Os lugares da criança

A escola moderna está em crise. Até aí, todos estamos de acordo. A mesma escola que tomou lugar no mundo ocidental com o advento …

Compartilhe
, / 865 0

A escola moderna está em crise. Até aí, todos estamos de acordo. A mesma escola que tomou lugar no mundo ocidental com o advento da tipografia, que se estruturou como a principal instância de formação da cultura letrada, presencia, desassistida, o impacto cada vez mais avassalador das novas mídias televisivas e digitais. Antes, as crianças levavam para a escola o que aprendiam com seus pais, por convivência. Agora, trazem uma bagagem que passa pela TV, pelos desenhos animados, pelas narrativas das novelas, pelas revistas em quadrinhos; e, mais recentemente, pela internet. A escola, aturdida, lida mal com esse fluxo veloz e interminável de informações, que, confundindo-a, parte de instâncias exteriores a ela. Com a internet, surge inclusive uma maneira diferente de abordar a competência da escrita. A juventude lê e escreve: em blogs, no orkut, nos celulares… Como poderia a escola se apropriar desse novo universo para se valer dele como fonte de aprendizado? Esse é o desafio dos que acreditam nas potencialidades da instituição. Há quem não acredite.

As teorias da desescolarização surgem no cenário pedagógico da segunda metade do século 20, mais especificamente nos anos 70. São teses, em alguma medida, tributárias do caldo de cultura e contracultura dos anos 60. Até que ponto a escola se atrasara como instituição? Teóricos como Marshall Mcluhan (1911-1980), Ivan Illich (1926-2002), Everett Reimer ( -1998) e Paul Goodman (1911-1972), sob diferentes perspectivas, defenderão o fim da escola. Havia antecedentes de crítica ao modelo escolar, e eram bastante vivos os preceitos terapêuticos da proposta de Carl Rogers (1902-1987) nos Estados Unidos e a experiência comunitária da vida escolar em Summerhill – idealizada por Alexander S. Neill (1883-1973) – na Inglaterra. Tais referências que, por sua vez, eram tributárias do pensamento da Escola Nova não chegavam a propugnar o fim da escola.  Os partidários da desescolarização foram além. Para que manter uma instituição que claramente não soubera se adaptar a seu tempo?

Ivan Illich foi, entre todos, o mais radical. Em seus principais trabalhos – Sociedades sem escolas, de 1971, e Destruir a escola, de 1972 – desenvolve claramente a tese da obsolescência dessa instituição, propondo sua extinção. Segundo ele, “os alunos nunca atribuíram aos professores o que aprenderam. Tanto os mais brilhantes quanto os mais bobos sempre confiaram na sorte, leituras e esperteza para passar nos exames (Illich, Sociedades sem escolas, 1982, p.63)”. Para Illich, os adultos costumam romantizar seu tempo de escola, produzindo um apagamento dos infortúnios a que nela teriam sido submetidos. Era preciso estabelecer uma ruptura radical com esse modelo. De acordo com a proposta de Illich, famílias e estudantes sem escolas poderiam perfeitamente decidir como, onde e quando estudar.

Foi, no entanto, John Holt (1923-1985), professor da Universidade de Harvard, quem efetivamente implementou a primeira experiência de desescolarização. Esse autor – que teria conhecido Illich e Neill – compartilhava de seus pressupostos críticos quanto às possibilidades da instituição escolar. Em 1977, Holt passará a editar uma importante revista por meio da qual pretendia aconselhar os pais sobre como efetivar o homeschooling. O referido periódico chamava-se Growing without schooling. Holt liderou um movimento internacional pela divulgação e legalização do ensino doméstico.
 
O homeschooling – em português, ensino doméstico ou domiciliar – é bastante disseminado nos Estados Unidos e na Inglaterra. Na Espanha, a despeito de tal prática não ter sido ainda legalizada, há também movimentos nessa direção. Existe uma revista espanhola, publicada desde 1997, que, sob o título Crescer sem escola, publica artigos sobre desescolarização, incluindo relatos de encontros acadêmicos e pedagógicos acerca do tema.  Em Portugal, o ensino doméstico é legal, embora conte com pouca adesão das famílias. No Brasil, a freqüência à escola é obrigatória nos nove anos do ensino fundamental.

Homeschooling significa aprender diretamente com os pais ou com alguma pessoa por eles designada para ensinar. Em alguns países, há controle por parte dos órgãos governamentais sobre as atividades desenvolvidas em casa. Periodicamente, o responsável entregaria ao Ministério um relatório do qual constassem dados sobre a evolução pedagógica de cada criança, que, ao final de um dado ciclo, seria submetida a provas escolares. Porém, em cada país a legislação caminha numa direção. Não há – por exemplo – acordo quanto à legitimidade da existência de avaliações externas.

Nos Estados Unidos, um dos principais motivos de adesão ao ensino doméstico teria sido o fator religioso. Mas é curioso que, desde a entrada da internet, a demanda foi acentuada. Entre 1999 e 2003 houve aumento de 29% nas modalidades de ensino doméstico desenvolvidas naquele país. O avanço da rede mundial de computadores contribuiu nitidamente para intensificar a procura por essa prática. Nos países onde a atividade é legal, são criadas comunidades on-line para discussão e intercâmbio. Ressalte-se, ainda, a existência de um vasto mercado de livros, revistas e palestras, que gira em torno da proposta do homeschooling – como negócio.

Além dos motivos acima aludidos, a defesa do ensino doméstico costuma ser escorada na idéia de liberdade do ensino. Diz-se que deveria pertencer aos pais a opção pelo tipo de instrução a ser ministrada aos filhos.  A educação em casa – sob tal ponto de vista – seria mais dinâmica, mais ativa, mais centrada no sujeito da criança, respeitando seus ritmos e interesses. Além disso, alega-se que os pais, por conhecerem melhor suas crianças, ensinariam melhor. Evidentemente, esse princípio é bastante discutível. A família estrutura-se a partir de relações afetivas. O afeto não é paciente. A vida escolar supõe, antes de tudo, o aprendizado dos conteúdos da cultura letrada; mas é também o aprendizado de nossas relações com os outros. A criança que chega pela primeira vez à escola encontra nela, pela primeira vez, sua própria identidade, com nome e sobrenome. Ali ela representa, sim, sua linhagem familiar, e paradoxalmente está, até certo ponto, liberada dela. Isso é pedagógico.
 
Como princípio, o homeschooling recusa a escola como instância de formação. Rejeita o lugar social que a escolarização desempenha nas sociedades do Ocidente desde, ao menos, o século 16. Todavia, a escola se alicerça hoje na vida social como um passaporte para o mundo dos adultos. É possível dizer que estratégias escolares de instrução, formação e civilização instituem maneiras de preparar a infância e a adolescência para habilidades e competências que lhes serão requeridas na vida adulta.

A escola lida com normas impessoais. Regras públicas que orientam a vida da sala de aula estabelecem pactos de convivência dos alunos entre si, e deles com professores. A criança, no âmbito dessa vida entre regras, aprenderá a lidar com sinais e com rituais que serão distintivos. Ela obterá hábitos de obediência, sim. Mas criará também hábitos de convivência, concentração, atenção, perseverança, disciplina, controle de si. No limite a escola institui, por seus ritos, por suas palavras e por seus sinais, uma cultura que lhe é própria, e que terá certamente um caráter civilizador. Pode-se dizer que a cultura escolar dialoga claramente com a codificação dos saberes da escritura: “saberes objetivados, delimitados, codificados, concernentes tanto àquilo que é ensinado quanto à maneira de ensinar” (Guy Vincent et alli, L’éducation prisionnière de la forme scolaire, 1994). Há rivalidades entre crianças da mesma idade. Há também rivalidades, desavenças, afeições e desafetos. Tudo isso é educativo: um contínuo aprendizado de equações dos conflitos inerentes à sociabilidade humana.

A família é de fato um refúgio que resguarda a criança dos malefícios pelos quais o mundo a ameaça. Mas, se a família protege, é necessário que a escola paulatinamente aproxime a criança das coisas desse mundo comum, contra o qual ela não poderá – e não deverá – ser protegida a vida inteira. Sair da família é, então, uma forma de emancipar a criança das amarras da vida doméstica. Não é plausível imaginar que pais, a despeito de suas generosas intenções, possam legitimamente constituir-se como únicos educadores da infância e da juventude. Isso seria tirânico. Não vamos sequer abordar questões psicanalíticas possivelmente envolvidas nisso – como mecanismos de recalque e os modos pelos quais tantas vezes os pais se projetam no futuro que traçam para seus filhos.
 
A escola faculta, a cada ano, o contato da criança com mais de um educador. Os professores mudam. Representam, por serem muitos, a diversidade existente na vida social. Os pais são, por definição, únicos e os mesmos. Além disso, os professores foram formados para ensinar: têm o ensino por sua profissão. Estarão, portanto, mais aptos a ensinar de maneira serena, sem deixar que as paixões os acometam. Têm técnica; e um ‘saber-fazer’. Mas, além disso, os professores ensinam melhor porque o fazem à vista de todos. Há muitos alunos em uma classe. Se professores não ensinarem bem, seus alunos contarão para os pais, e estes poderão reclamar na escola. A quem as crianças que estudam em casa recorrerão quando eventualmente forem constrangidas moral ou fisicamente pelos próprios pais que as ensinam? Se elas aprendem em casa, quem controla esses pais?
 
A família deve educar como família. A escola deve ensinar como escola. Ambas as relações são imprescindíveis, e será temerário imaginar que poderemos substituir uma pela outra. Ainda não chegou o tempo de proclamarmos o fim da escola. Que a escola, então, permaneça; mas que, por outro lado, se esforce por acompanhar seu tempo. E, se possível, adiantar-se a ele.

* Carlota Boto é professora da área de Filosofia da Educação na Feusp. É mestre em História e Filosofia da Educação pela Feusp e doutora em História Social pela FFLCH/USP

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN