Pais da tecnologia brasileira

Sistemas de ensino criam ferramentas educacionais

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Rubem Barros

Quando mudou de São Paulo para Santos, na década de 70, a professora de biologia Sueli Elias sonhava trabalhar com educação “de forma inovadora”. Aproveitou os contatos no Colégio Objetivo, onde lecionava, e abriu uma unidade de cursinho numa das principais avenidas da cidade. Três anos depois, em 1980, inaugurou as primeiras salas de ensino médio. Nos anos seguintes partiu para as classes do ensino fundamental.

Sueli foi uma das pioneiras a firmar um contrato para utilização daquilo que hoje se chama de sistema de ensino, ou seja, a adoção por parte de uma escola do material pedagógico, normalmente apostilado, desenvolvido por instituições educacionais de grande porte.

Sua parceria com o Objetivo deu certo. Com o irmão, é dona de três unidades em Santos e outras também em cidades paulistas: Praia Grande, Guarujá e São José dos Campos. Mas sua história de êxito não é regra. Com a expansão do ensino privado, a concorrência aumentou não só entre as escolas, mas também entre os sistemas de ensino. A sobrevivência tornou-se mais difícil e tem exigido mais de parte a parte.

Um recente estudo do Sieesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo) mostra que duas escolas particulares abriram suas portas a cada dia no estado em 2005. O que poderia parecer um sinal de pujança do setor, nada mais é do que uma luz vermelha que já está acesa faz algum tempo. Segundo o mesmo estudo, mais de uma escola encerrou suas atividades a cada dia no ano passado (421, no total).

Some-se a isso o fato de que as matrículas vêm diminuindo em nível nacional, como mostra o Censo Escolar 2005 do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), que apontou decréscimo de 380 mil alunos na educação básica do país em relação a 2004 (de 56,8 milhões para 56,4 milhões). No caso das privadas paulistas, a média de alunos por unidade baixou de 229,5 em 2002 para 206,9 em 2005.

A valorização das grifes de ensino, realidade que até algum tempo atrás parecia bem distante da educação, tornou-se um diferencial para muitas escolas. “Os sistemas de ensino são uma tecnologia educacional brasileira. Cresceram muito na década de 90, mas vêm se estabilizando, diz Mario Ghio, diretor do Sistema Uno, criado pela Editora Moderna. Segundo levantamento realizado pela editora junto a escolas de todo Brasil, 1,35 milhão de estudantes, de um total de 6,2 milhões de alunos das escolas privadas, utilizam materiais pedagógicos produzidos pelos sistemas de ensino.

Apesar de muitos representantes dos sistemas não gostarem de falar sobre a fatia de mercado que detêm, sabe-se que os três maiores são Positivo, Anglo e Pitágoras, seguidos por Uno, Objetivo, Dom Bosco e COC. Mas o número de sistemas disponíveis no mercado hoje é bem maior, o que tem obrigado cada um deles a criar novos diferenciais para conquistar as escolas. Segundo o mesmo levantamento da Editora Moderna, há 52 sistemas ativos, dos quais 20 têm presença significativa em termos de
market share

.

“O bom sistema também deve se preocupar com a parte administrativa da escola, pensar na gestão, na matrícula, na rematrícula, não apenas na parte pedagógica”, diz José Augusto Tavares, da consultoria Coplanning.

Como muitas escolas fazem convênios com os sistemas como uma saída de marketing em função de problemas financeiros, o consultor recomenda que antes dessa decisão alguns itens sejam analisados. “Às vezes é preciso primeiro investir no espaço físico, em treinamento para melhorar o atendimento do pessoal da secretaria e da coordenação, na segurança”, diz Tavares. Se isso não for suficiente, avalia, aí assim a mexida pedagógica pode ser uma saída. Para o equilíbrio financeiro, é recomendável que a folha de pagamento esteja em torno de 60% a 70% da receita total. “Com 80%, já é inviável”.

De modo geral, pode-se dividir os sistemas de ensino em sistemas de marca e sistemas de produtos. No primeiro caso, a escola assume o nome do sistema; no segundo usa seu material, mas mantém sua identidade original. O Uno não tem escolas próprias e trabalha com 622 parceiros (inclusos cursinhos). O Objetivo tem 23 escolas próprias e em torno de 750 de parceiros (alguns com a logomarca do grupo); o Pitágoras opera com mais de 500 parceiros e o Anglo com mais de 600.

O Positivo, líder do segmento tem uma carteira de 2.600 escolas conveniadas na esfera privada, com cerca de 535 mil alunos, segundo seu diretor de Marketing, André Caldeira.

Assim como já fazem outros concorrentes, começa em 2006 a operar convênios com prefeituras, um novo filão para um mercado que começa a dar sinais de saturação.

Segundo Mario Ghio, as escolas atendidas por sistemas de ensino acabam saindo mais em conta para a família dos estudantes. O cálculo é que, em média, sejam 15% mais baratas do que as atendidas por editoras. 




Soluções educacionais –

Tanto Positivo como Pitágoras têm discursos semelhantes. “Não somos vendedores de livros. Oferecemos soluções para educação visando o desempenho dos alunos e a melhora das instituições”, diz Marina Acúrcio, superintendente do Pitágoras. “As escolas que optam pelo nosso sistema estão interessadas em comprar uma solução completa e podem juntar sua imagem à de um sistema de ensino reconhecido em todo país”, avalia Caldeira.

Por mais que tenham inovado bastante nos últimos anos, o carro-chefe dos sistemas continua ser o material didático. Via de regra, são formulados por equipes pedagógicas que revê seu conteúdo anualmente. No caso do Positivo, o pacote inclui um livro didático bimestral, com todas as matérias; o conteúdo interativo do Portal Positivo, que complementa as informações do livro com recursos interativos; um CD-Rom anual; suporte pedagógico para utilização do sistema; e ações de marketing nos planos cultural e de gestão.

O do Pitágoras contempla duas coleções de livros didáticos por ano, um portal de internet em que cada escola ganha um site personalizado, programas de treinamento para professores, coordenadores e gestores e visitas supervisionadas feitas por consultores regionais. “Em 2006, faremos também 40 Congressos de Pais, trazendo palestrantes de renome para discutir questões de comportamento e educação, como valores, limites, rituais de família etc”, diz Marina Acúrcio.




Apoio em gestão –

Outra novidade da rede é um programa de Pós-graduação em gestão e educação, que está indo para o seu terceiro ano, exclusivo para quem trabalha nas escolas da Rede Pitágoras. Com a mesma preocupação, o Anglo, em convênio com a Faculdade de Campinas (FACAMP), oferece para os educadores de suas escolas um MBA em gestão. “É uma formação mais técnica em administração voltada ao pessoal pedagógico. Pode ser feito como um curso completo ou em três módulos semestrais”, diz Guilherme Faguenboim, diretor do Anglo.

Além do material pedagógico e das assessorias e cursos de capacitação, o Anglo também disponibiliza recursos para melhorar o marketing das escolas, como impressos, ações de matrícula e incentivo à formação de pools regionais para veiculação de peças publicitárias.

O próprio material pedagógico também pode se tornar uma fonte de renda para as escolas. No caso do Uno, por exemplo, as conveniadas compram o material com desconto e vendem com uma margem de 10% a 20%. “É uma ferramenta de capitalização para a escola. Há parceiros que pagam o 13o. salário com a venda do material”, diz Ghio. O sistema também trabalha nas áreas de administração e marketing, oferecendo suporte para captação de novos alunos.



Material estruturado, com aulas e atividades planejadas e sugestões de exercícios, como os oferecidos pelos sistemas de ensino, pode ser um instrumento orientador para o professor, mas não deve ser uma camisa-de-força. Essa é a opinião da coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, Bernadete Gatti.

É opinião unânime entre especialistas que os sistemas precisam da adesão dos professores para dar certo nas escolas. “O ideal é que eles analisem dois, três tipos de material e escolham o que vai ser usado”, defende Bernadete. A adoção de métodos sem a anuência do corpo docente pode ter conseqüências ruins para os alunos, pois o ensino pode tornar-se mecânico.

Para a educadora, os professores devem ter identidade com o material e conhecê-lo a fundo para poder adaptar seu uso à realidade de seus alunos. “Às vezes, eles percebem que a seqüência proposta não é a melhor. Então devem ter autonomia para criar a partir do material”, explica.

Um ponto a ser considerado é a formação continuada. Quando bem feita, pode ajudar a criar processos dentro da escola e interferir beneficamente na relação entre professor, aluno e conhecimento.

Outra recomendação é ouvir especialistas que não tenham interesse econômico no material antes de adotá-lo. “Há vários especialistas de universidades que podem dar pareceres isentos”, diz Bernadete.

José Augusto Tavares, da Coplanning, recomenda que os contratos sejam flexíveis. “As mudanças devem ser pensadas, com estratégia bem planejada”. Bernadete alerta que muitas vezes é preferível continuar com um sistema até que se encerre o ciclo do que mudar no meio, o que atrapalha a aprendizagem. De todo modo, a análise criteriosa antes da adoção minimiza o risco de ter de trocar um sistema. Para isso é fundamental que as propostas de escola e sistema tenham identidade.

Outro aspecto a ser considerado é se o material é o mesmo para todas escolas atendidas ou pode sofrer adaptações. O Anglo, por exemplo, oferece acréscimos para escolas de determinadas regiões. Nas regiões de fronteira, especialmente no Rio Grande do Sul, há apostilas de espanhol. No mesmo estado, há demanda por ensino de literatura local, assim como no Maranhão. Já o Pitágoras elaborou uma série de fascículos complementares, escritos a partir da análise dos 38 principais vestibulares do País.




Avaliações são essenciais –

Uma vez adotado, o material deve ser avaliado e os resultados utilizados como instrumento para corrigir rumos. Muitos sistemas contam com métricas próprias, considerando o desempenho dos alunos e a satisfação de todos os envolvidos no processo.

Um exemplo é a Rede Pitágoras, que em 2001 passou a realizar um Programa de Avaliação Educacional por meio de provas bienais em língua portuguesa e matemática para alunos de 4a. e 8a. séries do Ensino Fundamental e do 3a. série do Ensino Médio, além de questionários para pais, professores e alunos. No primeiro ano, a avaliação ocorreu apenas em algumas unidades. Em 2003, houve adesão de 77% da rede, chegando a 98% no ano passado.

Regina Cançado, diretora de Pesquisas Educacionais do Pitágoras, alerta que as avaliações devem ser vistas como o começo de um processo. “É preciso coletar dados, interpretá-los e utilizá-los para melhorar processos”, diz. Segundo ela, o aumento médio do desempenho dos alunos das escolas que modificaram processos após a avaliação foi de 15% a 20%. 

Mas, segundo Bernadete, as próprias escolas podem criar seus sistemas de avaliação, levando em conta se o material incrementou a aprendizagem; a opinião dos alunos sobre os textos apresentados, as instruções, a facilidade de manuseio, a clareza gráfica; e dos professores, que devem ver se não há erros conceituais ou informações parciais que induzam a erro. A motivação e a auto-estima do aluno podem ser objeto de avaliação de uma consultoria externa.

Mario Ghio, diretor do Uno e da Avalia Assessoria Educacional acrescenta dois aspectos a serem levados em conta: se a escola mantém sua autonomia (resultado da flexibilidade do modelo contratado) e se o número de matrículas aumentou.




Passo-a-passo para adotar um sistema

– Avaliar se poderá efetivamente trazer ganho à escola ou se professores já tem maneira efetivar de trabalhar do ponto de vista pedagógico;

– Avaliar o valor de sua própria marca e as forças e fraquezas do processo atual de funcionamento da escola;

– Exame minucioso do material por direção, coordenação e professores. De preferência, deve-se avaliar dois ou três sistemas para definir qual poderá ter maior valor agregado no caso específico da sua escola;

– Na análise, devem ser vistos os seguintes aspectos: como está escrito, seqüência pedagógica, como está ilustrado, se é fácil de ser usado por professores e alunos, se o material permite que a escola o adapte em função de suas necessidades;

– Verificar que tipo de apoio além do material é disponibilizado (capacitação de professores, coordenadores, diretores, portal de internet, visitas presenciais, apoio de gestão, processos de avaliação de eficácia do sistema, planejamento para adoção de novos processos);

– Análise contratual: se há flexibilidade para ruptura e se ela é pode ser feita de forma planejada, prejudicando o aluno o menos possível.




Aulas eletrônicas, diferencial nos anos 90




Com um grande número de acessos, os portais dos sistemas de ensino concentram o maior volume de informações sobre educação da internet brasileira. Mas a web, usada como ferramenta pedagógica auxiliar e como canal de relacionamento com pais e professores, não está sozinha como chamariz tecnológico para atrair escolas.

O J. Piaget Sistema Multimídia, hoje com 160 parceiros, é um dos pioneiros no uso da tecnologia. Segundo José Luiz Cavalaro, empresário e diretor administrativo da escola, o incomodava o fato de que o computador praticamente não havia sido incorporado em meados dos anos 90. “Eu vinha de outros setores e achava a escola uma apatia total, ninguém pensava em usar o computador como ferramenta”, relembra.

Visitou o projeto Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, e ajudou a desenvolver um “sistema de educação para o futuro”. “Precisei fazer a cabeça de todo mundo aqui dentro”, diz, referindo-se à escola de mesmo nome do sistema, cuja responsável pela área pedagógica é sua mulher.

“Não me conformava com o fato de o professor levar quatro, cinco minutos para responder uma pergunta de um aluno. Desenvolvemos aulas eletrônicas, com cores, movimentos e sons numa fração de segundo, projetadas em telões de 2 x 3 metros”, conta.

Um conjunto de apostilas bimestrais acompanha as aulas ministradas nos telões. Além disso, o J. Piaget oferece mais 4 CDs por aluno – com
links

para complementar conteúdos na internet e as aulas dadas em sala, à base de jogos interativos – manual do professor, cursos de capacitação e assistência permanente. Para Cavalaro, o investimento para montar oito salas de aula, com computadores e TVs ou telões (o que considera ideal), fica entre R$ 9 mil e R$ 20 mil. “Nosso diferencial é que esse material é para assistir em sala de aula normal. Os outros usam esses recursos só em laboratório”, diz.

O material é padrão para todo país. Quando necessário, uma bibliografia complementar é indicada. “Não vejo problema. Estamos mandando algo muito avançado, de primeiro mundo, para todo país. As diferenças de palavras como semáforo e farol, como se fala em São Paulo, para sinaleira como dizem no Rio, eles aprendem. Afinal, isso é cultura, não?”, pergunta.



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