Os livros e a infidelidade

A leitura é uma alienação da realidade e nos leva a secretos lugares de subversão

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Era uma mulher bonita que os olhos não conseguem ignorar. Seu marido sabia disso e vigiava os olhares de admiração dos homens. Tratava-se de uma situação sem maldade alguma porque ela era uma mulher recatada e católica e um pensamento de infidelidade jamais lhe passaria pela cabeça.  Seu marido ficava se roendo de ciúmes, embora ela nunca tivesse lhe dado uma razão para desconfiança.  Mas o ciumento não precisa de razões. Todos os gestos, para ele, eram indícios de uma infidelidade possível. Assim ela foi se retraindo, virando caramujo dentro da concha, ficando caseira para poupar-se da desconfiança do marido e para poupá-lo do sofrimento que sua própria desconfiança lhe causava. O fato era que ela o amava.  Seus limites domésticos não a afligiam muito porque ela tinha um prazer enorme em literatura. Tomava um livro, assentava-se numa poltrona e punha-se a ler. O marido assentava-se longe, sem livro algum na mão porque o que ele desejava era lê-la em busca de evidências para suas suspeitas. 

Acontece que a leitura tem uma virtude paradoxal: ela faz-nos abstrair do mundo real. Mudamo-nos para um outro mundo que aqueles que nos vêem lendo não podem imaginar. Olho para aquela jovem assentada no banco do metrô. Sei onde ela está. Sei mesmo? Ela está lendo um livro. O fato de ela estar lendo um livro me diz que ela se encontra num outro lugar que desconheço. Um livro nos conduz a um lugar de intimidade só nosso.

Por vezes tenho a infelicidade de me assentar ao lado de um chato. Há muitas definições possíveis para um chato porque a chatisse é multiforme. Uma das definições possíveis é: um chato é uma pessoa que acha que aquilo que ela tem para falar é mais interessante do que o  livro que estamos lendo. Para resolver essa situação há dois caminhos: ou ser grosseiro ou ser mais chato que o chato: começamos a contar para ele o livro que estamos lendo. Ele logo fugirá de nós pelo artifício do sono deixando-nos em paz. 

Sem sair do seu lugar, ela entrava num outro lugar do qual seu marido estava ausente. Ele a via sem saber onde ela estava. Ler é um jeito de fugir do outro. Aí acontecia o insuportável para o marido: observando o rosto da sua esposa ele notava sorrisos que, por vezes, se transformavam em riso!  O que lhe estaria dando aquele prazer? Aqueles risos e sorrisos brotavam de uma profundidade de prazer da qual ele estava excluído. Mas isso, precisamente, é o que o ciumento não pode suportar: que a pessoa amada tenha prazer sem a sua presença. O que o riso inocente da esposa lhe dizia era: “Não preciso de você para ter prazer.” A leitura, para ela, era um delicioso lugar de infidelidade.

Traduzindo para a linguagem política: a leitura é um lugar secreto de subversão. Toda subversão é, no fundo, infidelidade a olhos que nos vigiam. Os regimes totalitários sempre tiveram medo dos livros. A Igreja Católica chegou a formular um Index Librorum Prohibitorum, uma lista de livros de leitura proibida. Por que? Porque os livros nos levam a outros mundos. Pela leitura alienamo-nos da realidade para, depois de passear por outros mundos, voltarmos ao mundo em que vivemos e o vemos então de uma outra forma. Um livro que amamos na mão de uma pessoa desconhecida revela-nos um conspirador: moramos no mesmo mundo!

Será que os jovens, com a lista de livros a serem lidos para o vestibular, têm idéias de infidelidade e subversão? Para isso seria preciso que os professores os ensinassem…




Rubem Alves é educador e escritor

E-mail:



rubem_alves@uol.com.br



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