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Pesquisa aponta que os maus tratos entre alunos são recorrentes no cotidiano escolar; vítimas não buscam ajuda após a agressão

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Um levantamento inédito sobre a violência no ambiente escolar brasileiro apontou, em abril deste ano, que 70% dos alunos entrevistados já haviam presenciado, pelo menos uma vez, maus tratos a colegas na sala de aula. Aqueles que informaram ter visto colegas serem maltratados várias vezes por semana somam quase 9%, enquanto 10% viram atos violentos todos os dias. Mais: das cinco regiões do país, a Sudeste é a que apresenta maior frequência de maus tratos entre colegas, seguida por Centro-Oeste e Sul. Realizada pela ONG Plan Brasil, a pesquisa Bullying escolar no Brasil foi realizada entre os meses de outubro e dezembro de 2009 e envolveu 5.168 estudantes de 5as, 6as, 7as e 8as séries de 25 escolas públicas e particulares nas cinco regiões do país, além de professores, funcionários, diretores e coordenadores de escolas e pais de alunos. Os resultados da pesquisa servirão de subsídio para a campanha Aprender sem Medo, ação global que pretende erradicar a violência nas escolas. "A campanha teve início em 2008 e no Brasil escolheu esse tema por ele ser pouco estudado e difundido em nossas escolas", explica a consultora da Plan, Cleo Fante.

O bullying, termo inglês que significa intimidação, compreende atitudes agressivas de todas as formas, praticadas de maneira intencional e repetitiva. Executadas em uma relação desigual de poder, ocorrem sem motivação aparente, causando dor e angústia na vítima. Embora tenha se tornado bastante recorrente na mídia a partir da década de 1990, o bullying não é um fenômeno novo. Na literatura, o escritor austríaco Robert Musil narrou esse tipo de maus tratos em O Jovem Törless, publicado em 1906. A vítima era Basini, aluno de um colégio interno flagrado ao roubar outro colega. Como forma de repreensão, dois estudantes decidem aplicar-lhe castigos humilhantes.

"O bullying sempre existiu, mas era tratado como uma forma de violência sem características próprias", comenta a professora Luciene Tognetta, do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "O olhar da ciência se volta às peculiaridades do bullying que o tornam mais sério do que outras formas de violência: é repetido e a vítima tem força para suportá-lo", completa. Segundo Cleo Fante, a gravidade do bullying e seu prejuízo eram considerados brincadeiras próprias da fase do amadurecimento do indivíduo. Essa interpretação foi desmistificada por estudos desenvolvidos pela Universidade de Bergen, na Noruega, durante a década de 80, que alertavam sobre a existência de um fenômeno velho e novo. O material também apontava que o bullying exigiria a atenção e a preocupação não só dos profissionais das escolas, mas dos pais e da sociedade como um todo. 


A escola e o bullying


De acordo com a pesquisa, quando docentes e gestores foram questionados sobre as possíveis causas de bullying no ambiente escolar, transferiram para as famílias o dever de evitar esses episódios na escola, e vice-versa. Entretanto, muitos pais assumiram uma parcela da culpa ao perceber que famílias negligentes também são uma das causas dos maus tratos, pois é por meio da agressividade que a criança busca a atenção de adultos e colegas. Luciene Tognetta acredita que a escola precisa de um espaço para a discussão do tema em vez de recorrer a ações paliativas, como a suspensão do agressor. "É responsabilidade da instituição prevenir e tratar o bullying, auxiliando o professor a identificar o problema para que ele ajude vítimas e agressores a compreender as regras", opina.

Regina de Andrade, que leciona língua portuguesa em uma escola estadual da zona leste de São Paulo, concorda. "O professor tem de agir como professor, e não apenas passar a matéria e ensinar. A maioria não quer se envolver", diz. Ela também reconhece que a falta de autoridade na escola – apontada por pais durante a pesquisa – resulta em excesso de liberdade e permite a impunidade dos agressores, estimulando a repetição da violência. "Depois de muita insistência dos professores, o coordenador chama o aluno. Se continuar, os pais são convocados", conta.

O que mais chama a atenção dos pesquisadores é o local de maior incidência dos ataques. Segundo as vítimas entrevistadas pelo estudo, no Brasil o local mais usado é a sala de aula, com ou sem o professor, seguido do pátio. Em outros países a preferência é pelo pátio e locais de menor visibilidade, como banheiros e corredores. "Esse indicador alerta para a dificuldade do adulto em identificar o bullying como também para a forma de organização da própria escola e de sua equipe, que necessita de treinamentos específicos para identificar, intervir e prevenir o fenômeno", destaca Cleo.


Perfil das vítimas


Para a maioria dos alunos entrevistados (16,84%), a principal motivação do agressor para maltratar um colega é querer ser popular. No entanto, muitos não souberam comentar o porquê desse tipo de violência nas escolas (11,59%). Algumas situações de agressão surgem da dificuldade em estabelecer limites para as brincadeiras, muitas vezes sem que os próprios envolvidos percebam a gravidade da situação. A manifestação mais frequente de maus tratos entre alunos, conforme o estudo, é a agressão verbal por apelidos e xingamentos, sendo vários deles gratuitos e, geralmente, relacionados à aparência (altura, sobrepeso, padrões de beleza, cor da pele, uso de óculos ou aparelhos dentários) ou às necessidades especiais.

Regina de Andrade corrobora os dados da pesquisa no dia a dia. Em sua escola, as vítimas de bullying costumam ser garotos e garotas com característica físicas como sobrepeso, altura elevada, cabelos crespos e cor da pele. Além disso, estudiosos e introspectivos, estereotipados como nerds, também sofrem com os agressores.
A maioria das vítimas do bullying declarou nada fazer após os maus tratos. Eles se sentem magoados (6,6%), comportamento que pode levar à repetição da violência, já que preserva os agressores. Porém, muitas vítimas procuram se defender sozinhas (6,3%). Menos de 10% dos alunos entrevistados buscam ajuda dentro da escola, seja falando com o diretor ou com um professor.

Quanto aos sexos, meninos e meninas são afetados de modo diferente por esse tipo de violência. O que os meninos expressam sentir após serem maltratados revela que talvez eles estejam querendo mascarar seus sentimentos para não demonstrar fraqueza. Dizem "achar engraçado", "não sentir nada" e que "se sentem bem". As meninas admitiram ter se sentido magoadas, chateadas, tristes e até com medo. "É possível inferir que isso decorre da dificuldade dos meninos em assumir emoções ligadas ao sofrimento causado pela situação, tendendo a mostrar-se indiferentes ou pouco impactados pelas ações agressivas", afirma o relatório. As formas de bullying também variam de acordo com o sexo, como observa Luciene Tognetta, da Unicamp: ao praticá-lo, as meninas são mais sutis, abandonando colegas, formando "panelinhas" e diminuindo o outro moralmente. Os meninos usam a força física e a imposição. 

Regina de Andrade relata o caso de um garoto autista do 2º ano do ensino médio, que  servia de meio para uma aluna provocar outro colega da mesma sala: ela pedia para ele fazer as "brincadeiras" com o outro aluno, pois assim a culpa não seria dela. "Os alunos acabavam ensinando o que era errado para ele", conta. A atitude mais comum nas escolas em geral é a convocação do responsável, que só acontece quando a situação se agrava. "A maioria dos pais defende o filho e não acredita no professor", diz, relembrando o caso do aluno que colocou laxante em uma garrafa de refrigerante e deixou em cima da carteira para os colegas. Quem se aproximasse e pedisse para beber, ele deixava. Ao ser chamado pela coordenadora e informado do que o filho havia feito, o pai simplesmente riu.

Quando a violência é virtual

Aproximadamente 17% dos alunos que participaram da pesquisa da Plan afirmaram ter sido vítimas de cyberbullying ao menos uma vez em 2009. Esse tipo de maus tratos consiste em práticas de difamação, humilhação, ridicularização e estigmatização por meio de ferramentas da internet, sendo e-mail, MSN e redes sociais, como Orkut, as mais utilizadas. Como o agressor pode agir de forma anônima, o cyberbullying é caracterizado como um "fenômeno sem rosto". Assim como nas situações de maus tratos dentro do ambiente escolar, as vítimas de agressões pela internet não costumam fazer nada ou tentam se defender sozinhas.

Luciene Tognetta, da Unicamp, relata um caso que mostra como uma escola não deve agir: o pai de um aluno procurou a instituição de ensino dizendo que o filho havia sido vítima de colegas de classe com ofensas em uma rede social. A escola omitiu a responsabilidade, afirmando se tratar de um caso extraescolar. Porém, quando um professor da mesma instituição sofreu humilhações de alunos nessa rede social, a escola reagiu a favor do funcionário e o defendeu, inclusive, com o apoio de advogados. "A escola pode contribuir discutindo o tema com os alunos. Afinal, o professor é responsável pela formação ética", explica Luciene.

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