O que as empresas esperam dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho

Nos últimos 20 anos, requisitos esperados de aprendizes sofreram forte mudança, muito em razão das novas dinâmicas trazidas ao mundo pela internet

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Culinária ganhou espaço nas duas últimas décadas

Culinária ganhou espaço nas duas últimas décadas | © Gustavo Morita

Em 1997, dois anos após o lançamento da internet comercial no Brasil, 1,8 milhão de brasileiros tinham acesso a essa nova mídia, então ainda distante de escolas. Naquele ano, pela primeira vez o imposto de renda pôde ser entregue via internet, utilizando-se as velhas conexões discadas. O portal UOL já estava em operação desde 95, a Globo.com só entraria no ar em 2000. Em julho daquele ano, um mês após o lançamento da revista Educação, estouraria a crise asiática, nascida de uma instabilidade da moeda da Tailândia. A crise, aliada ao galopante aumento das dívidas pública e externa brasileira, levariam à maxidesvalorização do real ante o dólar no ano seguinte.

Hoje, 20 anos depois, os usuários de internet no Brasil somam mais de 100 milhões, segundo a pesquisa TIC Domicílios, divulgada em setembro pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil. Nesse período, muito mais do que significar o acesso de mais gente a muito mais informações, a internet e todo o universo virtual que veio a seu reboque transformaram hábitos pessoais e institucionais, cadeias produtivas e o comportamento e as exigências do mundo corporativo.

Em grande parte, é essa revolução que pressiona escolas e universidades a reverem a formação que proporcionam aos milhões de jovens estudantes do país. Na primeira edição de Educação, uma matéria buscava analisar convergências e divergências entre o que  o mercado laboral demandava e a maneira como as escolas formavam seus alunos.

 

Com o pertinente alerta de que os objetivos da educação escolar nem sempre são convergentes com os do universo do trabalho, pois visam a formação de um sujeito pleno, não apenas de sua parcela profissional, a matéria trazia recrutadores descrevendo o perfil então almejado. Os jovens deveriam ter iniciativa, flexibilidade, coragem para arriscar, garra, ambição, capacidade de liderar equipes, disposição para competir. Nielce Filetti, então presidente da Associação Paulista de Administração de Recursos Humanos (Aparh), vaticinava: “A escola tem de ensinar conhecimento, habilidades e atitudes. Hoje, ela dá somente o primeiro item, falta o resto”.

Ontem e hoje

Para fazer o contraste com aquele momento e o mercado atual, Educação convidou dois profissionais há muito tempo na lida com a inserção de jovens no mercado de trabalho: Sofia Esteves, fundadora da Companhia de Talentos e professora de RH da FIA, e Rafael Oliveira, coordenador do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube).

Para Sofia, nos anos 90 o principal requisito que os jovens precisavam trazer era terem cursado boas instituições e serem inteligentes. Oliveira acrescenta que havia um pedido incongruente em se tratando daqueles que estavam ingressando no mercado, muitas vezes sem terem concluído a universidade, às vezes mesmo sem ter ingressado em uma: o de terem experiência anterior. Com a lei 11.788, de 2008, que regula os estágios, as empresas passaram a não poder exigir experiência anterior no processo de seleção.

Para o coordenador do Nube, outro ponto que mudou está relacionado ao contexto econômico: “Antigamente, o maior medo era o de falar em público. Hoje, é o de perder o emprego, que surge mesmo quando ainda não se conquistou uma vaga”, diz. Essa insegurança tem de ser trabalhada para que não bloqueie as iniciativas dos jovens, alerta.

Para Rafael, as principais características que o mercado requer hoje são força de vontade para progredir (aí compreendida a abertura para aprender, ouvir, observar e refletir), o bom domínio da língua portuguesa, a capacidade de expressar-se adequadamente e a disponibilidade para o relacionamento interpessoal. Outra característica valorizada é a paciência e o consequente equilíbrio emocional, pontos críticos da chamada geração Y, acostumada a obter respostas em um clique.

Do ponto de vista do que a escola poderia ofertar a mais na formação dos jovens, Oliveira destaca um ponto também ressaltado por Sofia Esteves, o autoconhecimento. Segundo ele, esse atributo os levaria não só a identificar melhor suas virtudes e defeitos, e assim poder valorizá-los ou desenvolvê-los, como também os ajudaria a encarar os assuntos mais polêmicos e expor suas opiniões respeitando aqueles que pensam de forma diferente. “A escola precisa parar de evitar assuntos polêmicos, como legalização das drogas e aborto, impeachment, e promover o conhecimento interior. Isso os ajudaria a destrinchar esses temas e a se posicionarem de maneira mais adequada”, diz.

Para Sofia Esteves, só com autoconhecimento se consegue desenvolver adequadamente uma atitude de protagonismo, para empreender no interior da empresa e mostrar o engajamento necessário.

Para ela, aliás, uma característica diretamente relacionada ao engajamento está entre as principais demandas contemporâneas: a identificação com a cultura institucional. Em função da dificuldade de empresas e jovens perceberem os perfis adequados para uma relação que possa vir a ser mais duradoura, sua empresa criou um projeto, batizado de “Jornada para o futuro”, em que 14 empresas vão custear um programa que acompanhará os jovens desde seu ingresso em uma das quatro faculdades parceiras, com avaliações semestrais.

“Vamos promover a mentoria reversa, identificar a cultura das empresas, antecipar a proximidade com o mercado de trabalho, ver perfis adequados para cada profissão. Hoje, com essa geração joystick, estamos muito à base de tentativa e erro”, afirma Sofia. Isso porque jovens e empresas têm de combinar mais, além do perfil, na questão do ritmo das expectativas e nas atitudes. Empresas de tecnologia, por exemplo, são mais propícias para jovens mais impacientes e descontraídos, enquanto aquelas dos setores de engenharia e mercado financeiro são mais conservadoras e têm tempos mais lentos.

Para ela, muitos processos seletivos hoje, em função dessa questão da cultura, acabam tendo um lado mais subjetivo. Ela lembra que, no passado, o processo seletivo era mais rígido quanto a um segundo idioma. Hoje, diz, várias nem aplicam testes. O espírito vai na linha do “mão de obra, eu treino. Coração, eu formo”.

Resumo

No geral, além do protagonismo, as características mais valorizadas, segundo Sofia, são a capacidade de análise de problemas, a resiliência e a capacidade de argumentação.

A capacidade de análise de problemas envolve leitura de cenário com vários ângulos, a acuidade para visão sistêmica dos problemas. “É uma das coisas mais exigidas e das que mais reprovam em processos de seleção”, diz Sofia.

Em tese, essa característica, que envolve a capacidade de identificar um problema, localizar o seu contexto, formular hipóteses para sua solução, testá-las e analisar seus resultados é a mais diretamente ligada ao universo escolar ou universitário. É o tipo de raciocínio que a educação formal deveria prover.

Já a resiliência, a capacidade de frustrar-se, de enfrentar obstáculos de toda ordem e perseverar, já estavam entre os requisitos de 20 anos atrás, talvez não com a mesma designição. Mas hoje, com a instantaneidade das ações e relações do mundo pós-internet, tornou-se ao mesmo tempo mais difícil de ser encontrada e trabalhada.

Segundo a consultora, ainda que de maneiras diferentes, ela aparece em jovens de diferentes classes sociais. “É difícil eles saberem ouvir um não. O de baixa renda se vitimiza; o de alta renda acha que a culpa é do outro.”

Por fim, a capacidade de argumentar está ligada também ao universo escolar e ao domínio linguístico apontado por Rafael Oliveira, do Nube. A construção de discursos embasados e coerentes requer tanto repertório linguístico como organização lógica. E, numa época extremamente emocional, a capacidade de separar sentimentos e intuições de conclusões pautadas pela análise de dados e informações objetivas.

 


Série especial

No próximo mês de maio, a revista Educação completa 20 anos de existência. Lançada num momento de grande efervescência do debate educacional no Brasil, um ano e meio após a Lei de Diretrizes e Bases ser sancionada, a publicação nasceu com o objetivo de acompanhar os grandes rumos da educação.

Com olhar múltiplo, acompanhou questões as mais variadas, tais como as relações entre família e escolas, as grandes políticas públicas implantadas no período, as tensões entre os interesses de diversos grupos sociais que se materializam em suas ideias sobre educação, as grandes tendências mundiais e o pensamento de extensa gama de intelectuais que se debruçam sobre o tema.

Dedicou especial atenção à formação docente, questão central que permeia todos os debates. Registrou ainda em suas páginas a contribuição de profissionais de primeira linha do jornalismo brasileiro, como Marcos Faerman, Aloysio Biondi, Marco Antonio Araújo, Gilberto Dimenstein, Sérgio Rizzo e Luiz Costa Pereira Jr., entre tantos outros.

Como forma de relembrar as matérias produzidas nestas duas décadas, a cada edição vamos retomar o tema de uma reportagem e dar um pequeno panorama sobre o tema.

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