O que é hipérbole

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hipérbole

A expressão “O mundo na palma da mão” é sinônimo de “sucesso”: excesso amplifica o sentido do que se quer dizer (Foto: Pixabay)

No capítulo XV do romance Helena, de Machado de Assis, encontra-se o seguinte passo: “Quando esta carta te chegar às mãos, estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti”. Evidentemente, “estarei morto, morto de saudades” é um predicado não pertinente, porque, de fato, o personagem não estará morto, mas com muitas saudades.

A hipérbole (do grego hyperbolé, que significa “ação de lançar por cima ou além”; depois, “ação de ultrapassar ou passar por cima”; daí, “excesso”, “amplificação crescente”) é o tropo em que há um aumento da intensidade semântica. Ao dizer de maneira mais forte alguma coisa, chama-se a atenção para aquilo que está sendo exposto. Quando se afirma que alguém tem um coração de pedra, o que se pretende é destacar o grau de insensibilidade dessa pessoa. A hipérbole é o tropo em que se estabelece uma compatibilidade predicativa, ao perceber a superlatividade da expressão. Na hipérbole, diz-se mais para significar menos, mas, por isso mesmo, enfatiza-se o que está sendo expresso.

Usa-se a hipérbole tanto na linguagem quotidiana (estou morto de sede, estava tão cansado que desmaiei) quanto nos gêneros artísticos. Em Os Lusíadas, de Camões encontram-se passagens como: “Sigamos estas deusas e vejamos/ Se fantásticas são, se verdadeiras./ Isto dito, veloces mais que gamos,/ Se lançam a correr pelas ribeiras” (IX, 70, 1-4); “Os olhos tinha prontos e direitos/ O Catual na história bem distinta; Mil vezes perguntava e mil ouvia/ As gostosas batalhas que ali via” (VIII, 43, 1-4).

Variedade

Os usos da hipérbole são variados. Em Vieira, por exemplo, menciona-se a hipérbole para mostrar a denotação da verdade religiosa, pois se explica que o que é exagero retórico em outros campos discursivos não o é no domínio do discurso religioso:

“Não só os poetas, mas ainda os profetas, quando querem descrever a tempestade mais horrível, dizem que a braveza e fúria dos ventos já levantam as ondas ao céu, já as precipitam ao inferno: Ascendunt usque ad caelos, et descendunt usque ad abyssos. – E isto, que nas tempestades do mar é hipérbole, na tempestade do inferno não chega a dizer tudo o que verdadeiramente é, porque os trovões e os raios daquela tempestade de blasfêmias, injúrias e maldições não só sobem e se levantam desde o inferno até o céu, senão sobre o céu do céu até o mesmo Deus (quarta parte do Discurso quarto de As cinco pedras da funda de Davi).”

Os narradores machadianos sempre apresentam uma imagem de comedimento e de elegância de linguagem. Os exageros de expressão são incompatíveis com sua dicção. Por isso, eles explicam o uso de hipérboles e desculpam-se por elas:

“Meses depois fui para o seminário de S. José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais do que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. Entretanto, se eu me ativer só à lembrança da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.” (Dom Casmuro, cap. L).
“A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido de ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor.” (Dom Casmurro, cap. LXII).

Dimensões
A hipérbole pode ter dimensões variadas. Pode ir de uma locução até um texto inteiro. Machado criou uma personagem hiperbólica em Dom Casmurro: José Dias, o homem que amava os superlativos: “Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases” (cap. IV). O narrador critica esse estilo de José Dias:

“Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração; foi aquele gravíssimo. Vi depois que ele só queria dizer grave, mas o uso do superlativo faz a boca longa e, por amor do período, José Dias fez crescer a minha tristeza. Se achares neste livro algum caso da mesma família, avisa-me, leitor, para que o emende na segunda edição; nada há mais feio do que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas” (cap. LXVII).

A hipérbole não é uma figura característica apenas da linguagem verbal. Constroem-se amplificações de sentido também na linguagem visual. A Clínica do Tempo, sediada em Lisboa, numa propaganda de uma técnica de “lipoaspiração” não invasiva mostra uma pessoa torcendo a pele da barriga, como se torce roupa, só que em lugar de água pinga gordura.

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