Os docentes e os livros

Também entre os professores, perfis de leitura são variados e incluem não-leitores

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Cássia Bastos, do interior paulista: livros de auto-ajuda são mais importantes do que horas-atividade

Formado em física pela USP e professor há 14 anos, Ulisses Andreis leciona no Colégio Rio Branco, em São Paulo. Declara-se um leitor ativo, habituado a diferentes gêneros e suportes. Assina revistas de divulgação científica e acaba de concluir a leitura de O Brasil na mira de Hitler, do jornalista Roberto Sander. Antes dele, leu o romance de Isaac Asimov (O fim da eternidade) e a biografia de Einstein (Sua vida, seu universo), de Walter Isaacson.  Entre os seus títulos preferidos, destaca Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, e a obra de Machado de Assis, que passou a apreciar mais tarde. Em sala de aula, encenou com os alunos a vida de Galileu, apoiado em uma das peças centrais da obra de Bertolt Brecht.

"A leitura complementa a formação do professor, amplia a visão de mundo e não há muito que teorizar sobre isso. Ler é simplesmente fundamental", resume o docente paulista. 
 
Andreis, hoje com 43 anos, é o primeiro de sua família com curso superior. Os pais cursaram apenas o primário. Na infância, o acesso aos livros era pequeno.

"Lembro da paixão pela ficção científica, de artigos da viagem do homem à Lua, de fragmentos do Arthur Clarke. Ficava alucinado quando alguém vendia uma rifa valendo uma pequena coleção de livros. Não tinha livros em casa e nem dinheiro para comprá-los. Lia gibis, bula de remédio. Só passei a comprar livros na adolescência", conta.

Com perfil inverso, Sueli Bouanni leciona química e biologia numa escola particular de São Paulo e é assumidamente não-leitora. Até o ensino médio ainda arriscava a leitura de algum conteúdo que lhe despertasse a atenção.  "Daí em diante, só lia por obrigação", admite. 

"Fiquei com um bloqueio. Não havia estímulo, só cobrança, e desanimei. Até hoje a leitura me dá sono, cansaço. Acho que a literatura traz palavras de difícil interpretação. Na escola, sempre que podia, em vez do livro, alugava o filme para conhecer a história e fazer a prova", explica.

Moradora de São José do Rio Pardo, Cássia Bastos se sente discriminada. Há 22 anos é professora da educação infantil da rede municipal de ensino da cidade. Adepta do kardecismo, é uma consumidora voraz de livros espíritas e de auto-ajuda.

"Só compro livros assim e leio diariamente", diz. Entre os livros de cabeceira, cita Faça dar certo, de Luiz Antonio Gasparetto, e O poder infinito da sua mente, de Lauro Trevisan. "É como O segredo, que fala da lei da atração, muito em moda atualmente. Só muda o nome", compara Cássia.

No começo dos anos 80, depois de cursar o antigo Normal, Cássia graduou-se em pedagogia em São José do Rio Pardo. Cursou também educação artística, com complementação em desenho geométrico. E além de disputar uma vaga no ensino público, buscou à época também uma colocação na rede particular de ensino.

"Quando mudei para cá, havia preconceito contra os kardecistas e fui rejeitada em uma escola católica", recorda.  Hoje, sente que há também resistências à literatura de auto-ajuda. "Muitos não aceitam e não acreditam que isso funciona. Mas eu vejo que a pessoa que se utiliza desse apoio se sobressai, inclusive profissionalmente", sustenta.

Em que medida o gênero de leitura contribui para o dia-a-dia escolar?
"Tenho um pouco de tendência a ser depressiva. Tiro a minha força dessas coisas. Foi com a auto-ajuda que melhorei e tenho de ler sempre", garante. E completa: "Tiro muito mais da auto-ajuda do que da hora-atividade que tenho de cumprir na escola". Cássia mantém três blogs na internet, um deles dedicado a suas vivências em sala de aula.

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