Poesia: Olhares de Drummond

Inquietações presentes na obra do poeta mineiro nos aproximam, sem certezas antecipadoras, de questões como morte, desejo e amor

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A literatura vista como fonte de descobertas existenciais nos autoriza a falar em “leituras educadoras”. Educadoras, não porque tenhamos diante dos olhos um manual de virtudes e boa conduta, ou um guia que nos ajude a ser bem-sucedidos na vida. Um poeta, um romancista, um contista, um dramaturgo nos educam na medida em que nos fazem ver. São educadores que não ministram aulas, não aplicam provas, não distribuem notas, não reprovam.

O escritor nos educa sem se preo­cupar com resultados pedagógicos. O resultado que ele procurava era, fundamentalmente, escrever o texto. Tendo atingido esse objetivo, nada mais poderá fazer. Ainda que deseje, não poderá prever ou alterar as conseqüências de nossa leitura. O texto não lhe pertence, no sentido de que será livremente interpretado por outras pessoas. O leitor assume o papel de co-autor. Vencendo passividades e inércias, o leitor torna-se pleno autor de sua leitura. E por isso, e só assim, pode aprender.

A leitura que aprende é leitura criativa, não meramente receptiva. É leitura que produz visão de mundo, conhecimento e crescimento pessoal. A propósito, lembro um genial trocadilho do poeta francês Paul Claudel. Dizia ele que conhecimento não é apenas “connaissance”, mas “co-naissance”, ou seja, co-nascimento, um nascer com aquilo que conhecemos. Ao conhecer, renascemos, desenvolvemos nossas possibilidades, ampliamos nossa percepção da realidade; ao ler, promovemos nossa auto-educação.

Lições drummondianas
Feitas essas considerações, soa menos chocante admitir que a poesia de Carlos Drummond de Andrade seja fonte de aprendizado. Aprendemos quando vemos melhor, quando lemos melhor o mundo, para retomar a conhecida expressão de Paulo Freire. A palavra enseñar, em espanhol, além de “ensinar”, significa “mostrar”. Os versos de Drummond são educadores porque nos ensinam a ver melhor, o que, muitas vezes, supõe mostrar o reverso do que estamos habituados a enxergar. Por exemplo, Drummond nos ensina que a nudez esconde mais do que revela:

O corpo em si, mistério: o nu, cortina
de outro corpo, jamais apreendido
(“Mineração do Outro”, em: Lição de coisas)
Desse mesmo livro, Lição de coisas, publicado em 1962, é este verso sobre a morte:

a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
(“Amar-Amaro”, em: Lição de coisas)

Os estranhos adjetivos quebram nossa rotina, fazem pensar. Querem relativizar as respostas prontas sobre o inevitável. A morte é inconsolável, esperávamos ler. Mas o poeta surpreende, e, por isso, reeduca nosso ouvido. A morte “esconsolável”, adjetivo inventado, em que o poeta mistura o esconso (o escondido, o oculto) ao consolável. Os três adjetivos apresentados sem vírgulas que os separem: “esconsolável” somando-se ao “consolatrix” (referência religiosa à Virgem Maria, consolatrix afflictorum, consoladora dos aflitos) e ao “consoadíssima”, outro neologismo, adjetivo superlativo indicando na morte uma realidade consoante, harmoniosa. Tudo isso para enfatizar, como está no último verso de “Amar-Amaro”, que o amor, este sim, é inconsolável: o amor “não consola nunca de núncaras”.

Morte e nudez encontram-se num mesmo poema, “Os Mortos”, do mesmo Lição de coisas:

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior.

Se a nudez dos vivos é ainda uma cortina, como Drummond nos dizia antes, a nudez dos mortos, sendo maior, apresenta-nos a morte como consolo verdadeiro, porque nos faz encontrar nosso corpo oculto, nossa oculta verdade, enfim revelada. A morte nos libertará dos moralismos. Olharemos para a nudez dos outros sem reprová-la ou ridicularizá-la. E, agora vivos, teremos a chance de vencer o falso pudor, ao menos perante a presença dos mortos.


As coisas nos ensinam
Aliás, o título deste livro de Drummond, Lição de coisas, tem uma ligação direta com a questão educacional. Refere-se a uma forma de aprender baseada na atenta observação da realidade, em diálogo com o real. Mais concretamente, designava um método de ensino intuitivo, muito praticado nas escolas dos Estados Unidos no século 19. A lesson of things foi introduzida na França por volta de 1880 e de lá chegou ao Brasil. O menino Drummond, no início do século passado, estudou em manuais inspirados por essa técnica didática, cuja proposta era induzir o aluno recém-alfabetizado a partir de um objeto ou de um fato, a observar-lhes os aspectos externos, as características, as possíveis alterações, e, idealmente, alcançar leis e princípios gerais.

Na prática, o método, em que se nota o empenho de formar estudantes com espírito científico, mostrava-se reducionista. Vencia o instrucionismo, pois a explicação definitiva cabia exclusivamente ao professor, prevenindo ou substituindo os vôos da imaginação infantil.

Poeticamente, Drummond recupera o prazer da observação livre, da investigação pessoal diante das coisas, permitindo que elas se descortinem aos nossos olhos sem pré… conceitos. Poesia e leitura de poesia, portanto, como uma espécie de approach, ou seja, de uma aproximação à realidade sem certezas antecipadoras. O poeta nos ensina a olhar para as coisas como se fosse pela primeira vez, a fim de apreender como são, como se constituem, como “funciona” a morte, o que a nudez esconde, o que é o amor.


Inquietas perguntas

Faz parte dessa busca o ato de perguntar. “Quem não pergunta não quer saber”, dizia Pe. Antônio Vieira, “e quem não quer saber quer errar”. A pergunta é recorrente e obsessiva na poesia drummondiana. Perguntas inquietas, aflitas, insatisfeitas, sem respostas, como a querer penetrar cada vez mais fundo no mistério sem fundo.

E essa é outra importante lição de Drummond. A pergunta, não como instrumento da sabatina, do exame, a esperar respostas fechadas, decoradas e automáticas. A curiosidade da pergunta insistente não se contenta com lugares-comuns ou receitas.

Por isso, quando, num poema intitulado “Perguntas” (do livro Claro enigma, de 1951), o poeta interroga um fantasma (um morto), suas inda­gações parecem tão inúteis. E aos mistérios da vida outro “mistério mais alto” lhe é somado. O fantasma, afastando-se rumo à eternidade, responde: “Amar, depois de perder”. Resposta que pouco ou nada explica, mas justamente por ser tão sintética e hermética, embora simples, oferece ao leitor a chance de procurar por conta própria, de interrogar seus próprios fantasmas, de pensar por conta própria (pleonasmo absurdo, afinal de contas, porque só se pode pensar por conta própria, e não por conta alheia…).

Em Claro enigma há outro poe­ma de perguntas inquietas, sem respostas que aplaquem a fome de saber – “Perguntas em forma de cavalo-marinho”. São dez perguntas em 16 versos. Na quarta estrofe, talvez as mais importantes que alguém possa se fazer, ou fazer diante dos espaços infinitos:

A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?

Drummond não sabe as respostas, descartando como insuficientes as que porventura recebeu ao longo da vida. E com essa atitude de curiosidade contínua, como criança a perguntar sobre tudo ao mesmo tempo, o poeta põe em xeque nossas certezas acomodadas. Sabemos (a primeira pessoa do plural não é imotivada) a que aspiramos? Sabemos, como outros versos do mesmo poema, se estamos realmente vivos?


Para além das coisas

Em Boitempo, longa meditação poética (publicada em três volumes, entre 1968 e 1979) sobre o seu passado, Drummond relembra sua vida de estudante. No poema “Hortênsia”, transcende as aulas de botânica:

A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.

O adolescente confunde (deliberadamente) o nome da flor com o nome da moça que ele deseja à distância, e que tem namorado. O namorado conta aos colegas suas incursões ao “jardim trancado” de Hortênsia. A palavra “saxifragácea” assume conotações eróticas. O antepositivo sax-, que remete a saxum, “pedra”, soa diferente aos ouvidos do jovem, que quer aprender outras coisas, sobre outras flores. E confessa o inconfessável:

O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância

.

É claro que a palavra “sexifragrância” não existe. Não tem o prestígio da palavra científica. É, na verdade, transbordamento do desejo que o adolescente não sabe exprimir, do aprendizado que acontece para além dos muros da escola. A palavra inventada denuncia que o currículo oficial está aquém dos seus interesses mais urgentes e pungentes.

Só em versos, já maduro, pode o poeta nos confirmar o que também nós, secretamente, sentimos, percebemos e sabemos.

 

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