Opção viável

Conheça diferentes perfis de cursinhos comunitários

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Militância educacional
Com um perfil mais engajado, a Rede Emancipa se apresenta como um movimento social de cursinhos pré-universitários populares que luta pelo direito à universidade para todos. Fundada em 2007, em São Paulo, a rede já conta com doze unidades no estado de São Paulo e outras em Porto Alegre (RS), Belém (PA) e no Distrito Federal.  Bianca Boggiani Cruz, coordenadora do cursinho, conta que a Emancipa começou funcionando no salão de uma igreja; hoje são oferecidas 1,3 mil vagas e uma equipe de 150 professores. “Sempre tivemos a idéia de expandir nossa atuação para áreas de periferia”, comenta Bianca. Os cursinhos não cobram mensalidade e funcionam com professores e coordenadores voluntários. Em São Paulo, a maior parte dos professores é formada por estudantes da Universidade de São Paulo (USP), envolvidos com o movimento estudantil e com o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A coordenadora ressalta, no entanto, que a rede é independente do partido, mas tem um caráter militante. “Procuramos fazer com que os alunos tenham consciência de sua situação de exclusão”, explica. As atividades oferecidas pelo cursinho não se restringem apenas à sala de aula. Com o objetivo de expandir o universo cultural dos alunos, a Emancipa organiza também estudos do meio, além de exibições e debates de filmes.


Existem também os cursinhos que se formaram a partir de questões raciais. É o caso da Uneafro – União de Núcleos de Educação Popular para Negros e Classe Trabalhadora, instituição ligada ao movimento negro. A Uneafro se organiza em núcleos que atuam em diversas áreas, como educação, cultura e esporte, e os cursinhos pré-vestibular formam um desses núcleos.  Seu objetivo é atender jovens que se estudaram em escolas públicas, prioritariamente os negros, e lutar por igualdade educacional por meio de ações afirmativas. Assim como a Rede Emancipa, em razão de seu caráter politizado, a Uneafro expande suas ações para além da sala de aula. Desde 2009, são promovidas aulas públicas em locais com um sentido histórico sobre temas ligados à condição do negro no Brasil.


Iniciativas acadêmicas

Cursinho do XI
Fundado no “boom” dos cursinhos populares, em 1995, pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, o Cursinho do XI é hoje mantido pela Associação Pró-Cultura Cidadã. Ao contrário da Rede Emancipa, os professores são contratados e os alunos pagam entre R$ 122 e R$ 177, um preço abaixo da média do mercado, que ajuda o estabelecimento a se manter e a pagar seus funcionários. São oferecidas 200 vagas, e para aqueles que não têm condição de pagar pelo curso, há a possibilidade fazer uma prova para conseguir uma bolsa de estudos.

Além do curso de preparação para o vestibular, o Cursinho do XI oferece 20 vagas para um curso direcionado aos alunos de ensino fundamental que buscam uma vaga nas escolas técnicas de ensino médio, e 30 vagas para um curso com foco em concursos públicos.  A coordenadora do cursinho, Augusta Aparecida Barbosa, ressalta que o foco da maioria dos alunos é a universidade pública, “mas um bom número também procura as particulares pelo ProUni”, completa. Ela afirma que mais de 50% dos alunos conseguem entrar em algum curso superior, sendo 40% em universidades públicas.

Apesar de o objetivo ser o mesmo, o perfil dos alunos é amplo. Estudantes que já completaram o ensino médio e estão há muitos anos sem estudar também voltam para as salas de aula junto com os adolescentes. “É bonito ver a integração dos alunos. A convivência dos mais velhos com os mais novos provoca certa renovação”, conta Augusta. A coordenadora lamenta, no entanto, que pelo menos 30% dos estudantes desistem ao longo do ano, na maioria dos casos por questões financeiras. “Muitas vezes o dinheiro gasto com o transporte chega a ser maior do que eles pagam de mensalidade”, ressalta.


Cursinho da UFSCar
No interior do estado de São Paulo, em Sorocaba, os alunos da UFSCar também se organizaram para criar um curso que oferecesse educação e cidadania, além da preparação para o vestibular. Fundado em 2009, o cursinho tem 90 vagas, mas, segundo o coordenador Rodrigo Belaz Grando, a procura tem sido normalmente na faixa de 350 interessados. “Nosso sonho é poder receber todos, mas o programa funciona sem a cobrança de mensalidade e com apenas 25 professores voluntários”, aponta. Para selecionar os candidatos, o cursinho usa o critério de renda. Grando lembra que o cursinho recebe também pessoas mais velhas que querem apenas voltar a estudar. “A formação geral é o principal”, afirma.


Pré-vestibular Anchieta
A mais recente iniciativa de criar um cursinho pré-vestibular comunitário vinculado a uma universidade aconteceu em 2011, no Rio de Janeiro. O pré-vestibular Anchieta, fundado pelo Centro de Pastoral Anchieta da PUC- Rio, nasceu com o objetivo de atender os funcionários da faculdade que pretendiam voltar a estudar. Com apenas 80 vagas no total (40 para o curso durante a semana e 40 para o curso aos sábados), a coordenação também optou por usar o critério de renda para o processo de seleção. A coordenadora do projeto, Malena Quintanilha, explica que a princípio o cursinho era apenas para os funcionários da instituição, mas devido à evasão de alunos no meio do ano, foram abertas vagas para pessoas não vinculadas à PUC.

Os professores do cursinho são os próprios alunos da faculdade. São eles quem preparam o material didático e os planos de aula. Apesar de o trabalho ser voluntário (valendo apenas como atividade complementar para os alunos da faculdade), os estudantes pagam por mês o valor simbólico de R$ 15. “Consideramos isso importante, pois cria um compromisso entre os alunos e o curso”, aponta Malena. A coordenadora lembra também que o foco não é apenas o vestibular da PUC e que ser aluno do cursinho não é garantia de conseguir uma bolsa de estudos na universidade. “Para os funcionários da PUC nós já oferecemos a bolsa, mas se o aluno não trabalha na faculdade, terá que entrar com o pedido regular de concessão de bolsa”, explica. Além das aulas, o cursinho Anchieta também oferece alimentação para os alunos.

Opção viável

Criados na década de 1990, cursinhos pré-vestibular de caráter comunitário apontam um caminho para os jovens que não podem pagar por um reforço para chegar à universidade

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Gustavo Morita

Sala lotada, apostilas e cadernos em cima das carteiras; o professor frente à lousa, microfone em mãos, pronto para começar a aula show. Entre uma explicação e outra, histórias e piadas são um artifício para prender a atenção dos alunos e acalmar os ânimos daqueles mais tensos com a chegada do vestibular. A cena descrita já é conhecida pelos jovens de classe média e alta que buscam nos cursinhos tradicionais reforço para conseguir uma vaga na universidade. O que muitos não sabem é que os cursinhos pré-vestibular não são exclusividade daqueles que podem pagar uma mensalidade que, muitas vezes, chega a passar de R$ 1.000.


Entre o final da década de 1990 e meados dos anos 2000, houve um aumento expressivo dos chamados cursinhos populares, que existem até hoje como uma alternativa para os estudantes sem condições de pagar um cursinho tradicional. Segundo Cloves Alexandre de Castro, doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor da tese “Cursinhos alternativos e populares: movimentos territoriais de luta pelo acesso ao ensino público superior no Brasil”, o fenômeno se justificava pela ausência de um debate forte sobre a democratização do acesso ao ensino superior. “A partir de 2005, ano de criação do ProUni, podemos falar em certa acomodação. Apesar de algumas políticas terem trazido facilidades de entrada na universidade, os cursinhos populares não deixaram de crescer”, afirma.


Segundo dados do Censo da Educação Superior de 2010, o número de matrículas nos cursos de graduação passou de 3 milhões, em 2001, para 6,38 milhões em 2010. Como apontou Cloves, um dos motivos para o aumento foi a criação de políticas como o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e o Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, a democratização do acesso à educação básica estimulou a busca pela universidade. “Há 20 anos, era requisito ter o ensino médio; hoje, é a faculdade”, comenta.


A chegada das classes C e D ao ensino superior fortalece a necessidade e importância dos cursinhos populares. Gratuitos ou com mensalidades abaixo da média do mercado, professores voluntários ou remunerados, com material didático próprio ou terceirizado, os cursinhos apresentam características diferentes, mas encontram um ponto em comum em seu objetivo. Conscientes da condição desigual em que se dará a competição pelas vagas, as entidades buscam extrapolar o mero preparo para as provas de seleção e apostam na educação para a cidadania, visando à inclusão dos mais pobres no sistema educacional.  Na maioria dos casos, a origem dos cursinhos populares se dá em dois grupos: uns tem suas raízes na militância política, outros, nasceram vinculados a universidades.


Conheça experiências de cursinhos populares com diferentes perfis.

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