O que os alunos pensam sobre “colar”

Apesar de considerarem errado, estudantes continuam a “trapacear” nas avaliações

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©Belinda Pretorius

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Pedir ajuda ao colega, anotar fórmulas na carteira, conferir respostas na internet, calcular o resultado no celular, olhar a explicação no livro didático. São muitas as possibilidades para o aluno que quer burlar o sistema de avaliação da escola.

Mesmo achando que forjar uma resposta pode ser considerado um desvio de conduta, grande parte dos alunos já colou, ainda cola ou conhece alguém que costuma colar, seja nas avaliações ou tarefas de casa. O site de Educação conversou com estudantes de escolas públicas e privadas brasileiras para entender o que eles pensam sobre a prática.

Desculpas, justificativas e cobranças

“Ir bem” nas avaliações e passar de ano estão entre os principais motivos apontados pelos estudantes quando perguntados sobre por que a cola vale a pena. Ainda que considerem o ato errado, a maioria já colou pelo menos uma vez.

As justificativas são muitas: não houve tempo para estudar, a matéria era muito difícil, o professor não explicou direito, havia medo de ser repreendido pelos pais ou pelo próprio professor, e também o fantasma da reprovação.

Camila*, aluna do último ano do ensino médio, diz colar com frequência. A estudante tem boas notas em grande parte das matérias, mas admite copiar respostas das provas em que sente mais dificuldade.

“Eu sei que é errado, mas se eu não for bem meus pais vão ficar tristes comigo, e eu vou ficar triste comigo mesma”, diz a aluna de 17 anos.

A maior parte dos alunos diz conhecer alguém que cola sempre que pode. As possibilidades vão de cópias de lições de casa e tarefas diárias a pedidos de respostas em avaliações importantes.

“Aquelas pessoas que vão mal na escola, colam para que os pais não tirem as coisas deles: celular, sair no fim de semana. Elas colam pra ganhar nota, mesmo não estudando. O problema é que as pessoas não se dedicam, não estudam em casa”, conta Laura Gonzales, aluna do 8º ano na rede particular.

Nesses casos, assim como em muitos outros, é cobrado do estudante um resultado final e não o aprendizado, o que quebra a lógica escolar de avaliação. Para a professora Ana Laura Lima, docente na Faculdade de Educação da USP, a questão que se coloca a partir daí é o conflito entre o valor da honestidade e do desempenho.

“Se o aluno percebe que o importante para os pais e para os professores é o resultado da prova e não a dedicação ao estudo, pode ser levado a pensar que a cola é uma alternativa razoável para atingir o objetivo da nota” explica a professora, que estuda psicologia escolar.

Ana Laura ressalta, porém, que as explicações não tornam a atitude dos estudantes menos desonesta. O máximo que a desculpa pode fazer é tornar a cola compreensível em determinadas situações.

O que o professor pode fazer?

Os estudantes costumam enxergar na figura do professor o responsável por inibir a prática da cola e aplicar as devidas punições quando necessário. A aluna Mariana*, de 17 anos, acredita que a instrução deve ser acompanhada do cumprimento das regras.

“Acho que para diminuir as colas é preciso mais fiscalização, principalmente nos corredores e tratar da situação do uso do celular nas provas. Muitas pessoas vão ao banheiro e pesquisam as questões lá” afirma a estudante da rede particular de Maceió.

Os alunos dizem que os professores preferem penas mais brandas, como pedir que o aluno troque de lugar ou chamar sua atenção por estar de olho na prova do colega. Punições mais severas como zerar a avaliação ou tirar a prova acontecem raramente. Para os alunos que seguem as regras, a situação pode soar injusta.

“Devia ter mais punição. O professor fala que vai tirar prova, mas não tira”, afirma Luísa Lacerda, aluna do 8º ano da rede particular do Paraná.

Contudo, a pesquisadora Ana Laura, da Feusp, ressalta que a certeza de punição pode ajudar a combater a cola, mas não chega à raiz do problema. Outras atitudes no campo pedagógico podem ser mais eficazes.

“O professor deve produzir avaliações que correspondam ao que foi de fato ensinado; tornar explícitos e compreensíveis para os alunos os critérios de correção da prova; não usar as avaliações para punir, se vingar ou desqualificar os alunos” descreve a professora especialista em psicologia escolar.

Outra questão levantada pelos estudantes é a falta de aprimoramento didático do professor. A cola poderia ser um sinal de que os estudantes não estão absorvendo o conteúdo da forma como ele tem sido apresentado.

“Tem alguns professores que não ensinam a matéria de um jeito que a gente entende, aí as pessoas colam mesmo”, afirma Júlia*, estudante do primeiro ano do ensino médio.

Como solução alternativa à punição, os alunos indicam mais diálogo com aqueles que estão colando. Para Felipe*, também estudante do primeiro ano do ensino médio, o aluno que cola é antes de tudo alguém que não está aprendendo e precisa de mais atenção.

“Tem de explicar melhor para os alunos que não acompanham as aulas direito. Isso aqui é o futuro deles, e eles estão deixando passar em vão”, argumenta o adolescente da rede pública de São Paulo.

*Alguns nomes foram alterados para preservar a identidade dos estudantes

Voz dos estudantes

O que é a “cola”?
“A cola é uma trapaça, só que mais leve.” — Thiago Marsola, 8º ano do ensino fundamental – São Paulo

“Colar é quando a pessoa fica chamando atenção e atrapalhando a prova da outra pra pedir a resposta.” — Luísa Lacerda, 9º ano do ensino fundamental

Qual a sensação de colar?
“A primeira vez foi na 5ª série, foi empolgante. Eu vi todo mundo passando a resposta, aí eu falei: ‘Ah, eu também quero’”’. Júlia*, 1º ano do ensino médio.

“Eu nunca colei, mas deve dar vergonha porque você tá fazendo uma coisa errada e alguém viu, é tipo roubar um pote chocolate.” Guilherme Brocanelli, 5º ano do ensino fundamental

Colar é errado?
“Sim. Se eu copiar a resposta, como a professora vai saber o que eu aprendi?” — Alessandra Badu, 3º ano do ensino fundamental.

“Ah, depende. Você não tem obrigação de saber todas as matérias o tempo todo, então se você não conseguiu entender a matéria direito… Eu não julgo.” — Juliana Bernardo, 1º ano do ensino médio.

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