O sentido de educar

A atual discussão em torno da necessidade de desenvolver competências socioemocionais no ambiente escolar remete a outro debate: afinal, qual deve ser o papel da escola?

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Gustavo Morita
Pesquisa da OCDE aferiu a relação entre as atitudes dos alunos e suas notas nas avaliações acadêmicas

Escola, école, escuela, Schule. Todas essas palavras derivam de skholé, que em grego significa “tempo livre”. Esse foi o direito concedido aos artesãos e outros trabalhadores da Grécia antiga quando a escola foi criada: tempo livre, separado do tempo do trabalho, para estudar, se cultivar, se exercitar, enfim, se ocupar de si. Vista assim, a escola/skholé não era lugar de preparação, mas de separação, lógica que parece ter se invertido nesse longo percurso até os dias atuais, como analisa Walter Omar Kohan, professor titular de Filosofia da Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, avalia, há uma pressão cada vez mais forte para que as instituições de ensino reproduzam em seu interior os valores da sociedade contemporânea, a fim de preparar os jovens para o mercado de trabalho.

De seu ponto de vista, o ensino de competências socioemocionais se inscreve nessa tendência. O tema vem sendo debatido em seminários e, em breve, será abordado em um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), que prepara orientações sobre como trabalhar essas competências nas escolas. O parecer deve ser aprovado ainda este ano, segundo o conselheiro Francisco Cordão. Em sua concepção está a premissa de que ter curiosidade e ser capaz de trabalhar em equipe são exemplos de habilidades importantes não só para o aprendizado, mas também para a vida pessoal e profissional.

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Desempenho
O impacto dessas competências na vida acadêmica e profissional é um tema relativamente novo. Segundo os pesquisadores da área, ele começou a ser analisado cientificamente há 15 anos, aproximadamente. No Brasil, o assunto foi alvo de um abrangente estudo feito pelo Instituto Ayrton Senna (IAS) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que concluiu que os alunos mais responsáveis, focados e organizados aprendem em um ano letivo cerca de 1/3 a mais de matemática do que os colegas que têm essas competências menos desenvolvidas. A mesma di­ferença de aprendizagem é detectada entre estudantes com maior e menor nível de autonomia quando se compara o desempenho desses dois grupos em português.

A relação entre as atitudes dos alunos e suas notas foi possível a partir da aplicação de um questionário que aferiu o grau de desenvolvimento de algumas habilidades. Os Cinco Grandes Domínios da Personalidade, também conhecidos como Big 5, foram a referência adotada. Nessa classificação estão abarcadas as seguintes matrizes de competências: conscienciosidade, amabilidade, neuroticismo e abertura a novas experiências (veja mais no box). Por meio de perguntas do tipo “o quanto você consegue colaborar com algum colega quando o observa tendo dificuldade” e “o quanto você consegue apresentar disposição para atividades mais longas e complexas”, os pesquisadores levantaram a presença ou a falta de habilidades socioemocionais e relacionaram essas informações com as notas das avaliações acadêmicas.

No total, quase 25 mil alunos dos ensinos fundamental e médio da rede estadual do Rio de Janeiro participaram do levantamento e, diante dos resultados observados, os estudiosos foram taxativos: “os desafios socioeconômicos que se impõem ao Brasil exigem melhores maneiras de mobilizar a educação para atender às necessidades das crianças. Uma forma de melhorar as perspectivas futuras das novas gerações é desenvolver suas competências socioemocionais, tais como perseverança, autoestima e estabilidade emocional. Evidências sugerem que essas competências beneficiam não só os resultados na escola, mas também uma variedade de resultados no trabalho e outras esferas do bem-estar social”.

Alavanca para aprender
Em um encontro realizado em São Paulo, que contou com a presença de diversos secretários municipais e estaduais de Educação, Viviane Senna, presidente do IAS, reforçou que as habilidades socioemocionais funcionam como uma alavanca para melhorar o aprendizado, especialmente para aqueles que apresentam baixo desempenho acadêmico. Apostando na teoria, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) criou em parceria com o IAS o Programa de Apoio à Formação de Profissionais no Campo das Competências Socioemocionais. O objetivo é estimular pesquisas nesse campo e engajar os profissionais da Educação Básica. Segundo Carmen Neves, diretora de Formação de Professores da Educação Básica da Capes, outra proposta é estabelecer, posteriormente, um diálogo com as escolas públicas para implementar na prática o ensino dessas competências em sala de aula.

No Colégio Equipe, em São Paulo, são ensinadas de forma transversal a capacidade de cooperação, organização e comunicação. Na opinião de Luciana Fevorini, diretora da instituição, a educação deve olhar para o aluno como um todo, e não apenas como um depositário de conteúdos. “A educação está incompleta se temos um indivíduo muito competente, mas por outro lado muito tímido, que não consegue se expressar”, exemplifica.

Como os alunos do 6º ano geralmente sofrem para se adaptar à estrutura do segundo ciclo do ensino fundamental, onde há vários professores em vez de um só, o colégio resolveu trabalhar a habilidade da organização para ajudá-los a atravessar a fase com mais tranquilidade. Para isso, foi criada uma agenda coletiva, atualizada regularmente com as atividades programadas para cada dia. No 7º e no 8º ano, os professores focam a habilidade de estudar de forma independente para fixar os conteúdos. E no ensino médio, especialmente no 3º ano, busca-se desenvolver a comunicação. A cooperação é estimulada continuamente ao longo de todos os anos por serem “valores essenciais para a escola”.

Permear o currículo da escola com atividades que propiciem o fortalecimento de certas habilidades não quer dizer impor uma única maneira de ser, segundo a diretora. Os alunos mais tímidos não são forçados a manifestar suas opiniões indiscriminadamente. Porém, ao final do 3º ano do EM, eles devem fazer uma apresentação coletiva para toda a comunidade escolar, o que inclui alunos de outras séries e os pais. “Eles têm de enfrentar esse momento, pois achamos que isso é importante”, destaca.

A psicóloga e pesquisadora da Unesco Anita Abed também diz que a ideia de desenvolver habilidades socioemocionais visa preparar os alunos para o maior número possível de situações. Quando ele precisar adotar uma postura mais ativa, ele terá condições para tal, da mesma forma quando a expectativa for que ele tenha uma atuação mais retraída. “Não quer dizer se comportar sempre da mesma forma, todo mundo igual”, informa Anita, que é a autora do estudo encomendado pelo CNE para servir de base à elaboração do parecer.

Além disso, ela defende que as transformações sociais ocorridas nas últimas décadas não comportam mais uma escola fragmentada entre o cognitivo e o não cognitivo. “Trabalhar aspectos socioemocionais nas escolas não é mais uma escolha, é uma necessidade. O mercado de trabalho está pedindo outras coisas”, frisa.

Recriar ou reproduzir
Justamente quando se entra nesse terreno, e a finalidade da educação é colocada em questão, os antagonismos ficam mais evidentes. Retomando o argumento apresentado no início da reportagem, o professor da UERJ, Kohan, não discorda que a dimensão socioemocional seja tão importante quanto a dimensão cognitiva e que a escola deva estimulá-la. O que o incomoda é o argumento utilizado para defender isso. “A preparação profissional pode ser um efeito, mas a escola não diz respeito à preparação profissional”, ressalta. Longe disso, a função da escola é “ser um espaço de acolhida aos novos, aos que chegam ao mundo, oferecendo-lhes condições para renovar o mundo, recriar o mundo”, diz.

Na mesma linha de raciocínio, Julio Groppa, livre-docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), também acredita que as habilidades socioemocionais podem ser desenvolvidas como efeito colateral, o que é diferente de colocá-las em primeiro plano e inseri-las no currículo. “A escola não pode se dar ao direito de perder tempo com isso, pois a discussão intelectiva do trabalho escolar é suficientemente problemática e desgastante para a gente se dedicar a essas dimensões. A mim me parece que essa tentativa é uma espécie de deserção bem intencionada do ofício docente.”

Groppa vai além e diz que a tese transfere o ônus do fracasso escolar para os alunos. “Se isso é empoderamento por um lado, é desresponsabilização dos profissio­nais de educação por outro”, aponta. O argumento se aplica particularmente às teorias que postulam que os estudantes devem desenvolver autonomia e resiliência pa­ra superar adversidades e não desistir diante dos fracassos.

O assunto é controverso e, dada a novidade, é possível que haja ainda muitos embates ideológicos sobre o sentido de ensinar habilidades socioemocionais nas escolas. Nas rodas onde o assunto vem sendo apresentado, o receio de que isso seja mais um modismo não está descartado, tampouco que ele esteja sendo encarado como uma panaceia para os males da educação. Mas como há estudos relatando benefícios para o aprendizado, as discussões não estão encerradas.

Quais habilidades medir

O Big 5 é uma classificação criada por psicólogos para se referir às cinco principais dimensões da personalidade humana. Cada dimensão, por sua vez, abrange um conjunto de habilidades, entre elas:

Extroversão: gregarismo, assertividade, acolhimento e procura por aventuras.

Amabilidade: confiança, franqueza, altruísmo, modéstia, cooperação e facilidade para trabalhar em grupo.

Conscienciosidade: competência, ordem, senso de dever, direcionamento e autodisciplina.

Neuroticismo ou instabilidade emocional: irritabilidade, depressão, impulsividade, ansiedade e vulnerabilidade.

Abertura: criatividade, inovação, ousadia, interesse em aprender, disponibilidade para testar novidades.

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