O que se escreve, o que se ensina

A questão historiográfica está em pauta há tempos. Fazer dela uma reflexão sobre o que e como se ensina história na escola é fundamental

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Em meados da década de 70, o historiador francês Jacques Le Goff inventariava seis tipos de problemas que cercavam o conceito de história. Seu primeiro ponto dizia respeito a uma questão que permeia o fazer histórico desde o início do século passado: qual a linha de fronteira entre uma história "natural" ou "objetiva" das sociedades humanas e o esforço científico para "descrever, pensar e explicar esta evolução"?

Entre o viés narrativo e o de ciência analítica, que exige método e rigor, a história começou a refletir sobre suas próprias engrenagens, sobre a história
da história.

Os questionamentos de Le Goff, que fazem parte de
História e memória

(Ed. Unicamp, 2003), são seminais para entender os aspectos que envolvem a construção histórica e as relações do homem com o tempo e as formas de ver o passado. Destaque para sua genealogia dos documentos/monumentos históricos e as questões que seus usos e escolhas impõem aos historiadores.

Michel de Certeau, em
A escrita da história

(Forense Universitária, 2008), mostra de que maneira o real e o discurso se articulam na produção historiográfica, ressaltando os paradoxos que essa conjunção embute.

Em outro clássico dos anos 70,
Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história

(Editora UnB, 2008) Paul Veyne realça essas características discursivas e os limites científicos da história, enfatizados na aproximação com as ciências sociais. Aqui, a história é vista como uma trama que comporta lacunas. Já Hayden White vai mais longe. Ao analisar os grandes historiadores do século 19 (Michelet, Ranke, Tocqueville, Burckhardt), analisa suas obras como originárias de construções poéticas derivadas de formas de ver o mundo. Em
Meta-história – A imaginação histórica do século 19

(Edusp, 2008), os modos poéticos (metáfora, sinédoque, metonímia e ironia) prefiguram os discursos.

Dois títulos investem nos sentidos da incorporação dos depoimentos na historiografia:
Usos e abusos da história oral

(Editora FGV, 2008, org. por Ferreira e Amado) é um grande painel acerca dessas práticas, incluindo questões ligadas a biografias;
Tempo passado – Cultura da memória e guinada subjetiva

, de Beatriz Sarlo (Companhia das Letras-UFMG, 2007) alerta para o uso abusivo dos depoimentos e lembra que, como qualquer fonte histórica, eles devem ser cotejados com outras fontes e não tomados como verdade absoluta.

Vários autores atualizam a discussão e trazem-na para o âmbito da escola: afinal, se a história é um discurso, resultado da articulação de sociedades (e poderes) históricos, o que ensinar numa escola que se quer democrática?

Exemplos de incorporação dos novos fazeres historiográficos estão em
Ensino da história e memória coletiva

, de Carretero, Rosa e González (Artmed, 2007), com relevo em questões como identidade, memória e representações nacionais; o recém-lançado
Documentos de identidade

(Carretero, Artmed, 2010) analisa textos e programas para questionar a história escolar.



Novos temas nas aulas de história

(Contexto, 2009), organizado por Carla Pinsky, mostra como novos recortes historiográficos – biografia, história cultural, gêneros etc. – podem ser incorporados ao ensino.
A história na escola


– Autores, livros e leituras

(org. de Rocha, Reznik e Magalhães, Ed. FGV, 2009) parte do livro didático para aferir as práticas e, a partir daí, questiona aspectos da formação docente. 

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