O uso da etnografia na educação

Como a metodologia pode ajudar os professores a desvendar o cotidiano escolar

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A coletânea Etnografia e educação: culturas escolares, formação e sociabilidades infantis e juvenis, organizada pelos professores Tânia Dauster, Sandra Tosta e Gilmar Rocha, chega para subsidiar uma discussão sobre o que precisamos aprender para ensinar. O conjunto de textos insere-se dentro de uma tradição inaugurada pela antropologia, cujo marco é a publicação de Os argonautas do Pacífico ocidental, em 1922, por Bronisław Malinowski (1884-1942), que pressupõe que conhecer o outro, estar com o outro, é uma condição para a produção do conhecimento. Esse pressuposto se faz presente em todos os textos, seja naqueles assentados numa reflexão mais empírica, que trazem esclarecimentos interessantes sobre os procedimentos metodológicos, seja nos que se voltam para uma reflexão mais teórica sobre o fazer etnográfico e suas contribuições para o campo da educação.

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Penso que o livro contribui para o campo educacional principalmente por duas razões: por trazer uma postura afirmativa com relação ao uso da etnografia em educação – indo de encontro a uma perspectiva amplamente disseminada de que só é possível realizar em educação “estudos do tipo etnográfico” –, o que é demonstrado por meio das investigações realizadas cujos resultados são apresentados; por indicar a necessidade de desvendarmos a realidade escolar, desnaturalizando-a. Via de regra, por estarmos imersos no cotidiano da escola, acreditamos conhecer essa realidade profundamente. A etnografia nos convida a superar esses pressupostos, indo em busca do célebre exercício de transformar o familiar em exótico, e o exótico em algo familiar.

Ainda são raros no mercado editorial livros que articulem tão bem a apresentação dos pressupostos metodológicos com o processo de desenvolvimento da pesquisa e seus resultados. Etnografia e educação consegue cumprir essa finalidade, o que implica um convite para que professores e gestores se aventurem também a ser pesquisadores de sua própria realidade, que superem o famoso “abstracionismo pedagógico”, do qual falou Azanha, o que tem se colocado cada vez mais na agenda das políticas públicas em educação, especialmente no que concerne à formação inicial e continuada. Não se trata de um manual, mas de uma bússola para a melhor compreensão das possibilidades do uso da pesquisa etnográfica em educação.

*Amurabi Pereira de Oliveira, doutor em Sociologia e professor do Centro
de Educação da UFAL

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