Observar a escola

A antropologia inaugurou uma nova forma de perceber a escola, a educação e os sujeitos envolvidos, defende a doutora em Antropologia Social Sandra Pereira Tosta

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© Ronaldo Pereira Guimarães
Sandra Tosta: a escola não se explica por ela mesma

A aproximação com a antropologia e, particularmente, com a etnografia, ampliou o entendimento dos pesquisadores de que a educação consiste em um fenômeno que extrapola o espaço reservado da escola e de que ela deve ser observada de dentro e a partir das relações que a constituem no cotidiano. Esse é o ponto de vista de Sandra Pereira Tosta, professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e coorganizadora do recém-publicado Diálogos sem fronteira: história, etnografia e educação em culturas ibero-americanas (Autêntica).

No livro, pesquisadores brasileiros se unem a colegas argentinos, mexicanos e portugueses numa discussão sobre as interfaces entre as duas áreas do conhecimento, apontando as possibilidades e os limites de uma relação que, na América Latina, remonta à década de 1970, quando foi criado o Departamento de Investigações Educacionais (DIE) do Instituto Politécnico Nacional do México. Os pesquisadores dessa instituição foram pioneiros ao apontar a necessidade de estudar a relação da escola com seu entorno, e não apenas seus aspectos quantitativos, como era a prática da época. Segundo Sandra, esse olhar inaugurou uma proposta teórico-metodológica, baseada no diálogo entre educação e antropologia e calcada no cotidiano, que repercutiu em toda a América Latina, incluindo o Brasil.

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Como surgiu a ideia do livro e qual é seu pano de fundo?
Venho tentando compreender a relação entre antropologia e educação desde os anos 2000, quando eu, já doutora em Antropologia Social, me integrei ao programa de Mestrado em Educação da PUC-Minas. A discussão que levei e com a qual continuo no programa, em termos gerais, é sobre educação e culturas. A partir desta grande temática, desenvolvi, em parceria com os pesquisadores do Grupo de Estudos em Educação e Cultura (Educ), uma série de investigações que, aliadas às dissertações e às teses, tem propiciado uma incursão bastante profícua, trazendo avanços para a compreensão da temática. Essa série de investigações começou em 2005, quando busquei entender o uso da etnografia nas pesquisas de cunho educacional. A primeira conclusão a que cheguei é que, na pesquisa educacional, a maior parte dos trabalhos faz uma ””entrada”” na etnografia e não na antropologia, não no campo epistemológico que gera a etnografia. As pesquisas tomam a etnografia de uma maneira bastante limitada enquanto método de pesquisa, quando, na verdade, a etnografia não é um conjunto de técnicas de pesquisa qualitativa; ela nasce na própria construção epistemológica da antropologia e, enquanto tal, ela é profundamente uma reflexão teórica sobre a produção do conhecimento.

Foi a partir daí que você começou a compreender de forma mais sistemática a presença da etnografia na pesquisa educacional.
Exato. Também percebi que sempre que se entra no campo da etnografia, há uma tentativa de dialogar com os pesquisadores argentinos e com o Departamento de Investigações Educacionais (DIE) do Instituto Politécnico Nacional do México. E a proposta central desse departamento, que tem uma influência muito grande no Brasil, é a realização de uma etnografia para pesquisar a escola na América Latina.

Aqui entra em questão não a pesquisa sobre educação, mas a pesquisa sobre a escola. Quais as implicações dessa ênfase sobre a escola?
A grande preocupação do DIE nos anos 1970, uma época profundamente marcada pelos movimentos sociais, pelas ditaduras e também pelas tentativas de transformação da escola por meio de projetos de renovação, é tentar responder àquilo que então predominava na pesquisa educacional: a pesquisa quantitativa e a pesquisa vinculada às teorias da reprodução. Em outras palavras, pesquisas que, na verdade, mostravam a escola apenas do ponto de vista estatístico ou do ponto de vista oficial. Para fazer frente a esse tipo de pesquisa que não mostra a escola tal como ela acontece, o DIE nos leva a repensar os modos como olhamos para a escola e a pesquisamos. Daí surge a proposta de uma etnografia para a escola na América Latina.

Essas pesquisas e esta perspectiva resultam, provavelmente, em outra maneira de perceber a escola, a educação e os sujeitos envolvidos nos projetos educacionais. O que a etnografia, enquanto olhar pautado pela perspectiva da antropologia, nos traz sobre a escola?
Há duas perspectivas extremamente valiosas para se pensar o diálogo da educação com a antropologia, e vice-versa. A primeira é este reconhecimento do próprio DIE na América Latina, especialmente no Brasil, na Argentina e também em Portugal, de buscar outro olhar para pesquisar a escola. Um olhar muito mais histórico, profundamente historicizado, e que vai tentar dialogar com a antropologia para formular uma proposta de etnografia para a escola. Isso por si só, em que pesem todos os senões que encontrei nos estudos analisados, revela a grande importância da antropologia para pensar a educação. A antropologia, com toda sua história e tradição, nos permite construir olhares muito diferenciados para se pensar os fenômenos da realidade. No caso da escola, é olhar para a escola a partir dos fenômenos em que a escola se realiza. Por que uma escola é única e não pode ser, simplesmente, a repetição de todas as outras? A segunda é a que nos propicia analisar e compreender os limites do que é a educação dialogando com a etnografia, sem fazer um mergulho profundo na discussão epistemológica da antropologia, a qual sustenta a etnografia.

É possível dizer então que essas pesquisas, por um lado, apresentam limitações, mas, por outro, nos levam a enxergar fenômenos e processos que passam despercebidos nas pesquisas quantitativas, altamente valorizadas na atualidade?
Sim, é uma produção que apresenta limites, mas ao mesmo tempo aporta um olhar alternativo a muitos estudos que contêm uma visão pessimista da educação e da escola.
Os limites são de ordem epistemológica e limitam a compreensão da etnografia, mas são pesquisas que avançaram e buscaram outros lugares para pesquisar a escola. A escola sai das estatísticas, dos indicadores sociais e busca-se uma escola a partir de suas relações com as políticas públicas, a partir daquilo que acontece na sala de aula, a partir das relações entre professor e aluno, dos projetos pedagógicos. Há claramente um avanço qualitativo das pesquisas que tentam dialogar com a etnografia.

É possível dimensionar o volume dessa produção no cenário da pesquisa educacional no Brasil na atualidade?
Na pesquisa “Etnografia para a América Latina: outro olhar sobre a escola no Brasil”, que foi um desdobramento de estudos realizados ao longo da década passada até 2012, conseguimos mapear cerca de 1,2 mil trabalhos entre teses e dissertações produzidas em programas de pós-graduação em educação reconhecidos pela Capes entre o final da década de 1990 e início da de 2000. É um volume significativo que reitera a adesão da educação à antropologia, em especial à etnografia.

De que maneira as pesquisas na área da educação, que utilizam a etnografia enquanto método, mostram uma nova visão da educação?
Quando você vai à escola e tem como premissa que a escola tem vida e que essa vida é marcada tanto pelas relações internas, quanto pelas relações com o exterior, o foco é ouvir as pessoas. Quando você escuta a família, alunos, professores, quando você ouve a gestão escolar, muitas das pesquisas mostram que a escola não é um fracasso apenas, como às vezes os discursos mais aligeirados costumam dizer. Ideias como a de que a escola não dá certo, de que a escola não faz sentido numa sociedade em rede, várias dessas pesquisas mostram que existem projetos que dão certo e afirmam a possibilidade da escola. Isso nos traz um ânimo muito grande. Daí a importância da etnografia como meio para produzir outro tipo de conhecimento, de que outros tipos de pesquisa não dão conta e nem têm essa intencionalidade. Quando entramos na escola, visitamos o entorno da escola, observamos o que acontece lá e o que acontece fora dela, assim como as relações de tudo isso com as políticas públicas. Por exemplo, encontramos escolas que dão certo, projetos disciplinares que dão certo, bons professores. Então, fico pensando que esse olhar para dentro da escola, que mostra como as escolas se fazem, exige, além de muita sensibilidade, muito conhecimento. Porque a escola não se explica por ela mesma.

Como a senhora vê a repercussão do conhecimento produzido a partir dessa perspectiva? Por que essa escola que dá certo não aparece mais? Por que prevalece o senso comum de que a escola é ruim, não serve para nada e vai acabar?
Existem várias razões possíveis para compreender este cenário. Uma delas é a mídia, os meios de comunicação não olham para a escola, e quando olham é em momentos tensos, quando há episódios de violência ou em momentos celebratórios. Observar a escola não é algo que a mídia faz. A segunda razão é que algumas políticas públicas são muito distantes da realidade da escola. Fico me perguntando: será que os formuladores de políticas públicas não leem as pesquisas? A terceira razão é que essas iniciativas bem-sucedidas na escola geralmente dependem de um coletivo de professores que está muito disposto e imbuído de um trabalho coletivo. São também professores que acreditam na educação, pois nem todos os que estão na escola acreditam na educação. Não quero dizer com isso que do jeito que as escolas estão, do jeito que os professores são formados e com os salários que recebem a escola poderia ser outra. Há um quadro conjuntural, de pelo menos 20, 30 anos de uma sistemática desvalorização dos profissionais da educação. Mas ainda assim existem iniciativas positivas.

 

Diálogos sem fronteira: história, etnografia e educação em culturas ibero-americanas, de Sandra Pereira Tosta e Gilmar Rocha (Autêntica, 232 págs., R$ 39)

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