Pai patrão

Entenda como funcionam as instituições nas quais familiares e até professores são sócios da escola

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Alexandre Pavan




Desde sua fundação, e lá se vão quase 90 anos, o Colégio Humboldt, de São Paulo (SP), é mantido pela Sociedade Escolar Barão do Rio Branco, uma entidade composta por 700 membros, todos pais de alunos. São eles que definem os rumos do colégio, desde a simples compra de uma cadeira até a construção de um teatro, contribuindo ainda com sugestões de assuntos a serem tratados pelo professor em sala de aula.



“Todo pai é sócio do colégio, enquanto seu filho é estudante. Existe uma diretoria composta por sete membros, que é deliberativa, responsável pelos desígnios políticos e financeiros da escola. Além disso, temos um conselho consultivo de 21 pais (divididos em comissões), que trazem suas preocupações pedagógicas, de nível estrutural e fazem propostas que são decididas pela direção”, explica Beate Althuon, diretora do Humboldt.



Os pais são informados do modelo de funcionamento do colégio no momento em que matriculam seus filhos, e pagam uma jóia que lhes dá o direito há uma participação ativa. Posteriormente, eles podem exercer esse direito ou não. Alguns são sócios, mas preferem não freqüentar as reuniões ou votar nas questões debatidas pelo conselho. “Temos também pais que querem resolver o caso particular do filho, e é preciso muita conversa para ele perceber que o fato de ser sócio não o torna dono, e que a escola tem um pressuposto pedagógico com objetivos a alcançar”, pondera Beate.



Além do conselho e da diretoria, outra instância de contato entre os sócios e a escola é a dos pais-representantes. Cada sala de aula possui dois deles, que estabelecem conversas permanentes com a coordenação e têm a responsabilidade de organizar eventos paralelos, como festas e palestras.



“No início, ninguém queria ser representante, porque achavam uma coisa trabalhosa – e realmente é. Mas isso deu resultados muito positivos. É uma aprendizagem para os pais entender o processo como um todo”, comenta Corina Essle, mãe de três alunos do ensino fundamental e integrante do conselho consultivo há três anos. Atualmente, um grupo de pais-representantes do ensino médio está organizando um ciclo de conferência que será dirigido a todos os pais da escola, com palestras sobre temas variados que estão na lista de preocupações de quem tem filho adolescente – futuro profissional, preparação para o vestibular, prevenção ao uso de drogas.



Com quase 30 anos de experiência profissional, Dorotéa Bartz, coordenadora do ensino médio, começou a trabalhar no Humboldt há oito meses e nunca tinha vivenciado esse modelo de gestão. “O entrosamento entre escola e família é essencial na formação do estudante, porque vai além dos aspectos cognitivos e privilegia os emocionais e culturais”, aposta. Segundo ela, esse sistema, ao criar um espaço aberto de diálogo, também contribui para uma melhor disciplina dos alunos.



Mesmo com a escola fazendo uma exultante defesa desse modelo de gestão, nem sempre é fácil convencer os pais de que ele realmente funciona. “No princípio, você fica na dúvida: será que essa parceria pode dar certo?”, comenta Corina. Seu receio só se dissipou quando começou a se envolver com o ambiente escolar. “A gente acaba tendo uma atuação maior no processo de educação dos nossos filhos”, avalia.



Essa desconfiança também rondou o Coeducar Instituto de Educação, em Araraquara (SP), quando o projeto foi lançado há dez anos. “A idéia causava polêmica, com muita gente duvidando que pudesse dar certo”, lembra Franclafa Palazzi Argiona, diretora da escola. Uma década depois, com 720 alunos matriculados da educação infantil ao ensino médio, o Coeducar já não é mais tão questionado pelo modelo que adotou. “Conquistamos credibilidade e isso gera segurança nos pais. Temos bons resultados no vestibular e, além disso, muitos ex-alunos já estão formados e são profissionais atuantes”, conta Franclafa.



Por defender um sistema democrático, no qual os pais são vozes ativas, obviamente, nas reuniões surgem conflitos de idéias e o debate pode ficar exaltado. Todas as opiniões são ouvidas, mas, via de regra, a decisão final é da diretoria. “Os papéis têm que ficar bem claros e delimitados, senão não funciona. Conflitos há, sem dúvida, afinal esse tipo de gestão possibilita o exercício democrático cotidiano. Como diretora-geral do colégio, as questões pedagógicas são de minha alçada. Eu ouço os pais, argumento em cima de determinadas situações, porém a decisão final é minha”, explica Beate Althuon, do Humboldt. Uma de suas principais preocupações é evitar que o excesso de debates se torne burocrático e lento demais. “Como você ouve as partes, é preciso tomar cuidado com a morosidade do processo.”



Embora a gestão participativa não seja nenhuma novidade na área educacional, com diversos colégios adotando-a há anos, a psicóloga Sônia Simões Colombo, organizadora do livro
Gestão Educacional – Uma Nova Visão

(Artmed, 262 págs., R$39), aponta esse modelo como uma tendência atual. De acordo com ela, isso se dá por conta “da própria evolução da sociedade”, na qual as pessoas estariam mais reivindicadoras e conscientes de seus direitos, o que leva os pais a exigirem mais de diretores, coordenadores e professores.



Nonononono- “Há três ou quatro anos, se você falasse desse tipo de modelo numa escola particular, não seria bem visto”, revela Sônia, para quem tanto o ensino público quanto o privado estão caminhando juntos na adoção do sistema participativo. Se ela destaca o papel dos pais nesse processo, no caso dos colégios particulares, acrescenta uma análise mercadológica: mesmo quando há uma “má vontade” do gestor educacional, ele acaba sendo obrigado a mudar de postura por uma exigência do mercado. “Até as escolas mais conservadoras, que não dão muita importância à participação externa, estão sentindo que um melhor relacionamento com a comunidade local é fundamental para sua sobrevivência. Se o pai não é ouvido, ele muda seu filho para uma outra escola”, analisa.



Por outro lado, Sônia faz um adendo. Cada escola tem sua linha pedagógica, sua filosofia, seus valores, e cabe aos pais procurarem aquela que esteja dentro da realidade que querem passar para seu filho. Não adianta nada um pai matricular seu filho em um colégio de cuja filosofia ele discorda para depois tentar mudar a estrutura da instituição. “Para que não haja conflitos entre o que ele quer da escola e o que ela efetivamente oferece, um bom momento para se fazer um acordo entre a proposta da instituição e as exigências dos pais é o ato da entrada, da ‘venda’ da proposta pedagógica”, ensina.



De acordo com a psicóloga, quem enfrenta mais dificuldade em entender e se adaptar a essa alternativa de gestão é o professor. Diretores e coordenadores se acostumam melhor porque têm mais contato com a realidade de mercado. Percebem que, para a própria competitividade e sobrevivência da instituição, precisam daquele aluno muito satisfeito com tudo o que acontece, seja na área pedagógica, de lazer, estrutura ou serviços oferecidos. Sônia conta que muitos professores não percebem isso com clareza. “Em termos de paradigmas, ainda existe o professor que se considera dono da verdade e que dentro da sala de aula se sente o detentor de todo o conhecimento. Sem dúvida, o professor é a figura central na escola enquanto razão de ser da instituição. Mas os paradigmas estão mudando e ele precisa se abrir um pouco mais.”



No Colégio São Lucas, em Maceió (AL), os professores não tiveram muita opção de escolha e rapidamente foram obrigados a alterar seus paradigmas. No final da década de 1990, a escola – com mais de 20 anos na praça – enfrentava uma grave crise financeira, por conta de uma inadimplência que atingia índices de 40%. Restavam duas alternativas: ou a instituição transformava seu sistema administrativo ou fechava as portas. Se a opção fosse esta última, 50 professores ficariam desempregados.



Hoje, o colégio é uma cooperativa educacional. Diferentemente do Humboldt, em São Paulo, ou do Coeducar, em Araraquara, onde apenas os pais são sócios, no São Lucas o cooperativismo agrega também os professores. “A qualidade de ensino melhorou muito, pois agora o professor é dono do negócio e se empenha mais. E a inadimplência caiu porque a mensalidade tem um preço mais baixo”, comemora Yolanda Soares Silva, presidente da Cooperativa Educacional de Maceió (Coopema), sigla que foi agregada ao nome original da escola.



No início, até mesmo especialistas nesse tipo de gestão duvidavam que a experiência de unir pais e professores pudesse funcionar. Argumentava-se que os pais reivindicariam mensalidades baixas enquanto os professores lutariam por valores mais altos da hora-aula. Contrariando as expectativas, não houve conflito de interesses, como explica Yolanda: “Nós éramos oriundos de uma escola que tinha boas relações entre pais e mestres. Rapidamente todos entenderam que nosso ponto em comum é a qualidade de ensino.”



A Coopema São Lucas é gerida por um conselho fiscal (composto por pais), um conselho administrativo (que reúne pais e professores) e um conselho pedagógico (formado por professores). A transição do modelo tradicional para cooperativa durou cerca de um ano, com todos os envolvidos freqüentando cursos e aprendendo sobre cooperativismo. Nem todos professores toparam a idéia, pois foram informados de que não teriam mais o registro em carteira profissional, passando a ser funcionários autônomos.



Alguns pais também torceram o nariz para a idéia. “Como a escola fica na área nobre de Maceió, alguns alunos são de classe social alta. Houve casos de pais que tiraram o filho da escola por considerar cooperativa ‘coisa de pobre'”, lembra a presidente do Coopema.



Quando o novo projeto teve início, há cinco anos, existiam 300 alunos matriculados, da educação infantil ao ensino médio. Atualmente, são 400 estudantes, e a escola possui perspectivas de crescimento. Por enquanto, algumas séries funcionam apenas em um período. Embora tenha capacidade para receber mais alunos, a instituição optou por evoluir aos poucos nesse novo modelo.



Já os professores, mesmo trabalhando como autônomos, possuem benefícios como planos de saúde e odontológico, por meio de convênios firmados entre o colégio e cooperativas de médicos e dentistas. “O próximo passo é constituirmos uma cooperativa de crédito educacional, já que não temos nada semelhante em Maceió. Inclusive, já encaminhamos o projeto ao Banco Central”, relata Yolanda.



Experiências como a Coopema podem demonstrar como as escolas estão inovando seus sistemas administrativos. Porém, de acordo com a psicóloga Sônia Simões Colombo, o Brasil ainda está engatinhando frente à essa nova postura. “Enquanto gestão, as escolas sempre tiveram uma estrutura muito amadora, a maioria das instituições privadas vem de uma estrutura familiar. Só agora, por causa da competitividade e com os pais exigindo mais, a escola abriu-se para novas possibilidades. Ainda tem muita coisa para acontecer.”


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