Obscurantismos pedagógicos ltda.

Estabelecimentos ditos escolares se valem de práticas de doutrinação embutidas nos procedimentos pedagógicos usuais. Em suma, trapaça educativa mascarada de redenção espiritual

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Por Julio Groppa Aquino

Ela, professora de biologia; ele, de história. Ambos bem formados, ciosos de seus deveres e aclamados por seus alunos. Ele, seis anos de casa; ela, quatro. Ambos demitidos, em dezembro último, de uma famosa escola particular paulistana, signatária de uma autoproclamada “ciência espiritual”, cuja cartilha pedagógica revela-se, no mínimo, estapafúrdia.  

A alegação da dispensa: a ênfase “excessiva” nos conteúdos científicos e a dificuldade de privilegiarem noções explicativas do tipo “reencarnação”, “meia-noite cósmica” e “eu superior” em detrimento da abordagem curricular clássica. Ambos abatidos profissionalmente pelo obscurantismo praticado por alguns estabelecimentos ditos escolares, os quais se valem de práticas de doutrinação (e, conseqüentemente, de perseguição dos dissidentes) embutidas nos procedimentos pedagógicos usuais. Em suma, trapaça educativa mascarada de redenção espiritual.

A demissão dos dois professores eclode como mais um capítulo de uma tendência cultural abominável: o abandono paulatino da laicidade do ensino em favor da disseminação de crenças místicas ou religiosas. Imagens e enunciados bíblicos pelas paredes escolares, aconselhamentos ou orações fervorosas antes ou depois das aulas, um clamor de espiritualização por todo o canto. Eis alguns sinais de um movimento crescente de catequização (melhor seria dizer “seitalização”) do ensino, verificado em igual medida nos segmentos particular, confessional e estatal.

Que se reconheça aqui que a liberdade de credo é um direito pessoal intransferível. Daí que ninguém pode ser obrigado nem a crer, nem a não crer, do mesmo modo que ninguém pode ser impedido de exercer quaisquer das duas opções. No entanto, quando uma escola, ou um profissional isolado, se serve do trabalho pedagógico como estratégia de propagação de determinada crença,  está-se cometendo uma infração não apenas ética, mas legal, já que a educação brasileira, segundo as normas em vigor, é rigorosamente laica. Ademais, se professores não são vistos nos púlpitos, por que então pretensos “líderes espirituais” seriam necessários nas salas de aula?

O que está em risco em acontecimentos dessa natureza é a potência mesma do espaço escolar: essa casa dos homens, suas narrativas, suas conquistas, seu legado. Esse lócus civilizatório erigido contra a solidão e o esquecimento da raça. Esse abrigo construído pelos homens para os homens, contra a intransigência dos deuses e seus representantes terrenos – estes que, às vezes, galgam altos postos de comando educacional.

A demissão dos dois colegas é o amargo sintoma de um pesadelo recente da educação brasileira. Como reparar o dano moral do qual eles e todos nós somos alvo? Que escolas como a que os demitiu tenham suas portas lacradas para todo o sempre, amém.

Último desejo quimérico, agora de início de ano letivo.




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



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