O que você acha, Bruna?

José Sérgio Fonseca de Carvalho escreve carta aberta a uma aluna negra que chegou lá

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O que você acha, Bruna? José Sérgio Fonseca de Carvalho escreve carta aberta a uma aluna negra que chegou lá

Foto: Shutterstock

Cara Bruna,

Hoje pela manhã vi nos jornais seu rosto triunfante, seu sorriso doce e franco. Seus cabelos afirmavam, em sua densa beleza, o orgulho de se ver como partícipe de um povo que, trazido compulsoriamente, fez desta terra seu chão. Sua conquista – ser a primeira colocada no exame vestibular da Faculdade de Medicina da USP – representa muito mais do que um merecido triunfo de seu esforço individual. É um símbolo para todos aqueles que lutam coletivamente pela igualdade. E creia, Bruna, ele veio no momento em que mais precisávamos, porque o pouco que conquistamos juntos está sendo ameaçado.

Sei que foram horas, dias, meses e anos de estudos solitários para chegar aonde você chegou. Mas também que você sabe que há muitas Brunas que jamais tiveram a oportunidade de um cursinho popular e que se o tivessem fariam bonito como você fez. O que não sei se você sabe é que a atual reitoria da universidade em que você entrou parece crer que o apoio a cursinhos populares, à educação infantil não está previsto no Estatuto e, portanto, pode ser descartado. Eles dizem que o problema é econômico. Mas sabe, Bruna, eles continuam a ter automóveis oficiais caros, com motoristas particulares, muita segurança… (Acho que garantir privilégios para a alta cúpula também não consta como finalidade da universidade. O que você acha?)

Eu não sou negro, Bruna. Mas sou casado com uma mulher negra e tenho uma filha negra. Isso me fez perceber como a maior parte da sociedade olha para as mulheres negras como vocês. É como se houvesse um lugar marcado: aqui você pode, ali não. Sambar, ser sensual, cantar, tudo isso pode. Intelectual? Médica? Ora, ponha-se no seu lugar! Só que são eles que querem dizer qual é o seu lugar. E ele nem depende de quem você é. Só do que eles acham que é um lugar cativo deles. E por isso, qualquer política de ação afirmativa, como cotas, é insuportável. Ela embaralha os lugares. Você embaralhou os lugares, Bruna. E por isso lhe somos gratos. Mas você também sabe que só pode embaralhar os lugares porque muita gente do Movimento Negro lutou por isso e continua lutando. Bom mesmo, Bruna, é acabar com os lugares cativos!

Eu também vim da escola pública, Bruna. Estudei lá, dei aula lá. Gosto e tenho orgulho disso. Ninguém mais acredita na escola pública. Todos têm uma certeza: nada lá presta. Mas foi na escola pública, Bruna, que surgiram as ocupações; que pessoas como nós estudamos para nos tornarmos médicos, professores, tradutores…. Na verdade, mais de 80% da população estuda ou estudou lá. Tiveram bons e maus professores, viveram alegrias e tristezas, fizeram amigos e tiveram decepções. Igualzinho aos outros 15% ou 20%. Mas parece que as certezas das pessoas nem sempre dependem da observação e da reflexão. Se a escola pública fosse sempre tão ruim, como poderia haver tantas Brunas? Mas se ela fosse melhor, imagine quantas mais haveria! Mas parece que o governo congelou as verbas da educação, Bruna. Acho que querem cortar gastos. Mas o gozado é que eles também têm carros, motoristas e privilégios… Pode ser coincidência, Bruna. O que você acha?

Agora só queria lhe desejar boa sorte, Bruna. E uma memória forte e atenta. Para nunca esquecer de todos os seus irmãos e irmãs que lhe precederam no tempo ou que nele lhe sucederão na mesma luta para embaralhar a ordem preconcebida desta sociedade cordial e cruel.

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