O que faz a diferença

Divulgação do Pisa costuma se restringir ao desempenho, sem realçar fatores que levam a ele

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A divulgação dos resultados do Programme for International Student Assessment, o Pisa, nos últimos anos, demonstra a profunda defasagem dos resultados dos alunos brasileiros em relação aos seus colegas de outros países, em especial os das escolas dos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Via de regra, porém, a divulgação bruta dos resultados deixa para trás outras análises importantes que são feitas pelo exame. Uma delas situa o Brasil como um dos países onde a desigualdade de condições socioeconômicas dos alunos mais afeta as oportunidades de aprendizagem. Isso decorre, em boa parte, da incapacidade da escola de prover condições idênticas, nos diferentes contextos regionais.

Uma análise mais esmiuçada dos resultados desse exame internacional foi apresentada aos educadores brasileiros em um encontro promovido em maio, pela Fundação Santillana. Na ocasião, o alemão Andreas Schleicher, diretor da Divisão de Indicadores e Análise do Departamento de Educação da OCDE, disse que as desvantagens socioeconômicas em países como o Brasil se constituem em uma poderosa barreira. Esse impacto, que explicaria 15% da variação de resultados nos países da OCDE, chega a 53% no Brasil. "Contudo, o fato de muitas escolas em desvantagem conseguirem resultados bons indica que a defasagem socioeconômica pode ser superada se houver condições adequadas", diz.

Segundo Schleicher, melhor do que encontrar desculpas para o fracasso é analisar as condições sob as quais ele ocorre para construir o sucesso escolar. Um exemplo que cita é o preferido dos economistas contemporâneos – o da Coréia do Sul, que passou de um 26º lugar entre 30 países, na década de 60, para o topo do ranking hoje. Segundo ele, um passo decisivo nesse processo foi o estabelecimento de parâmetros universais e rigorosos para todos os alunos, acompanhados de um ambiente apropriado para que os padrões possam ser uma realidade nas salas de aula. "Isso supõe providenciar o acesso às melhores práticas e ao melhor desenvolvimento profissional nas escolas." Além disso, a educação foi eleita uma prioridade pública no país, que passou a investir 10% de seu Produto Interno Bruto (PIB) no setor.


Diferenciais


Há pelo menos três elementos em comum nas trajetórias bem-sucedidas dos sistemas educacionais, lembra Schleicher. "Em primeiro lugar, os países mais bem posicionados no Pisa trouxeram as pessoas certas para ensinar, treinaram os professores, devolveram lideranças e capacitaram os professores para dividir seu conhecimento e inovar", disse. Segundo o diretor, a Coréia do Sul criou incentivos e sistemas de apoio ao professor para assegurar que cada criança fosse capaz de se beneficiar de uma excelente instrução.

O segundo passo, continua, foi encontrar um equilíbrio adequado entre as condições de desenvolvimento do trabalho e a responsabilização da escola e dos educadores – o que se chama hoje de accountability, termo em voga no tema da gestão escolar.

Por fim, ressalta o diretor do Pisa, "os países que conseguiram bons resultados são aqueles nos quais as escolas e os professores se engajaram construtivamente na missão de atender a diversidade de interesses, capacidades e contextos socioeconômicos de seus alunos, sem expulsá-los do sistema ou enviá-los para escolas com menor grau de exigência".

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