Onde há fumaça, nem sempre há fogo

Benefícios e malefícios das palestras, segundo o ponto de vista do ouvinte

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Os
males do tabaco

(*), monólogo dramático em um ato, de autoria do escritor russo Anton Tchékhov (1860-1904), lembra humoristicamente o que ocorre em muitas palestras ministradas no âmbito educacional. O personagem, Márkel Iványtch Niúkhin, vai falar sobre os malefícios do fumo, embora ele próprio seja fumante. Quem escolheu o tema foi sua esposa, dona de um pensionato para moças, no qual o improvisado palestrante trabalha, realizando mil e uma tarefas.

O conferencista está inseguro, o tema não lhe cai bem. As anotações que consulta revelam falta de espontaneidade. Pressionado pelas circunstâncias, precisa afirmar que possui grande interesse pela ciência. Fosse qual fosse o tema, recorreria ao mesmo discurso estereotipado:


Como tema de minha conferência




de hoje escolhi o mal que acarreta




ao ser humano o uso do tabaco.




É difícil, naturalmente, esgotar




toda a importância do assunto




numa conferência, mas tentarei




ser sucinto e tratar apenas do




essencial… Como inimigo da




popularização serei rigorosamente




científico e proponho aos




senhores ouvintes que percebam




toda a importância do assunto




e que encarem minha presente




conferência com a devida




seriedade… Mas se alguém for




dado a futilidades, se a aridez do




discurso estritamente científico




assustar a alguém, então deve não




escutar e retirar-se!

Nenhuma palestra pode esgotar assunto algum. É redundante afirmá-lo. E perda de tempo. Ou uma forma de o palestrante ganhar preciosos minutos, e alegar depois que o tempo foi insuficiente para abordar a questão com a devida profundidade.

O gênero palestra tem suas peculiaridades. Uma delas é justamente a de apresentar um tema sem a pretensão de dizer tudo em tempo limitado. A brevidade é necessária. Mas que o essencial seja tratado de modo que os ouvintes não se sintam defraudados ou frustrados. Que saiam da palestra com uma ou duas boas ideias para posterior reflexão.

O palestrante que subestima o público ou que lhe faz ameças veladas manifesta uma vez mais sua insegurança. Se alguém se predispôs a assistir a uma palestra, tem condições de aproveitá-la em alguma medida. Vale aqui um princípio básico da comunicação – cada um capta o máximo que pode. Ou, recorrendo a um antigo adágio, muito usado pelos escolásticos:
quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur

, isto é: "o que é recebido, é recebido segundo o modo de ser de quem recebe".

O palestrante deve estar ciente de que suas palavras serão interpretadas, ampliadas, reduzidas, e por vezes deturpadas, mas nada disso o autoriza a desfazer daqueles que estão ali, dispostos a ouvi-lo.


Digressões e divagações



Uma palestra corre o risco de nos levar às profundezas… do tédio. Palestrantes que leem seus textos em lugar de falar com vibração e empatia, olhando o público, dialogando com ele; palestrantes que repetem o repetitório, o óbvio, com ares de quem trouxe a última notícia; ou aqueles que se apoiam na "powerpointização" do discurso, outra forma de esconder-se… palestrantes que não palestram (não conversam, afinal, pois é isso que significa "palestrar") fazem com que muitos tremam ao saber que há palestras no horizonte.

Na peça de Tchékhov, o personagem prometeu apresentar os grandes males do tabaco. Começou a fazê-lo, acrescentando, porém, que pode ser empregado pela medicina em alguns casos. Haveria então benefícios a serem explorados. Nesse momento, estando a palestra a ponto de "decolar", o conferencista entra em crise, perde o rumo, começa a divagar:


Já faz muito tempo… venho




sofrendo crises de sufocação…




asmática… Esta doença começou a




me atacar no dia treze de setembro




de mil oitocentos e sessenta e




nove… no mesmo dia em que




nasceu a sexta filha da minha




senhora… a Veronika. Ao todo




são exatamente nove as filhas da




minha esposa… é que filho não




há nenhum – do que, aliás, minha




senhora muito se alegra, já que




filhos homens num pensionato




de moças seriam, sob muitos




aspectos, um estorvo…

É natural que numa palestra surjam, como condimento usado com sabedoria, elementos da vida pessoal do palestrante. Tornam o evento menos frio, menos protocolar. Palestrantes que falam sobre temas educacionais devem ilustrar suas considerações com relatos baseados em sua experiência de educadores e pesquisadores. O público agradece.

Algo bem diferente é transformar a palestra numa confidência pública. O que tem a ver a asma do cidadão com os malefícios do tabaco? O que o fato de ter nove filhas ajuda a compreender os efeitos da nicotina no organismo humano?

Digressões são úteis quando distraem… para atrair a atenção. Trata-se de uma técnica de oratória simples. O palestrante abandona o tema momentaneamente, deixa-se levar por uma questão paralela. Paradoxalmente, diante desse respiro, todos recuperam a concentração. O personagem de Tchékhov, no entanto, já não sabe o que fazer, e perde o controle:


Esqueci de lhes dizer que no




pensionato de minha senhora,




além da administração, cabe-me




também lecionar matemática,




física, química, geografia, história




e didática. Além dessas matérias,




são ensinadas no pensionato da




minha senhora as línguas francesa,




alemã e inglesa, a religião,




trabalhos manuais, desenho,




música, dança e boas maneiras.




Como os senhores podem ver, o




curso é mais que ginasial. E que




comida! E que conforto!

Vai ainda mais longe. Esquecendo-se do tabaco, fica emocionado e aflito, ao pensar que suas filhas ainda estão solteiras. E ao revelar esta sua apreensão, comunica aos presentes que as moças podem ser vistas nas festas de uma certa Natália Zavertiúknaia.

No final, comete um último erro. Depois de desperdiçar o tempo e fugir ao essencial, interrompe bruscamente a palestra:


[…] em virtude da escassez do




tempo não vamos nos afastar do




tema. Tinha parado no tétano.




Em sendo assim (consulta o




relógio), até uma próxima




oportunidade. (Arruma o colete e




sai majestosamente.)

Cai o pano. Não se sabe se houve aplausos. Talvez sim. Aplausos de alívio porque tudo terminou. Pelo menos até uma próxima sessão de perda de tempo…

(*) Em: TCHÉKHOV, Anton.
Os males do tabaco e outras peças em um ato

. Trad. Aurora Fornoni Bernardini. Cotia (SP): Ateliê Editorial, 2003.

*
Gabriel Perissé

(
www.perisse.com.br

)
é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)

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