Os rumos da EAD pública

Para coordenador da Universidade Aberta, críticas da Undime e CNTE são boas

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Dos programas oficiais de educação a distância do MEC, a Universidade Aberta do Brasil é a interface mais visível dos inúmeros instrumentos que compõem os esforços do governo federal para reverter a atual situação de baixa qualidade da Educação Básica. A UAB entra no processo para ajudar na formação e capacitação de professores da rede pública.


Para o coordenador-geral da entidade, Celso José Costa, o órgão está longe de ser a solução para o problema de valorização do magistério. Ele, no entanto, aposta na EAD como um meio eficiente e de qualidade para levar conhecimento aos futuros e atuais docentes, principalmente em regiões onde o acesso ao ensino superior é difícil.


Celso Costa é matemático e professor titular da Universidade Federal Fluminense. Com doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e pós-doutorado na Universidade de Paris VII, tem renome científico. Especialista em geometria diferencial, em 1982 descobriu equações de uma superfície mínima que atualmente leva o nome de Superfície Costa, ou Costa Surface, resolvendo um problema aberto na área 206 anos antes.


Quais os objetivos da criação da Universidade Aberta e qual seu foco principal?


Colaborar com a formação de professores inicial e continuada. É evidente que tem outros cursos também que colaboram para a questão da gestão pública, do desenvolvimento econômico regional, mas a prioridade é a formação de professores.


Quais as metas da UAB?


Ter abrangência nacional por meio de pólos de apoio ao estudante. Trabalhamos com o apoio dos pólos situados nas várias regiões brasileiras, principalmente no interior. Pretendemos implementar no Brasil, na consolidação desse projeto, cerca de 860 pólos, estrategicamente distribuídos. Sempre vai haver um pólo perto do domicílio do potencial estudante. Esse é um dos objetivos. O outro é ajudar a vencer o déficit de professores no sistema público e também no privado. Mas o foco é o sistema público. Nesse caso, temos um grande déficit a vencer, que é a questão de professores que estão trabalhando e não têm a formação adequada. Então, um dos objetivos é prioritariamente fornecer a esse professor a oportunidade de se qualificar na disciplina em que está atuando. O objetivo é colaborar para que tenhamos bons profissionais professores no mercado e ajudar o ensino presencial, pois a educação a distância não resolve os problemas sozinha.


Quantos alunos fazem atualmente curso de formação de professores na UAB?


Neste momento, temos no sistema UAB entre 35 mil e 37 mil estudantes. O sistema começou há menos de um ano. Desses, cerca de 75% estão na área de formação de professores. Estamos trabalhando até o momento com 291 pólos implementados e agora serão incorporados outros 271 pólos para a Universidade Aberta, que começarão a funcionar a partir de agosto. Com isso, está prevista a entrada de mais 40 mil estudantes, dos quais 92% são de formação de professores, porque demos prioridade máxima a essa área. E também estamos formatando cursos de gestão pública para que possamos dar uma colaboração ao Estado brasileiro nessa questão de qualificação de pessoal.


É possível avaliar a atuação dos alunos da UAB na área de formação de professores?


Os alunos estão terminando agora o 1º  semestre, sua entrada é muito recente. Mas a Universidade Aberta englobou alguns projetos que já estavam funcionando e o mais significativo que aderiu à Universidade Aberta é o projeto do Rio de Janeiro, do Cederj, um consórcio que une as universidades públicas do Estado para fazer educação a distância. É um projeto que tem o mesmo modelo de funcionamento da UAB e já tem alunos formados. Isso permite que tenhamos uma projeção do que podemos conseguir com a Universidade Aberta.


A avaliação é positiva?


Sim, porque os alunos passam em boas colocações nos concursos públicos que estão sendo realizados. Na região de Itaperuna tivemos o segundo lugar em matemática e o primeiro lugar em Cantagalo. E temos alunos que vão fazer mestrado stricto sensu, inclusive matemática financeira no Impa, o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, que é muito exigente. Então a gente sente que os alunos estão passando por uma formação forte e estão, evidentemente, tendo de estudar muito. Além disso, são proficientes em tecnologia, porque no ensino a distância o aluno tem de saber usar um ambiente institucional e tem informática interagindo com as várias disciplinas. O aluno a distância tem de se planejar para ter um bom aprendizado. O curso é muito bem estruturado, então ele tem de fazer um planejamento, em que horas do dia vai estudar, tem de ter disciplina para cumprir o planejamento, para trabalhar em cooperação com outros estudantes. Isso faz com que esse profissional tenha uma proatividade diferenciada quando vai para o mercado. A Universidade Aberta está indo por esse caminho, está seguindo as tradições que vigoravam em nosso país em termos de projetos precursores, como o Cederj e o Projeto Veredas em Minas Gerais, que formou 15 mil professores que estavam trabalhando na rede estadual.


Entidades como a Undime e a CNTE criticam a formação de professores a distância. Dizem que deveria ser usada apenas em casos excepcionais, onde não houvesse uma estrutura e a possibilidade de um curso presencial e que é mais própria para a formação continuada. Qual sua posição?


É uma crítica boa, colabora com o cuidado que a gente tem de ter no sistema. Acho que a Universidade Aberta está exatamente nos lugares onde as oportunidades não existem. Os nossos 291 pólos iniciais estão totalmente situados em regiões do interior do país, onde os profissionais em atua­ção e jovens e adultos que estão fora do sistema não têm oportunidades. Então, vejo que essa excepcionalidade propugnada por essas associações nos preocupa também. Com o desenvolvimento do nosso projeto e com a evolução dessa metodologia, vai haver uma convergência entre ensino a distância e ensino presencial. A questão do uso da tecnologia é colocá-la a serviço de um projeto, e não à frente dele. E é evidente que se você tem uma capacidade de se comunicar com o seu estudante, se pode formar grupos de estudos, colaborar entre si e fazer perguntas a distância em vez de se deslocar, algumas vezes de madrugada, o que acontece no interior, é mais interessante. Onde não tem oportunidade, o prefeito paga um ônibus para os alunos irem de madrugada fazer cursos no fim de semana em instituições que estão longe do seu município. Será que esse tipo de ensino oferecido a esses estudantes tem qualidade? Nessa preocupação das associações a gente está antenado e, nesse momento, acho que a excepcionalidade endossa as nossas ações. Mas mais à frente certamente vamos amadurecer esse procedimento e ver se a convergência da educação a distância e a presencial vai colaborar com a solução dessa discussão. Porque a gente continua atendendo a excepcionalidade. A demanda da excepcionalidade é tão grande que nesse momento ela não preocupa.

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