Os prejuízos da exclusão

Em entrevista à revista Educação, o psicanalista Contardo Calligaris defende a inclusão de portadores de deficiência em salas de aula tradicionais.

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Vanessa Sayuri Nakasato


Para o psicanalista Contardo Calligaris, 57, inclusão social nada tem a ver com caridade. Pelo contrário, ele acredita que o mundo desperdiça talentos e se priva do convívio com pessoas que tem muito a oferecer, quando segrega os portadores de deficiências físicas e mentais dos demais cidadãos. No caso das escolas, Calligaris duvida da eficiência das “classes especiais” e prega a integração dos alunos. Convivendo com os portadores de deficiência, as crianças aprenderiam a lidar melhor com a diferença e se tornariam mais tolerantes. Para o excepcional, por outro lado, o fato de se sentir fazendo parte de um ambiente social, e não ser mais definido apenas por sua deficiência, permitiria que sua vida desabroche, de modo produtivo.







 








 Eder Chiodetto





 Calligaris defende a inclusão de portadores de deficiência em salas tradicionais


Autor de livros como
Hello Brasil

! (Escuta, 160 págs., R$ 36) e
Crônicas do Individualismo Cotidiano (


Ática,


264 págs., R$ 27), Terra de Ninguém (


Publi Folha, 423 págs. R$ 49) e colunista do jornal Folha de S.Paulo


, Contardo Calligaris fala à Educação sobre

a relação dos portadores de deficiências físicas e mentais com os pais, a escola e a sociedade. E conclui que excluir o outro é privar-se de todos os benefícios que a sua companhia pode proporcionar, começando pelo aprendizado.


 




Revista Educação –

Por que a inclusão de deficientes é relevante para uma escola e para a sociedade?




Contardo Calligaris –

Independentemente do fato de que seria excelente se os professores tivessem a capacidade de ver no excepcional não alguém a quem falta alguma coisa, mas alguém que possui potencialidades específicas. Seria um extraordinário aprendizado pedagógico. Isso serviria, também, para lidar com aquela criança que é desatenta, que não estuda, ou que parece que nunca entende coisa alguma.



Como seria essa mudança, particularmente, para as crianças?


Elas vão aprender a lidar melhor com a diferença. Para o excepcional, o fato de se sentir fazendo parte de um ambiente social e não ser mais definido pela sua deficiência vai, provavelmente, permitir que sua vida deslanche. Detalhe: em geral as crianças são especialmente preconceituosas. Pegam no pé do gorducho, da magrela, do baixinho. Brasil é o império dos diminutivos agressivos e dos apelidos ferozes. Na pré-adolescência isso é muito comum e ser aceito é crucial. Um grupo se constitui pela exclusão. Isso é regra geral, não tem milagre. Se você quer ser um dos membros do grupo

dos bacanas, o primeiro passo é chamar os que não fazem parte desse grupo de babaca. Esse tipo de atitude deveria ser reprimido no quadro escolar. Eu ainda acredito nas punições.


 




Que tipo de punição?




Castigo, suspensão, reunião com os pais. Para mim, simplesmente chamar alguém de gordinho é um problema seríssimo. Com isso você fere a dignidade do outro e não reconhece a sua igualdade, direitos e princípios. Por causa de uma diferença que é irrelevante do ponto de vista da convivência do cidadão.



Isso é uma falha da educação?


Sim. Acredito que poderíamos ser mais repreensivos em relação a esse tipo de discriminação interna. É um erro pensarmos que uma palavra não pode produzir muito efeito, só porque é uma piada, uma brincadeirinha? Pode, ao contrário, fazer grandes estragos na vida de alguém.




E no caso do portador de deficiência?




Ao contrário do que as pessoas podem pensar, ele não é burro. Sabe muito bem quem é aquela pessoa que o trata normalmente porque reconhece nele um sujeito, e aquela que só está falando com ele porque acha que está conseguindo indulgência para o purgatório futuro.




Qual a melhor classe para ele? A “normal” ou a especial?


Para muitas pessoas em todo o mundo, a educação de portadores de deficiência deve ser desenvolvida em classes “normais”. Exceto em casos que demandam uma atenção muito específica e que impeça a relação da criança com o curso de estudo normal. Mas não concordo que deva haver separação. O benefício da inclusão é muito grande para todo mundo. Há um custo de esforços, de preparação, tanto por parte da escola como da criança excepcional.



O que levou a inclusão de portadores de deficiências físicas a ser uma questão mais



discutida?



Gostaria de pensar que a consciência cívica das pessoas melhorou. E que existe uma evolução positiva, não só dentro das escolas, mas em todo o país. Hoje já existem cinemas com rampas de acesso para cadeiras de rodas e lugares reservados para os portadores de deficiências físicas. Em alguns locais começam a existir calçadas que descem para que seja possível circular com cadeiras de rodas. Embora isso ocorra de maneira limitada, bem longe de ser o ideal, já é um início. É o que podemos chamar de progresso social. Eu não sei se essa evolução é forte o bastante, mas certamente o Brasil é um país em que a visibilidade pública das pessoas portadoras de deficiências continua sendo muito pequena. Diferente do que se verifica em outros países, essas pessoas ficam fechadas em casa
.




De quem é a culpa por essa situação?


Primeiramente destaca-se a falta de meios concretos de inclusão, como os que se referem à praticidade de circulação. Em segundo lugar, no país ainda se percebe o estigma de vergonha social, que é muito marcante. Ou seja, se você tem um filho com algum tipo de deficiência mental ou física, passear com ele pelas ruas é um passo psíquico muito especial.  É provável que as pessoas vão olhar com aquela cara de “ah… coitado, ele é deficiente”. Então é preciso que você reconheça esse filho não o definindo por sua deficiência, mas sim pelas potencialidades concretas de sua vida.




A falta de preparo dos pais os leva a deixar seus filhos em casa?




Preparar os pais não é só um trabalho societário. Precisa-se de profissionais capacitados para isso. A verdade é que cuidar de um filho portador de necessidades especiais é muito difícil, e poucos pais conseguem encarar um evento desse tipo.





Então a história de que o amor nos faz capazes de suportar tudo não é verdadeira?



O amor nos permite suportar muito, e às vezes até demais. Mas o amor não é uma resposta mágica nessa história. É possível amar perdidamente um filho portador de deficiência, a ponto de não deixar que ele seja nada mais do que um deficiente. Dependendo do modo como se manifesta, o amor dos pais pode ser extremamente perigoso para uma criança que apresente uma deficiência física ou mental. Porque a deficiência física e, principalmente, a mental, coloca a criança num estado de eterna dependência. Nesse sentido, de alguma forma, ela pode satisfazer o amor, sobretudo o materno, porque essa criança será um bebê para sempre.




Mas não existe o medo de um dia não poder continuar cuidando do filho?



Sem dúvida. Por isso mesmo, a grande questão é conseguir amar o não filho por sua deficiência, mas pelo o que ele é de fato.


A mãe dificilmente consegue redefinir o filho. A resposta mais fácil, mais espontânea e imediata é que ela coloque o filho como a razão de sua vida. Ela vai se sentir o suplemento de tudo o que a criança não pode fazer. Vai se tornar ela mesma o braço mecânico de seu filho paralítico, os olhos de seu menino cego e, assim, manter-se sempre necessária.



E como se coloca essa questão do ponto de vista social?


A própria história da inclusão é um pouco essa. A inclusão caritativa não interessa a ninguém. No quadro escolar, não interessa às crianças que conviveriam com os portadores de deficiência, nem a eles próprios. Eu não gosto da palavra “deficiente”, que ainda é a expressão mais usada para designar essas pessoas. Não gosto porque, justamente, é uma palavra que, em latim, implica na idéia de uma coisa que falta e, assim, define as crianças pelo que lhes falta. Eu prefiro o termo “excepcional”, porque é um adjetivo que marca uma diferença, uma exceção, um ser diferente em relação aos outros. Por si só, a palavra “deficiente” já envolve uma postura excludente. Ela define a pessoa pelo que ela não pode fazer, pelo que ela não alcança. Isto é, se a idéia da dita inclusão escolar ou social for caritativa, não será interessante. Por exemplo, “ela vai ser acolhida na classe, mas não poderá fazer isso ou aquilo”. Só haverá interesse quando esse cidadão for incluído positivamente. Não como “o deficiente da terceira fila”, mas como o Paulo, o Pedro.







O senhor diz que tanto os pais, como a sociedade precisa redefinir. O que seria essa redefinição?




No que concerne aos pais, isso se obtém com a ajuda de um profissional. Acho importante, porque quando temos um filho que necessita de cuidados especiais, durante um certo tempo, no começo, isso nos auxilia a definir a situação, a mudar o olhar. O primeiro olhar é sempre o olhar de “como é que eu vou ser o suplemento do que está faltando a essa criança que eu coloquei no mundo?”. E no que concerne à sociedade, é preciso um grande trabalho, que os psicólogos escolares talvez não façam, mas poderiam fazer. O trabalho com os professores deve ver primeiro. Porque não é verdade que, pelo simples fato de você ser um excelente professor, esteja preparando para lidar com isso de uma maneira inteligente, capaz de incluir sujeitos diferentes.



 



Como melhorar a educação para excepcionais?




O ideal seria a inclusão efetiva, mas precisaríamos de classes que possuíssem os equipamentos necessários. Por exemplo, computadores com lupa e livros didáticos diferentes. O mundo desperdiça muitas potencialidades, até gênios, por puro preconceito e falta de investimento.



 



O Brasil é um país que, como o senhor já disse, oferece pouca infra-estrutura para seus portadores de deficiência. No que isso implica?



A falta de estrutura física é a manifestação simbólica, porém concreta de falta de cuidado para comigo. Andar pela cidade e não conseguir descer uma calçada sem ajuda remete à lembrança de que a comunidade onde vivo não se importa com o meu bem-estar. Sublinha o fato de que eu não sou uma prioridade para a cidade ou o país que eu vivo. E dentro de uma escola isso é ainda pior. A infra-estrutura não é apenas o conjunto daquelas coisas materiais, necessárias para o outro se movimentar. É a manifestação concreta da decisão de incluir. Ela tem, portanto, uma grande importância psíquica.




 






O senhor sempre diz que aquele que exclui está se excluindo.




Quando você exclui o outro, qualquer que seja a razão, você também se exclui da companhia do outro, se exclui de aprender mais, de vivenciar. Excluir é perder. Sempre.


 


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