O risco da heteronomia

O psicólogo José Leon Crochík analisa os efeitos do emprego da tecnologia na educação e alerta para o risco da massificação da informação

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Quando o uso de computadores pessoais ainda engatinhava, principalmente no Brasil, o professor titular do Departamento da Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP, José Leon Crochík, já estudava os efeitos da tecnologia sobre a educação, por meio de uma tese de doutorado que deu origem ao livro O computador no ensino e a limitação da consciência (Casa do Psicólogo, 1998).  Desde então defende a idéia de que a mediação da tecnologia é prejudicial ao processo de aprendizagem. Para Crochik, também autor de Preconceito, indivíduo e cultura (Casa do Psicólogo, 2006), a relação entre professores e alunos deve ser direta e a mais individualizada possível para se obter não só conhecimento como a própria crítica a esse conhecimento. Isso não se obteria por meio de uma educação permeada por meios de comunicação de massa. Além disso, afirma que os recursos tecnológicos funcionam como estímulos externos ao aluno, um paliativo ao interesse por aprender.



Em
O computador no ensino e a limitação da consciência

, o senhor critica duramente o uso de tecnologia na educação.



No livro, derivado de tese de doutorado defendida em 1990, estudei as propostas do uso do computador no ensino tanto para transmitir conteúdo como para desenvolver a inteligência. E fiz críticas a essas duas tendências. Aprender tecnologia, aprender a usar computador e internet é fundamental. Sem isso é difícil o convívio nos dias de hoje. É uma questão de adaptação. Até para o trabalho. O que eu ainda tenho restrições é em poder transmitir conteúdos de disciplinas por meio dessa tecnologia. Fazer uma pesquisa via internet pode ser interessante, mas de qualquer maneira a gente pode ter problemas, a fonte nem sempre é segura, às vezes a linguagem tenta simplificar o conteúdo, e assim perde-se a precisão, então nada melhor ainda que o professor bem formado para poder, por meio de um bom livro, um bom texto, discutir as questões de português, matemática, química, geografia e outras disciplinas. 



O senhor contrapõe os meios de ensino interpessoais, no caso o professor, e os meios de ensino de massa. E diz que os meios de massa padronizam a informação e limitam, não abrem espaço para a criatividade e a crítica. 


Turmas com poucos alunos nas quais o professor possa acompanhar o pensamento, o aprendizado de cada estudante ainda são fundamentais. Porque ele pode acrescentar conteúdos, corrigir distorções do que foi aprendido pelo aluno mais diretamente e individualmente. O ensino de massa só pode fazer isso por meio de uniformização, padronização. E os detalhes do conhecimento, ou seja, como os objetos e as dimensões de um determinado tema se relacionam, a crítica a eles, podem se perder. Então acho que a mão do oleiro, a marca do professor quando ele transmite conhecimento, aquilo que ele reflete de conhecimento, é fundamental para poder dar vida ao conhecimento.
 


O uso de computador e de outras tecnologias exige que os conteúdos sejam adaptados ao meio?



O meio da informática é lógico, é binário em sua base. Ele pretende uma apresentação temporal, espacial e seqüencial. Mas os fatos da vida não têm apenas essas dimensões. Essas dimensões foram criadas pelo homem – o tempo e o espaço. Mas no mundo há outras dimensões importantes na relação entre fatores, que envolvem contradições e conflitos, para os quais a lógica da máquina em geral não é propícia. Não que o pensamento formal não seja importante. Ele é, mas não para pensar algumas questões da sociologia, da psicologia, da história, enfim, dos fenômenos sociais e humanos.



A tecnologia está muito difundida, em especial entre as crianças e adolescentes. Alguns autores defendem que esses jovens adquiriram uma maneira própria de obter conhecimento e que por isso as escolas deveriam adaptar-se a esse mundo.



Na realidade, eu diria que é importante se contrapor e fazer a crítica a esse mundo digital naquilo que esses meios reduzem a possibilidade de expressão e do pensamento. A linguagem, por exemplo, dos chats de comunicação já traz um empobrecimento da linguagem. Quando as crianças e os adolescentes vão digitar, digitam símbolos abreviados. Ou enviam imagens de sorriso, tristeza, riso. Isso empobrece a expressão porque é uma expressão simulada, abreviada. Cada uma das palavras representa um conceito, e o conceito é um trabalho do pensamento que o associa à própria imagem do objeto. Com a palavra abreviada, simplificada, rápida, ela perde elementos importantes para que possa ser uma expressão mais precisa e clara, e conseqüentemente expressar um pensamento que use esses conceitos melhor. Então, naquilo que gera redução do pensamento e da expressão, a escola deveria servir de contraponto.



O senhor acha que a tecnologia pode estar servindo como forma de atrair o aluno, substituindo o professor sem preparo ou pouco comunicativo?



No século passado, houve uma mudança no entendimento do que vem a ser a educação. No lugar de preparar a disciplina para o aluno aprender, entendendo que o aprendizado por si só é importante e interessante, e portanto permitir a interiorização no aluno do interesse de aprender, resolveu-se motivá-lo externamente. Isso cria o que a gente chama de heteronomia, isto é, ser dependente de estímulos externos. O fato é que, com essa idéia de querer motivar os alunos, essa possibilidade de o próprio aluno ir até o conhecimento se reduz. Isso fortalece a tendência contrária – a idéia de que o conhecimento tem de ir até o aluno, e o professor fica refém do aluno. A máquina tem de aprender pelo aluno, mas ele não aprende. Eu estudei, para a minha tese, um software simples para ensinar fração. Era um desenho de uma quadra de basquete e havia um personagem que poderia estar em diversos pontos marcados da quadra.  Quando ele estava na metade da quadra e digitava "1/2", acertava a cesta e ganhava ponto. Quando estava no garrafão e digitava "1/4", acontecia o mesmo.  Isso, pelo que a pesquisa mostra, de fato, motivou os alunos. Mas o que ela mostra também é que eles não aprenderam fração. Aprenderam a regra do jogo, mas a fração mesmo não. Quer dizer, a paixão dos alunos passa a ser pelo jogo, pela simulação. Existe um raciocínio na fração que é interessante aprender. Mas isso fica em segundo plano. E isso, é claro, não forma as pessoas.

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