Os transferidos

Problemas decorrentes da mudança de escola, como a dificuldade de socialização e o descompasso entre grades curriculares, podem ser evitados se a equipe escolar olhar de fato para o aluno

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Camila Scavone, 23 anos, coleciona uma série de traumas em relação aos últimos anos que passou como aluna da Educação Básica. Na transição do ensino fundamental para o médio, Camila mudou de escola por decisão da família. A dificuldade de integração, somada às diferenças do método e do tipo de material adotado quase a levaram à reprovação. “Estava acostumada com apostilas e passei a ter dificuldade para acompanhar as aulas por conta do livro didático. Nunca tive problemas antes, mas quase reprovei”, conta a analista de marketing digital, que havia estudado numa mesma escola desde o início de sua vida escolar. Aos 15 anos, estar perto dos amigos era muito importante para ela. Diante da ameaça de reprovação, ela conversou com a mãe, deixou claro que não queria permanecer no colégio e acabou voltando para a escola de origem. Mas muitos dos amigos haviam mudado para outras instituições. Então, Camila terminou o 2º ano do médio nesta escola e fez o 3º ano em outra.


Histórias como a dela – em que o ônus da mudança de colégio recai sobre o aluno e a família – poderiam ter um enredo diferente se a postura das escolas fosse outra. Em uma situação de transferência, as instituições fazem avaliações de entrada com o objetivo de conhecer o aluno. Em alguns casos, oferecem algum tipo de reforço e, não raro, encaminham os alunos com dificuldade para professor particular. Para a psicóloga Rosely Sayão essas soluções não são suficientes. “Quando um aluno se matricula numa escola, não interessa quem ele é, de onde vem, como chegou: a responsabilidade de educá-lo é da nova escola”. Responsabilidade essa que perpassa a interação com os pais e a integração plena do aluno no novo ambiente. “Um professor pode promover a inserção do novo aluno simplesmente estimulando o sentimento de unidade e cooperação na turma.”


O peso acadêmico
A postura “excessivamente cartorial” que muitos colégios assumem – especialmente no ensino médio – prejudica, em primeiro lugar, a adaptação ao novo ritmo e à metodologia de ensino. “É preciso olhar o que o aluno estudou à luz das diretrizes e objetivos globais do ensino médio”, enfatiza Francisco Cordão, membro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), referindo-se aos quatro eixos que norteiam as diretrizes curriculares da etapa, elaboradas em 2011 pelo CNE: trabalho, ciência, cultura e tecnologia. “Assim, as escolas devem enfocar a contextualização, o sentido, sem se prender tanto às descrições das ementas”, complementa. Para ele, essa leitura formal do boletim e dos currículos faz com que muitos alunos tenham de recorrer a aulas particulares para solucionar as dificuldades de aprendizagem.


O Colégio Galois, em Brasília, recebe todos os anos entre 60 e 80 estudantes novos – cerca de 10% do alunado vai para o ensino médio. “Brasília é uma cidade onde a adaptação cultural pode ser difícil, então procuramos observar o  novo aluno e colocá-lo numa turma onde haja mais pessoas com interesses afins”, diz Euclides Chacon, vice-diretor. No entanto, para acompanhar o ritmo, os estudantes que chegam à escola precisam adotar um ritmo intenso de estudos nos primeiros dois ou três meses – quer dizer, precisam participar das atividades de monitoria (a cargo de ex-alunos), ir aos plantões de dúvida sempre que necessário e estudar em casa. “Não há muita diferença do conteúdo entre os alunos que já estão na escola e aqueles que chegam. A maior discrepância está no grau de aprofundamento”, afirma.


Para dirigentes e coordenadores de escolas é difícil escapar da pressão do currículo no ensino médio. Além da extensa carga curricular, existe a pressão da preparação para o ingresso no ensino superior – mesmo nas escolas em que não há esse foco.  Desse modo, as sondagens e avaliações dos ingressantes acabam se tornando comuns sob o argumento de que são necessárias para conhecer o aluno e permitir que a escola o ajude a desenvolver seu potencial e possa apoiá-lo nas dificuldades.


Olhar o aluno
A socialização é uma das chaves para o sucesso da aprendizagem, afirmam educadores e psicólogos. Nesse sentido, a escola deve ser capaz de acolher e lidar com as diferenças, a fim de evitar experiências como a do designer Fábio Viana que, ao longo de sua vida escolar passou por várias escolas públicas e privadas, chegando a ser expulso de duas delas. Natural de Santo André (SP), ele viveu parte da infância em Aracaju (SE) e depois se mudou para São Paulo. Da educação infantil à conclusão do ensino fundamental, Fábio passou por três escolas e foi expulso de duas, apesar de ter bom desempenho. “Fui expulso por problemas de disciplina. Não me concentrava bem, as aulas eram soltas, havia muitos alunos na sala e, por isso, aprontava”, relata. Segundo ele, na escola pública, além das turmas lotadas, havia o agravante da qualidade de ensino. “Não conseguia me adaptar de forma alguma.”


Entre idas e vindas, ele recebeu o diagnóstico de síndrome de hiperatividade ainda na infância. “As escolas não estavam preparadas para lidar com essa diferença, embora soubessem da minha condição”, explica. A falta de preparo para lidar com alunos como Fábio, que fogem ao padrão, traduziu-se tanto em recusas de matrícula, quanto em situações em que ele teve de resolver seus problemas por conta própria.


Diante do episódio, a orientadora pedagógica Lilian Feingold defende que é importante que a nova escola siga uma espécie de receita ao receber um aluno novo. “A criança não vem do nada, não desce de um foguete. É interessante entrar em contato com a escola anterior para conhecer o histórico e juntar essas informações com as próprias observações”, afirma. Essa orientação pode ser útil no caso de alunos com histórico de indisciplina. Segundo Lilian, a desobediência pode ser uma demonstração de que o aluno estava “afetivamente incomodado” no ambiente de origem, o que pode ser decorrência de vários tipos de fatores: um quadro de desorganização emocional, problemas familiares, falta de afinidade com os adultos da escola (especialmente professores).”Se você usa o histórico da outra instituição como um item de observação, pode mudar uma situação que era crônica na outra escola”, defende Lilian.


Outra conduta fundamental é conversar com o aluno e compreender sua trajetória, pois são muitos os motivos que podem levar a uma transferência. A criança pode mudar de escola porque mudou de cidade. Pode ser que ela tenha alguma necessidade educativa especial não identificada na escola de origem, que precisa ser investigada. Pode ser uma dificuldade de adaptação à metodologia de ensino. Também é importante identificar quem quis a mudança: o aluno ou os pais. “O modelo de escola que predomina é o da escola que não acolhe”, defende Claudia Siqueira, diretora do Colégio Sidarta, em Cotia (SP). “Prioriza-se a dimensão curricular e não se enxerga o indivíduo.” Dessa forma, a instituição acaba desconsiderando o chamado “currículo invisível”, tão importante quanto o currículo acadêmico para o sucesso do aluno. “O boletim não traduz a criança. O caderno dele pode ser mais valioso, pois dá mais pistas sobre quem é aquela pessoa.”


Outra dimensão fundamental é conhecer os pais, a fim de compreender qual é o valor que eles atribuem à escolarização na formação do filho. Na visão da diretora, a educação depende diretamente de uma afinidade e uma sintonia entre a escola e a família. Rosely Sayão defende que, numa transferência, a socialização se sobrepõe a eventuais diferenças de currículo. “Incompatibilidade curricular é normal, as escolas são diferentes mesmo e não têm de ser todas iguais. O aluno recém-chegado não precisa nem de professor particular nem de aula extra na escola: precisa de coleguismo”, afirma. Em suas palavras: “o que as escolas precisam é introduzir a cultura do coleguismo, do acolhimento, que é um aprendizado para a vida toda”.

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