Os riscos da <i>pontefilia</i>

Raros são os que compreenderam a radicalidade ético-política da experiência capitaneada por José Pacheco na Escola da Ponte

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A aquisição mais que bem-vinda de José Pacheco, um dos mais respeitáveis pensadores da escolarização atual, como colunista de
Educação

representa uma conquista e uma ocasião ímpar para debater a nova moda que tem arrebatado os bem-pensantes da educação nacional: a
pontefilia

.








Raros são aqueles que não tenham ouvido falar da Escola da Ponte, a pequena escola pública portuguesa situada nos arredores do Porto. Mais raros ainda são os que compreenderam a radicalidade ético-política da experiência capitaneada por Pacheco. Radical pelo fato de que lá se levou a sério – e às últimas conseqüências – o projeto de uma educação emancipadora, o que exigiu a criação e a manutenção de um conjunto de estratégias alternativas que, para a maioria dos educadores brasileiros, soam belas e desejáveis, mas possíveis apenas em sonho ou no papel.







Gestão coletiva envolvendo todos os segmentos; abandono definitivo da seriação; atenção diuturna às diferenças; autonomia responsável na relação com o aprendizado – eis uma mostra do intrincado mosaico de práticas distintivas da Ponte. Práticas que impressionam por seus resultados, como se algo miraculoso lá estivesse sendo gestado. Não é o caso. Trata-se apenas uma instituição comprometida com uma visão de mundo expressamente democrática, o que inclui muitos percalços e alguns êxitos. Nenhum ovo de Colombo, portanto.







Não obstante, temos atestado um intenso trânsito de brasileiros que se dispõem a pagar para ver as “maravilhas” ali levadas a cabo. Daí a
pontefilia

: o frisson em torno do pioneirismo pedagógico além-mar.







Quais as razões para tal? Três breves hipóteses, a seguir.






Primeiro, a curiosidade dos viajantes revela a escassez ou a fragilidade de projetos inovadores entre nós – seja na esfera pública, tanto mais na particular. O foco de interesse passa a ser, então, não o projeto político-pedagógico da Ponte em sua organicidade e complexidade, mas o arremedo de uma ou outra estratégia avulsa de disciplinamento ou rendimento dos alunos.





Segundo, o espelhamento em uma realidade estrangeira, porém semelhante em cultura e idioma, possibilita uma suspensão temporária dos problemas concretos do país. Paradoxalmente, aqueles que lá se encantam são os mesmos que aqui convivem serenamente com práticas incompatíveis com o ideário democrático perseguido pelos portugueses.





Terceiro, a unanimidade auferida pela Ponte remete a algo da ordem da má-consciência reinante. O deslumbramento com as supostas novidades alhures figura como um lenitivo para espíritos que se proclamam insatisfeitos com o rumo das coisas na educação brasileira, mas que poderiam, outrossim, arriscar-se mais corajosamente na invenção de outros horizontes educativos por essas bandas, onde tudo ainda está por se fazer.







Se corretas as hipóteses acima, a invejável experiência portuguesa conhecerá, cedo ou tarde, um destino inglório: mais um modismo fadado à obsolescência ou, pior, ao esquecimento – ambos efeitos certeiros da assombrosa letargia pedagógica que nos assola.



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br





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