O tablet e o professor

O que aconteceu com os tablets distribuídos pelo governo federal às redes públicas de ensino? Mesmo professores acostumados à tecnologia não se adaptaram ao uso do dispositivo pessoal, enquanto outros estão revendo suas práticas em sala de aula

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Ramiro Furquim
A professora Gilda Severino diz ter gostado de trocar a tela do computador pela do tablet para a leitura de textos de formação


Há um ano e meio, o programa Tablet Educacional, do governo federal, vem distribuindo esses dispositivos pessoais para professores do ensino fundamental e, mais recentemente, também para o ensino médio das redes públicas. O programa já distribuiu cerca de 1,5 milhão de aparelhos e o Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão responsável pelo programa, está realizando um novo processo de compra de mais 1,3 milhão de unidades.

De um lado, ter um aparelho deste tipo à disposição permite que os professores “adaptem-se” a uma realidade que, muitas vezes, já faz parte do cotidiano dos alunos. De outro, a praticidade dos tablets parece permitir que o professor dê conta de tarefas que já realizava usando outros recursos, como o computador ou um DVD, com – às vezes – mais facilidade. Mas, será que os tablets mudaram a prática docente? De acordo com alguns professores que usam a tecnologia, não houve nenhuma “revolução”. Ao contrário, os relatos mostram que o trabalho com esta nova ferramenta é mais de adaptação do que de transformação.

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Perguntas e respostas
O professor Sérgio Augusto da Rosa Barbosa dá aulas de his­tória, geografia e sociologia para turmas dos anos finais do ensino fundamental na Escola Estadual Itália, em Porto Alegre. Seus alunos, como quase todos os adolescentes, passam horas usando seus smart­phones, navegando pelas redes sociais ou jogando on-line. Alguns jogos da moda são no estilo perguntas e respostas, o que, segundo Sérgio, abriu uma possibilidade de diálogo entre ele e os alunos. “Volta e meia eles vêm me perguntar alguma coisa e isso é bem bacana: eles acham que o professor sabe tudo e ficam surpresos quando eu digo que não sei”, conta Sérgio. “Acaba sendo um jeito de eles se aproximarem da gente.”

Por essa razão, quando recebeu o tablet, uma das primeiras coisas que o professor fez foi baixar alguns desses jogos tipo quiz ou palavras cruzadas. “Sempre que possível eu tenho planejado um tempo livre em sala de aula para que eles joguem comigo”, diz. Sérgio, no entanto, acredita que ainda está usando pouco o aparelho e pretende explorar mais algumas das opções oferecidas pelos programas e conteúdos que vêm no tablet educacional. O aparelho sai de fábrica com uma estante de conteúdos chamada MEC Mobilidade. São aplicativos que dão, basicamente, acesso a conteúdos escritos e audiovisuais produzidos pelo Ministério da Educação.

Sérgio está participando de um curso, realizado pela Secretaria de Estado da Educação, para utilizar o tablet e esses conteúdos. No estado, todos os 22 mil docentes participaram de pelo menos um curso presencial básico de oito horas sobre o funcionamento do aparelho.

“As pessoas acham que ‘ah, todo mundo sabe usar um tablet’, mas não é bem assim”, comenta Malu Pinto, coordenadora pedagógica do projeto Província de São Pedro, da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. “Então, nessas oito horas, a gente apresenta o básico, mostrando o que é cada parte do aparelho, como se faz o desbloqueio, como funcionam os aplicativos”, exemplifica. Segundo Malu, essa aula presencial evita que o professor deixe o tablet fechado na caixa, por receio de não saber usá-lo.

Por meio do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo) e em parceria com as secretarias de Educação, o FNDE oferece alguns módulos de formação que incluem introdução às tecnologias da educação, elaboração de projetos e criação de redes de aprendizagem. Sérgio, que já passou pela primeira etapa básica oferecida pela secretaria gaúcha, está participando de uma formação sobre projetos. “Agora é que vi que há sugestões de aulas no tablet, que há alguns recursos educacionais que eu talvez possa usar”, diz. Ele planeja comprar um adaptador para conectar o tablet a um projetor. Com isso, acredita que poderá usar vídeos da internet em suas aulas.

Texto e imagem na parede
Esta substituição do aparelho de DVD ou do retroprojetor pelo tablet parece ser um dos usos mais frequentes entre os professores. Trata-se de uma questão prática, como conta Gilda Severino, professora de português do Instituto de Educação General Flores da Cunha, também em Porto Alegre. “Sempre gostei de corrigir as redações dos alunos de forma participativa, então eu usava o retroprojetor para colocar o texto bem grandão na parede e ir mostrando as correções”, conta. “Agora, escaneio as redações, jogo para o tablet e o uso ligado a um projetor.”

Tanto Gilda quanto Sérgio dizem que, antes de ter o tablet nas mãos, eram usuários básicos do computador. “Usava para montar as provas no editor de textos e fiz uma conta no Facebook só para estar em contato com os alunos e os pais, às vezes mandar algum exercício para eles por ali”, diz Sérgio. Gilda, por sua vez, diz ter gostado de trocar a tela do computador pela do tablet para a leitura de textos de formação. A professora ainda não participou de nenhum módulo de formação para além do básico, mas está “se virando”. “Baixei os cadernos do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa para ler no tablet”, diz.

Onde está a inovação
A adaptação aos poucos dos professores ao uso dos tablets é algo esperado. Como quaisquer outros profissionais, os educadores não nascem sabendo lidar com as novas tecnologias, o que não significa que sejam eles o entrave ao uso criativo e inovador desses aparelhos. “A inovação está justamente no uso apropriado ao contexto e a objetivos construídos em diálogo com a realidade da escola”, comenta Michelle Prazeres, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, cuja tese estudou as políticas de uso de novas mídias e tecnologias na educação e os discursos constituídos em torno da entrada destas na escola. “É claro que o acesso do professor às tecnologias é um passo, mas ele não transforma sozinho a realidade.”

Em outras palavras: para que um projeto de inclusão digital dos professores tenha efeito sobre o fazer pedagógico, o ideal seria que os propósitos dessa inclusão estivessem mais claros e construí­dos de forma dialogada com a comunidade escolar. Não se trata, então, do dar o peixe sem ensinar a pescar – até mesmo porque há uma oferta, ainda que parcial, de formação para os professores. Trata-se de uma questão de planejamento, seja em termos pedagógicos e didáticos, como ressalta Michelle, seja mesmo em relação às configurações dos equipamentos e da infraestrutura de suporte.

Os professores gaúchos, por exemplo, reclamam que as redes de internet disponíveis nas escolas não dão conta do tráfego de dados. Além disso, o próprio tablet – cujas configurações são semelhantes, mas inferiores, aos aparelhos mais baratos vendidos no mercado – apresenta constantes problemas de conexão via rede sem fio (wi-fi). Para dar conta da pretensão de passar vídeos em sala de aula usando o tablet, Sérgio prevê baixar os arquivos em seu computador, passar para o tablet via cabo e, só então, levar o tablet para a escola já com o conteúdo gravado.

Gestão x pedagogia
No município de São Paulo, a distribuição de tablets aos professores está associada à implementação do Sistema de Gestão Pedagógica (SGP). O SGP prevê a substituição dos registros escolares em papel, do caderno de presenças ao boletim escolar, passando pelos planos de aula e diários de classe. Além das vantagens em termos burocráticos e de uso de papel com a digitalização destes processos, a intenção é que o sistema seja também acessado pelos alunos e pelos pais, que assim poderiam acompanhar mais de perto o trabalho da escola e o desempenho de seus filhos. Na prática, a associação entre o tablet e o novo sistema criou algumas tensões entre o que poderia ser uma inovação na gestão e a possibilidade de muitos professores sentirem-se incluídos na era digital e, com isso, investir em práticas pedagógicas inovadoras.

Sheila Varoli, professora de português na Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII e também em escolas da rede estadual paulista, não é exatamente uma professora que desconheça as possibilidades de uso pedagógico das novas tecnologias. Ao contrário, acha que o aprendizado é mútuo quando se trata de usá-las. “A informática tem disso de você ir se apropriando dela com os alunos”, comenta. “Já fiz novelinhas com os alunos usando imagens que eles faziam com os celulares e também já fiz programas de rádio, com um programa que a Prefeitura disponibilizou”, conta.

Porém, Sheila não se sente à vontade para usar o tablet nem para as funções de gestão, nem para novos projetos. Para ela, a exigência para que tudo seja registrado ao mesmo tempo em papel e digitalmente (ao menos no período de transição) e o número de informações e exigências para alimentar o SGP toma tanto tempo de trabalho que não sobra disposição para pensar em como usar o tablet na sala de aula. “Se os tablets tivessem vindo para trabalhar pedagogicamente, seria melhor”, acredita.

“A gestão vê com bons olhos, mas podia ter tido uma formação, um investimento mais forte nisso, ter criado tempo para o professor lidar com o sistema”, comenta o gestor da escola, Adriano Mercucci. Para ele, o processo de introdução de novas tecnologias na escola não pode ser pensado fora do contexto do exercício do magistério. “A desmotivação generalizada com a profissão docente reflete-se sobre toda a novidade que chega. O tablet vira o bode expiatório da vez”, diz.

Adriano, assim como Sheila, acredita que a ideia de um sistema que permita a participação e acompanhamento dos pais é boa e deve ser incentivada. Neste sentido, os tablets podem ser uma solução para aumentar o contato da escola com a comunidade, desde que, claro, a comunidade também tenha acesso à internet.

Condições para inovar
Ao contrário da sua colega Sheila, que há 20 anos leciona na rede pública, Flávio Wilson iniciou sua carreira há um ano. Apesar de jovem, também não se sente à vontade para lidar com as novas tecnologias. “Ainda não fiz nenhuma formação, exceto para lidar com o SGP”, diz. Professor de inglês, gosta de usar áudios e vídeos em aula, para que os alunos ouçam as pronúncias originais. Ele acredita que o tablet poderia ajudá-lo a pesquisar e apresentar esses vídeos para os alunos. “Mas como vai ajudar mesmo se a internet na escola não funciona bem, né?”, questiona.

Para Flávio, no entanto, o xis da questão não é apenas a ausência de infraestrutura nas escolas para dar suporte ao uso dos aparelhos. “O problema é que parece sempre que o professor é o ratinho de laboratório nesses projetos: colocam a coisa na nossa mão para ver o que acontece”, diz.

É exatamente o problema para o qual Michelle Prazeres, da USP, alerta em sua tese: em nome de uma crença de que a tecnologia pode revolucionar a educação, discurso que se faz presente na mídia, na Academia, nas empresas e também nos governos, aposta-se em políticas feitas a toque de caixa. “Acredito que a tecnologia pode transformar a educação, mas, para isso ocorrer, deve haver algumas condições”, diz a pesquisadora.

Entre essas condições estão o diálogo com a comunidade escolar e a identificação das reais necessidades da escola, de forma que os usos dos equipamentos possam estar relacionados a formas e conteúdos significativos e contextualizados. “Além disso, a noção de qualidade que está em jogo deve ser ampla, para além do rendimento, e a noção de inovação também deve ir além da atualização dos dispositivos”, diz. Com a distribuição dos tablets em andamento, talvez caiba esperar que as adaptações necessárias partam não só dos professores, mas também dos responsáveis pelas políticas públicas.

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