Os novos horizontes educacionais

ONGs parecem figurar como resposta histórica ao esgarçamento dos pactos escolares

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O que vale é ter liberdade para consumir. Essa é a verdadeira funcionalidade da democracia

. Assim pontifica o seqüestrador justiceiro do recente filme brasileiro
Quanto Vale ou É Por Quilo?

. Livres são apenas aqueles incluídos na roda da produção/consumo. Aos outros restariam lampejos de uma cidadania de fachada, já que convertida, em tempos neoliberais, em abstração ou falácia. Circo, talvez.

O argumento do filme é cabal: nosso passado escravagista persiste incólume, agora travestido no “negócio da miséria” capitaneado pelo Terceiro Setor, principalmente por meio de seu braço forte: as ONGs. Uma indústria rentável movida a
slogans

de grife como “responsabilidade social”, “solidariedade”, “voluntariado” etc.

Se plausível a argumentação, quais as repercussões na área educacional? Estima-se que existam hoje 15 mil entidades dedicadas a crianças e adolescentes em idade escolar. Nascidas ou impulsionadas nas duas últimas décadas, as ONGs socioeducativas recobrem uma intrincada teia de práticas com delimitação incerta, mas em incontestável expansão.

Independentemente das razões de seu surgimento e subsistência, o fato é que elas têm se firmado como lócus de “administração” da população infanto-juvenil pobre e/ou marginalizada. Mais ainda, no imaginário social, tais ONGs passaram a dividir com as escolas a responsabilidade pela guarda – pudera eu dizer “proteção” – da infância e da adolescência, em especial daquela em situação de risco.

Se há impacto afirmativo das ações aí levadas a cabo, não se pode assegurar. O que importa é examinar os efeitos de tais práticas no cenário educacional contemporâneo. Estaria a hegemonia escolar ameaçada pelas ONGs? Em geral, evoca-se a atenção conjunta de ambas em prol do “desenvolvimento integral” dos sujeitos, já que nenhuma instituição poderia isoladamente dar conta do recado. Minha hipótese analítica é outra, no entanto. 

Dada a baixa resolutividade do modelo escolar estatal, tais ONGs representariam uma tendência dominante quanto ao tipo de educação que dispensaremos às camadas populares num futuro próximo. É possível, pois, que elas acabem se firmando como as sucessoras naturais das “boas ações” educativas que um dia foram sediadas nas salas de aula, hoje em estado agônico. 

Mas o que há numa ONG que não há numa escola regular? “Lá ainda se acredita que é possível educar. A força das ações não é intelectual. Lá se inventa”, pondera uma respeitável colega da área.

Daí que o advento das ONGs socioeducativas parece figurar como uma resposta histórica ao esgarçamento dos pactos escolares em favor da educabilidade das crianças e adolescentes pobres (leia-se, os “novos escravos”), já que dotados de irrelevante potencial de consumo e, portanto, párias do futuro “democrático”. Resta saber se os novos horizontes que despontam acarretarão ainda mais miséria intelectual. Outro circo, talvez?



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



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