ONU estudantil

Simulações de assembléias em estilo similar ao das Nações Unidas permitem que alunos do ensino médio tenham nova dimensão do jogo político entre as nações

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O aprendizado da política: estudantes participam de simulação de assembléia internacional promovida pela Faap

"Senhores delegados, membros da mesa diretora, a República Popular da China gostaria de expressar sua opinião em relação aos direitos humanos. Não é justo que países com culturas, valores e hábitos diferentes sigam as mesmas normas. Defendemos a flexi-bilização das legislações internacionais de direitos humanos. Acreditamos que, se essa medida for tomada, daremos um grande passo rumo a um mundo mais justo, objetivo que seguramente é a meta final de todos os aqui presentes. Conclamamos todos a trabalhar nesse sentido no dia de hoje."

A fala do representante da China provocou reações duras. O delegado da Itália foi o primeiro a se manifestar: "A República Italiana gostaria de evidenciar seu total repúdio à proposta apresentada pelos delegados da China e ratificar sua posição de que, independentemente do lugar de nascimento, o ser humano possui as mesmas limitações físicas e é necessário que esteja submetido a direitos igualitários".

O Irã pediu a palavra para apoiar a China: "A carta dos direitos humanos da ONU ignora tão veementemente as culturas que os países árabes viram-se obrigados a criar a Declaração dos Direitos Humanos Muçulmanos". Ante a polêmica, o representante do Human Rights Watch manifestou-se com firmeza: "Flexibilizar a declaração dos direitos humanos, além de estar fora do escopo deste conselho, que visa corrigir os problemas que existem nas missões de paz, equivale a legalizar o homicídio para reduzir os índices de criminalidade".

O embate entre as idéias de soberania nacional e direitos universais acima reproduzido não teve lugar na ONU ou em qualquer organismo internacional.  Aconteceu em 2006, no Colégio Bandeirantes, de São Paulo. Os representantes dos países eram alunos do 1º ano do ensino médio, que simularam – com direito a pompa similar à do evento que copiavam – uma reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas.

A simulação é parte do projeto Modelo das Nações Unidas para Ensino Médio (Monu-EM), um dos muitos modelos (conhecidos pela sigla MUN – Model United Nations) realizados por instituições de ensino no Brasil. São ações em que estudantes universitários ou do ensino médio vivem situações de negociação diplomática típicas dos mais importantes organismos internacionais. Um número cada vez maior deles mostra interesse em participar de eventos do gênero. "Se você tem algum interesse pela área de humanidades, não há como não gostar", diz Guilherme Pastore, aluno do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, que participou do Monu-EM em sua escola e de várias simulações intercolegiais.


Os muitos modelos

Muitos participantes têm interesse na carreira de relações internacionais (RI), que tinha apenas dois cursos universitários no Brasil até 1995. Hoje,  conta com mais de 80. Algumas das simulações mais importantes são organizadas por estudantes do curso de RI. É o caso do Modelo Intercolegial da Organização das Nações Unidas (conhecido como Mini-ONU), iniciativa da PUC de Belo Horizonte, da Simulação para Ensino Médio (SiEM), da PUC-SP e do paulistano Fórum Faap de Discussão Estudantil.

O foco dos encontros não é apenas preparar futuros profissionais de RI. Seus benefícios pedagógicos são variados. "Aprende-se muita coisa que matéria nenhuma na escola vai ensinar", diz Guilherme. "São habilidades que, independentemente da carreira que a pessoa siga, usará a vida toda." É o que pensa também Anna Aranha, aluna da Escola Nossa Senhora das Graças (Gracinha), de São Paulo: "Você conhece a si mesmo nesses fóruns".


Sujeito do aprendizado

Uma vez inscrito num fórum, o participante recebe dos organizadores a incumbência de defender a posição de um determinado país em um comitê de discussão. Seu ponto de partida é um guia de estudos preparado pela organização, que indica boas fontes de informação sobre a nação e o tema. O de chegada é o que ele conseguir aprender, com seus próprios meios e a orientação de professores. "Conhecimento não se passa: você passa informação", explica a professora Cinilia Tadeu Gisondi, coordenadora do Programa Cidadania do Bandeirantes, responsável por projetos como o Monu-EM. "Quem processa o conhecimento é quem recebe. O jovem precisa ser convidado a ser co-responsável pelo seu conhecimento", defende.


Júlia Tami (à direita), ao lado dos colegas Anna Aranha e Danilo Godoy: "O que mais conta é impor suas idéias, fazer acordos, saber ouvir"

O resultado da participação dos estudantes em simulações é a mudança na maneira como eles entendem a sociedade. Caem por terra, por exemplo, as ilusões quanto a soluções fáceis para os problemas globais. Forçados a enxergar uma questão sob perspectivas diferentes – as dos vários países representados nos comitês – logo descobrem que há mais em jogo do que decidir entre o certo e o errado. "De todo jeito, há perdas. É preciso escolher qual perda você vai ter", analisa Guilherme.

Os comitês encerram seus trabalhos redigindo resoluções, documentos que indicam iniciativas a serem tomadas pelos países participantes. Para isso é preciso passar por uma longa negociação, em que ora é necessário convencer, ora ceder. "Eles aprendem o que é política de verdade", aponta Regina Mara da Fonseca, professora responsável pelo Monu-EM no Bandeirantes.


Perdendo a timidez

Os alunos chegam a entabular argumentos por até dez horas, em algumas circunstâncias. Para Júlia Tami, estudante da Escola Nossa Senhora das Graças, de São Paulo, que já participou do Mini-ONU e do Fórum Faap, o que torna os modelos interessantes, mais do que o estudo dos temas, é a dinâmica de funcionamento. "Conteúdo é o mínimo. O que mais conta é conseguir impor suas idéias, fazer acordos, saber ouvir." Danilo Godoy, da mesma escola, acrescenta: "Se você vai a uma simulação e não abre a boca, não vai curtir nada. Você tem de se meter no meio da discussão".

A capacidade de pedir a palavra e manifestar seu pensamento em público é uma das habilidades que os modelos ajudam a desenvolver. Muitas discussões caem no vazio e não levam a lugar nenhum. Mas, de modo geral, as resoluções redigidas pelos comitês são de bom nível, fruto de reflexão conjunta sobre o problema tratado.

O fato de a dinâmica ser o principal aspecto dos encontros não quer dizer, no entanto, que não haja assimilação de conteúdos. Alguns modelos, como o SiEM, organizam comitês históricos, em que os alunos discutem questões importantes de outras épocas. Num deles, Guilherme se deslocou no tempo para a Conferência de Munique, em 1938, no papel de delegado da Alemanha nazista. "Por causa disso, jamais terei dificuldade no estudo da Segunda Guerra Mundial", diz. Já Danilo passou a compreender melhor algumas particularidades da África por ter representado o Reino da Itália na Conferência de Berlim, que discutia a partilha do continente entre as potências européias no século 19.


Função social

Além dos alunos que participam dos comitês como delegados dos países, há os que ficam como observadores, relatando o que acontece: são os repórteres. Fazem a cobertura dos eventos, produzindo jornais diários com o resumo dos debates. Anna Aranha e Júlia Tami primeiro participaram como delegadas e hoje reportam as simulações. Para o I Modelo Interno de Simulação do Gracinha (MISG), no ano passado, criaram e produziram o jornal Contexto, distribuído entre os participantes e fixado no mural da escola.

O MISG é voltado apenas aos alunos da escola organizadora. Foi criado e organizado pelos estudantes do ensino médio. Já o Monu-EM e o Icons (International Communication Negociation Simulations), projetos internos do Bandeirantes, foram implantados a partir de iniciativa dos professores.
 
As simulações não são novidade. Existem desde que surgiu o primeiro curso superior de relações internacionais, na Universidade de Gales, em 1919. A Universidade de Maryland, nos EUA, idealizadora do Icons, organiza modelos desde a década de 60. A professora Cinilia Gisondi acredita que a introdução do Icons em 1995 no Bandeirantes foi a primeira experiência brasileira com esse tipo de projeto.


Cinilia Gisondi, do Bandeirantes: "É preciso dar espaço para que o aluno experimente ações"

Participam do Icons todos os alunos de humanas do 2º ano do ensino médio. Eles são preparados ao longo de um semestre, em encontros semanais, para representar o Brasil num comitê internacional online, com escolas do mundo todo, sendo obrigatório expressar-se na língua inglesa. Muitos deles experimentam antes o Monu-EM, opcional para os alunos do 1º ano. Esse modelo foi criado em 2001, em parceria com o curso de relações internacionais da PUC-SP, cujos alunos trabalham no Bandeirantes como monitores, preparando os estudantes para duas simulações anuais internas, uma em cada semestre. A cada seis meses, cerca de cem alunos candidatam-se às trinta e seis vagas disponíveis no projeto.

Nos fóruns intercolegiais, a situação não é diferente: há mais interessados do que vagas para abrigá-los nos comitês, apesar de as inscrições não custarem menos de R$ 100 por pessoa. Cinilia crê que os modelos fazem sucesso porque permitem ao aluno usar os talentos que tem e desenvolver os que não tem. "É preciso dar espaço para que o adolescente experimente. Senão, ele não sabe como interferir. Queremos que o estudante saia da escola consciente do seu papel na sociedade."

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