Os voos de Saint-Exupéry

A obra do autor de O pequeno príncipe é sempre um apelo humanista, um discurso a favor de um homem que não seja destituído de poder criador

Compartilhe
, / 364 0
Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

Em francês, élève é aluno, do verbo élever, do latim elevare – o aluno existe para elevar-se ao melhor possível. Os educadores, portanto, poderiam ser vistos como aqueles que nos ensinam a voar. Os voos da inteligência e da imaginação. Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), escritor e aviador, leva-nos (eleva-nos) a contemplar a realidade de novos pontos de vista.

Sua obra mais conhecida, O pequeno príncipe (1943), começa com uma aula de desenho existencial. A obra-prima que o narrador fizera quando criança e que representava uma jiboia digerindo um elefante foi mal interpretada pelos adultos. Estes não souberam captar a dramaticidade do desenho e viram ali um mero chapéu. Os conselhos dos adultos (com uma visão adulterada do desenho) mataram um futuro pintor, um artista.

O narrador carrega a mágoa de não ter sido “elevado” à condição de pintor. Sua escolha pela aviação foi uma forma de substituir os voos da arte pelos voos da máquina. Mas, de qualquer forma, o artista não morreu nele, transformou-se, e por isso os seus voos literários.

O principezinho é o eterno Menino, que vive intensamente cada minuto, sem passado ou futuro, que sofre de solidão, e não se sente compreendido e amado. Sua busca de amigos é comovente. Sua dor é misteriosa – habita o misterioso “país das lágrimas”, como escreve Saint-Exupéry perante a tristeza do Menino, perante sua própria tristeza.

Saint-Exupéry apela para o leitor criança em que devemos nos tornar para entender os desenhos malfeitos. O próprio principezinho faz notar ao narrador/autor que as orelhas da raposa que ele desenhou parecem chifres e que os baobás estão mais para repolhos. Mas explica que as “crianças entendem” os desenhos imperfeitos. E os entendem, podemos deduzir, porque acreditam que os desenhos são tão reais quanto a própria realidade.

As crianças intuem, sentem, acreditam no que sentem, ao passo que os adultos querem explicações longas e convincentes, sufocam-se de razões. A história do encontro entre piloto e criança no deserto (o deserto simboliza a carência, mas também a oportunidade de um encontro profundo com a verdade) é uma pesquisa sobre a afetividade humana. Mais do que desenhos perfeitos, precisamos da aceitação do outro.

Como medir um ser humano?

Visto do alto, um ser humano é fisicamente um nada. Também é um nada, ou quase nada, de outros pontos de vista. O indivíduo pode ser reduzido a uma abstração matemática. A um dado comercial. A uma peça descartável nas ações de guerra. Elevar-se humanamente é saber avaliar o imensurável.

Na obra póstuma Um sentido para a vida, publicada em 1956, Saint-Exupéry vê com clareza que “cada indivíduo é um império”. Essa frase pertence a escritos seus que datam do período em que esteve na Espanha, e uma Espanha em guerra civil, para onde foi como correspondente do jornal Paris-Soir. Mais dramaticamente, a constatação de que o indivíduo é mais do que um indivíduo nasceu da cena de um acidente – um mineiro soterrado e seus companheiros entregues à desesperada luta para salvá-lo:


O que se procura é salvar uma unidade no meio da
multidão? O que se procura é libertar um ser humano,
como se libertaria um cavalo, depois de se calcular os
serviços que ele ainda poderá prestar? Talvez venham a
morrer outros dez homens nos trabalhos de salvamento.
[…] É que não se trata de salvar um cupim no meio de
outros cupins de um cupinzeiro, mas sim uma consciência,
um império, cuja importância não é fácil medir. Sob o
crânio estreito desse trabalhador que foi atraiçoado pelas
tábuas, repousa um mundo. […] Como medir o homem?

A obra de Saint-Exupéry é sempre um apelo humanista, um discurso a favor de um homem que não seja reduzido ao funcionalismo de um cupim, destituído de poder criador, soterrado sobre os autoritarismos, coletivismos e todos os “ismos” que nos transformam em meros elementos de um sistema.


Mozart assassinado

Durante uma viagem de trem, observando, no vagão de segunda classe, pobres imigrantes poloneses que ali estavam e voltavam da França para seu país, Saint-Exupéry se preocupa com o futuro daquelas pessoas. Em particular, chamou-lhe a atenção um menino cujos traços, segundo alguns biógrafos, serviriam para o autor francês como inspiração do Pequeno  Príncipe:


Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma
espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais
havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me
sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse
comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart
criança, eis uma bela promessa de vida.

Esta passagem está no livro Terra dos homens (1939), romance com boa dose de autobiografia, em que o autor descreve poeticamente as promessas de vida e a morte, a miséria e a inocência, a beleza da terra dos homens e as angústias que maltratam essa mesma terra.

Pois há um Mozart, um artista, em cada criança, e pode ser assassinado. Mozart simboliza o voo da criatividade, a capacidade de gerar encanto. Este Mozart é o pequeno príncipe que habita em cada menino ou menina que está na escola, escola essa que poderá assemelhar-se ao deserto ou ao vagão de trem de segunda classe.

Ainda com relação aos imigrantes poloneses (que representam todos aqueles que lutam para sobreviver em desvantagem de condições), Saint-Exupéry pergunta a si mesmo, e a nós, que máquina – “une machine à emboutir” – terá amassado seus corpos, terá deformado sua figura. E, sobretudo, que máquina terá apagado a alegria de seus rostos.

Em outra passagem do mesmo Terra dos homens, comenta suas impressões quando esteve em Punta Arenas (sul do Chile), e viu um menino, outro Pequeno Príncipe:


Um menino, junto ao muro, chora em silêncio. Nada
ficará dele em minha lembrança a não ser a imagem de
um belo menino, inconsolável para sempre.

Essa tristeza é bem a intraduzível tristeza de todas as crianças que, em silêncio, choram a morte do artista que elas jamais virão a ser.


*Gabriel Perissé 
é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de Mestrado da Universidade Nove de Julho (SP) (www.perisse.com.br).

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN