O tigre-dente-de-sabre e a educação do futuro

Nos tempos da caça e da coleta, os jovens membros do bando precisavam aprender com os mais experientes as habilidades de sobrevivência em um …

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O TIGRE-DENTE-DE-SABRE E A EDUCAÇÃO DO FUTURO

Crédito: Shutterstock

Nos tempos da caça e da coleta, os jovens membros do bando precisavam aprender com os mais experientes as habilidades de sobrevivência em um ambiente hostil. Diante da ameaça de um aterrorizante tigre-de-dente-de-sabre, lições de análise sintática (serei objeto direto ou indireto?) ou de Física Clássica (quantos metros por segundo é necessário correr até a árvore mais próxima?) de nada serviriam ao novo caçador. Os melhores alunos aprendiam rapidamente a identificar os sinais de que, em determinada região, o gigantesco mamífero estava à espreita. Essa sim era uma aula de geografia com valor de vida ou morte.

A educação, para ser eficaz, precisa acompanhar as necessidades humanas que se transformam com o tempo. É bem verdade que nos primeiros milênios da história, as mudanças na hierarquia dessas necessidades foram lentas. Nietzsche comparava os tempos primordiais a um camelo, que geme, suporta, mas permanece parado. Em seguida, o autor de Genealogia da Moral completava seu pensamento dizendo que a modernidade veio com a ferocidade de um leão que é muito mais ágil e começa a dizer não à pobreza, à tirania, às catástrofes, à ignorância e à corrupção.

Se colocarmos a tortuosa e longa linha da história ao lado da “Pirâmide de Maslow”, entenderemos que as necessidades educacionais dos povos estão repentinamente se tornando sofisticadas. Para o melhor entendimento da hipótese que lanço, uso a hierarquia que o psicólogo humanista revisou antes de morrer e que possui 8 e não 5 níveis como os da pirâmide ensinada nos cursos de graduação. Sua dinâmica indica que à medida em que vamos nos libertando do peso das necessidades por deficiência, sentimos maior disposição e interesse para resolver as necessidades de crescimento. É óbvio que essas necessidades não seguem uma ordem rígida e nem “sobem” linearmente em nossas vidas. A discussão contemporânea sobre a validade da pirâmide é desfocada. Tente manter crianças famintas, dia após dia, em uma sala de aula, e então mensure o nível de aprendizagem delas em comparação com uma outra turma adequadamente alimentada. A essência do que Maslow quis nos ensinar é axiomático.

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Mais relevante é discutirmos os impactos das novas necessidades sobre a Educação contemporânea. A maior parte dos modelos educacionais vigentes foi desenhada ao longo da Revolução Industrial, entre os finais do século XVIII até meados do século XX. O objetivo desses modelos era estimular e direcionar o indivíduo para o domínio de funções específicas que servem à grande máquina produtiva da sociedade, fosse ela capitalista ou comunista. Em suma: aprender e especializar-se para servir ao sistema.

Nesse modelo há pouco ou nenhum espaço para se realizar o que chamarei aqui de desenvolvimento integral do Potencial Humano. Enquanto uma pessoa vive para aplacar suas necessidades por deficiência, não pode ir muito além de submeter-se às forças do ambiente circundante, vivendo quase que exclusivamente em função de motivações extrínsecas. O status quo se alimenta dessa “permanência” e parece gostar de ver os “coelhos correndo atrás das cenouras”. Mas as recentes revoluções tecnológicas saíram do controle e criaram uma tensão irrefreável ao abrir as portas do conhecimento às multidões. Olhe novamente para a pirâmide e note: o conhecimento é uma necessidade de crescimento. Então, se por um lado as pessoas estão ainda estudando e trabalhando para pagar suas contas, por outro sentem-se atraídas por tudo o que as espera na parte superior da pirâmide.

Essa tensão gera um sofrimento parecido com as dores de um parto. O ventre social precisa dar à luz formas mais vitais de existência. Se a Medicina estendeu nossa longevidade, a Psicologia e a Neurociência podem nos ajudar a viver uma existência psiquicamente superior.

As pessoas estão aprendendo a ampliar as suas aspirações, querem trabalhar movidas por propósitos; cresce também a empatia, buscam-se emoções como serenidade, gratidão, esperança e amor; A ética não está mais restrita ao direito básico à vida e ao cumprimento das obrigações sociais recíprocas: podemos e devemos elaborar uma ética da busca pela vida plena.

É chegada a hora de criarmos um modelo educacional que estimule o Ser Integral, partindo-se da premissa de que todos têm necessidade de exprimir a sua singularidade no mundo, que esse é o verdadeiro sentido do trabalho: o de se conectar aos outros e servir a sociedade com nossos melhores talentos, ao mesmo tempo em que realizamos a nossa jornada de autoconhecimento e autoexpressão. Fala-se tanto em inovação em nossos dias, mas esquece-se que a verdadeira inovação é a inovação do Ser.

 

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*Luciano Alves Meira é sócio fundador da Caminhos Vida Integral, criador do Workshop Plenitude e autor do livro “A Segunda Simplicidade: Bem-Estar e Produtividade na Era da Sabedoria”.

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