O que dá certo

Cidades como Natal (RN), São Carlos e Santo André (SP) reúnem projetos-modelo para divulgação científica e formação de professores

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A produção de neurociência de ponta e a educação científica de jovens andam de mãos dadas no Rio Grande do Norte, no Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra. O centro, fundado pelos neurocientistas Miguel Nicolelis, Sidarta Ribeiro e Claudio Mello no início de 2007, mantém projetos de iniciação científica para mil adolescentes em duas unidades – uma delas em uma escola de Natal, a outra na unidade do instituto no município de Macaíba, a 20 km da capital potiguar. Em ambas, jovens de 11 a 17 anos matriculados em escolas públicas recebem aulas duas vezes por semana, no período alternativo à escola, durante até quatro anos, sem testes ou divisão por faixa etária. O currículo é construído coletivamente – conteúdo e metodologia baseiam-se nas concepções de Paulo Freire.

Em Natal, há oficinas de história, robótica, ciência e tecnologia, invenções e ciência e arte. As instalações incluem biblioteca, centro de formação de professores e laboratórios de física, química, biologia e informática. Em Macaíba, são duas as oficinas. De acordo com Dora Montenegro, diretora da Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (administradora do instituto), os resultados vão além do aumento do interesse por ciências. "A relação da maioria dos nossos alunos entre si e com os professores se tornou mais respeitosa e afetiva", diz. "O envolvimento com a produção do conhecimento contribui para que expressem suas idéias com maior clareza e fundamentação."
Mais de 20 anos antes da fundação do IINN, era criado em São Carlos (SP) o Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP, que atende por ano cerca de 75 mil estudantes e professores. O CDCC oferece a docentes da Educação Básica cursos nas áreas de química, física, matemática, biologia, educação ambiental e astronomia. Disponibiliza ainda materiais instrucionais e equipamentos didáticos desenvolvidos na USP para que os professores possam aplicar métodos alternativos de ensino – uma das principais atividades, segundo o diretor Aprígio Curvelo, é o Programa Mão na massa, também realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro, que aperfeiçoa professores no ensino de ciências.

O centro possui ainda exposições interativas de química, física e biologia, caixas com experimentos científicos para estudantes, sessões de cinema e uma biblioteca especializada em ciências com mais de 18 mil livros. O jardim da percepção – uma exposição na área externa do centro – recorre às sensações para apresentar as leis físicas presentes no cotidiano. As 98 caixas da "Experimentoteca" têm materiais para experimentos de química, física, matemática e biologia com os estudantes do ensino básico. Cada caixa permite, por exemplo, extrair o DNA de tomates ou testar princípios de óptica. O material fica à disposição dos professores da cidade.

Em São Paulo, a USP mantém a Estação Ciência, um projeto vi­sualmente grandioso inaugurado em 1987. O público anual é de mais de 400 mil pessoas. Uma equipe de estagiários transforma as apresentações dos experimentos em shows permanentes, para a diversão das turmas de alunos que visitam a instituição. Há espaços específicos para astronomia, meteo­rologia, física, geologia, geografia, biologia, história, informática, tecnologia, matemática e humanidades. É ali a sede paulistana do Mão na massa, que tem hoje convênio com 70 escolas municipais para a formação docente.

Todos os projetos acima dependeram de iniciativas de universidade – ou, no caso de Natal, pesquisadores que se destacaram na academia. Uma prefeitura que ousou priorizar o ensino de ciências foi a de Santo André, no ABC paulista. O investimento na construção da Sabina – Escola Parque do Conhecimento – foi de R$ 40 milhões, valor superior ao de milhares de orçamentos municipais pelo país. Passam pelo local cerca de mil estudantes por dia, para ver itens como dinossauros em movimento e aquário com tubarões. No início do passeio há uma simulação do processo de criação do planeta. O centro aposta também na formação dos professores da região. (ARS)


Felipe Arditti, vencedor do Prêmio Jovem Cientista em 2006 e hoje estudante de engenharia

A voz dos premiados

Aos 16 anos, Felipe Arditti ganhou das mãos do presidente Lula o prêmio Jovem Cientista 2006, graças a um trabalho sobre gestão sustentável da biodiversidade. Arditti uniu o aprendizado de física ao de biologia e construiu um dispositivo que mede a emissão de poluentes de motores que utilizam biodiesel.  Não fez algo específico para ganhar o prêmio, na categoria Ensino Médio, mas aproveitou um trabalho desenvolvido em projeto de monografia no 2º colegial do Colégio Bialik, em São Paulo. "O projeto é exatamente para descobrir como se faz pesquisa", conta o atual estudante de engenharia da USP. "A experiência me deu base para passar no vestibular e mostrou uma área que queria conhecer."

Outro prêmio, desta vez em escola pública, mostra a importância do desenvolvimento de projetos temáticos nas escolas. A Escola Municipal José de Anchieta, em Sumaré (SP), venceu em 2007 o Prêmio Ciências no Ensino Médio, do MEC, na categoria estadual. O trabalho vencedor tratou exatamente do ensino e aprendizado de ciências no ensino fundamental. Uma professora de biologia organizou as alunas do 1º ano. Utilizando recursos como teatro e o Centro Ambiental, elas repassaram a estudantes do Fundamental 1 conhecimentos sobre alimentação, consumo de água e energia e reciclagem. Em 2005, a escola já ganhara um laboratório de informática ao vencer a versão estadual da 1ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Os alunos receberam uma bolsa de iniciação científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

A diretora Maria Belintane Fermiano promete usar o prêmio de R$ 25 mil para comprar um microscópio mais potente para o laboratório de biologia. Um dos diferenciais da escola é o Centro de Educação Ambiental Vivenciada, onde os alunos fazem experiências com plantação e colheita, por exemplo. Outro, uma biblioteca estruturada. A escola tem também laboratório de química e investe no perfil de pesquisador de alguns alunos. Anualmente, é visitada pelo caminhão da Oficina Desafio, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com uma série de problemas para serem resolvidos pelos alunos de 7ª e 8ª séries – como construção de um balanço ou de um sistema de irrigação. (ARS)

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