra coisas novas”, diz. Para a poeta, brincar com as possibilidades de significado faz da leitura uma experiência mais prazerosa, uma investigação lúdica.


E foi de um jeito parecido que Ayssa começou a se interessar por poesia na infância. Na vila em que morava, no subúrbio do Rio de Janeiro, havia um senhor apaixonado por poesia que usava charadas e desafios para estimular a leitura entre as crianças da vizinhança. “Seu Didi dizia versos e prometia balas e chocolates para quem descobrisse o autor.” Não havia internet, é claro, mas os pequenos davam um jeito. Ayssa conquistou alguns desses prêmios e escreve poemas desde então.


Autor de Bolinho de chuva e outras miudezas (Editora Peirópolis), o poeta Paulo Netho também visita escolas, livrarias e unidades do Sesc para divulgar o seu trabalho. “São palavras de brincar”, diverte-se. Para ele, pais e professores precisam perder o medo de dizer poemas. “Temos a mania de endeusar a poe­sia”, diz. “Todo poema precisa ser ‘desendeusado’ para ter comunicabilidade.” Não é preciso ser ator ou contador de histórias – “basta ler com alegria”: o importante, segundo o poeta, é acreditar no que se lê. Ou seja, entrar na brincadeira.








Oficinas gratuitas


A Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo, oferece gratuitamente a oficina Escrever é uma forma de ver para grupos de professores e alunos. “O material foi desenvolvido para crianças de 7 a 11 anos, mas podemos adaptá-lo à faixa etária de cada grupo participante”, afirma a educadora Camila Feltre. As atividades combinam brincadeiras, leituras, discussões e também produção. “Infelizmente, pouco se fala em variações de linguagem em poesia para crianças”, diz a educadora. “Aproveitamos a oficina para explorar essas possibilidades, abordando formas como a literatura de cordel e a poesia concreta”, exemplifica.

Os interessados podem consultar a programação ou solicitar por e-mail datas específicas em dias de semana: educativo@casadasrosas.org.br

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