Os Cefam e a formação virtual

Relato de uma experiência cuja memória ainda é recorrente

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Em 1988 a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo criou os Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (Cefam), até hoje tidos como uma das mais interessantes experiências em formação de professores neste país. Um dos argumentos recorrentes para seu fechamento era aparentemente inatacável: a formação de professores deveria ser feita no ensino superior. Em abstrato, o argumento parece razoá­vel. Não obstante, ao analisar os fatos concretos, custa-me crer que os professores que temos formado nas universidades (privadas e mesmo algumas públicas!) sejam mais bem preparados para o exercício do magistério do que as gerações de professores dos Cefam.

Embora ainda não tenhamos dados empíricos amplos e confiáveis a esse respeito, não se trata de uma opinião isolada. A experiência dos Cefam tem sido objeto de estudos acadêmicos e há relativo consenso acerca da excelência de suas práticas e de seu profundo valor formativo para os jovens que os freqüentaram. Vale a pena retomar algumas de suas características, não por nostalgia de tempos passados, mas a fim de vislumbrar as razões que o tornaram uma experiência singular. Comecemos pelo recrutamento dos professores…

Não bastava ser licenciado ou concursado para integrar o corpo docente de um Cefam. Era preciso apresentar uma proposta de trabalho a ser analisada à luz do projeto pedagógico de cada unidade, que contava com ampla autonomia para estabelecer critérios de recrutamento. O resultado costumava ser uma equipe bastante afinada. Os contratos de trabalho previam a permanência do professor na escola para além das horas-aula, pois havia as ‘horas de trabalho pedagógico’ em que se atendiam alunos e planejavam atividades conjuntas, como estágios, estudos de meio e visitas a museus e outros espaços públicos.

Esse era um dos ‘segredos’ do êxito: a estrutura curricular. Os alunos lá permaneciam em período integral. Parte do tempo era dedicada a uma formação geral, de cunho humanista e bastante variada; parte aos saberes específicos da docência. Havia, ainda, uma vez por semana, o estágio previsto na grade horária e as recorrentes atividades extracurriculares que os integravam à cidade e ao espaço público. Essa convivência intensa criava fortes laços afetivos que, por sua vez, resultavam na formação de grupos de estudos, de afinidades políticas ou artísticas. Para viabilizar essa dedicação intensiva à formação, os alunos tinham direito a uma bolsa de estudos no valor de um salário mínimo. Essa medida abriu os Cefam a uma série de jovens que de outra forma jamais poderiam ter se dedicado integralmente aos seus estudos. E os transformou num dos poucos espaços de convivência plural em termos sociais e econômicos.

Ainda hoje, na universidade, em eventos, cursos e palestras para professores da rede pública, encontro-me com egressos do Cefam. São professores do ensino fundamental, pesquisadores de universidades, líderes de movimentos sociais. Em geral pessoas que têm orgulho dessa experiência. Em tempos de formação virtual de professores, pautada pelos ideais de desenvolvimento de ‘competências e habilidades’ com as novas linguagens, não custa relembrar o que pode soar como um velho truísmo. Formar um professor é mais do que disseminar competências técnicas e habilidades profissionais. É criar a possibilidade de uma experiência formativa em termos culturais, políticos e afetivos. É dela que exaurimos o alimento para continuar lutando para formar as novas gerações.

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