O quarto poder

Rede de jornais estudantis sediada no Ceará altera os rumos da vida escolar e política de suas comunidades

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Aluno da escola pública Polivalente Modelo de Fortaleza (CE), Renan William de Morais faz parte da coordenação estadual da Rede de Instituições dos Jornais Estudantis (Redije), que surgiu da parceria com a ONG Comunicação e Cultura e mantém, hoje, sete pólos regionais em cidades cearenses. Cada escola possui um
Clube do Jornal

. Renan explica que, informalmente, os clubes já se ajudavam. A rede integra e dá suporte estruturado a eles.

A escola de Renan produz o
Informativo Polivalente

, jornal que fiscaliza as decisões institucionais e mobiliza os alunos pela qualidade da escola. Os estudantes escolhem, por votação, a diretoria. Renan afirma que a ex-diretora eleita não prestava contas das despesas internas, tampouco estava disponível para entrevistas ao informativo. No 30º aniversário da escola, não houve comemorações. O estopim de uma reviravolta foi o desaparecimento de novos equipamentos para o laboratório.

Houve relatos de que um carro teria entrado no colégio. Como não existiu arrombamento, concluiu-se que o gatuno possuía a chave. Pressionada, a diretora ameaçou os alunos. O coordenador pedagógico fez o mesmo. Disse, segundo o relato de Renan, que possuía dinheiro e advogados. Os dirigentes também não quiseram fazer boletim de ocorrência na polícia. A sindicância aberta na Secretaria de Educação do Ceará (Seduc) não deu em nada.

Nova diretoria foi eleita e, recentemente, encontrou todos os documentos da antiga administração em ordem. As prestações de contas, que estavam três meses atrasadas, foram apresentadas normalmente. Mas o poder dos alunos conseguiu outro feito. O ex-prefeito Juraci Magalhães (PMDB) queria limitar o passe de estudante na rede de transporte público de Fortaleza. Houve uma mobilização estudantil ampla, com repercussão nos jornais escolares e na mídia da cidade. Alunos fizeram passeatas e manifestações. A decisão foi revertida. A luta, entretanto, não acabou. Renan explica que há indícios de superfaturamento nos atuais contratos de transporte da cidade. Mais uma vez, os jornais estudantis têm debatido o assunto.

Histórias não faltam na trajetória jornalística das escolas inscritas no projeto. Em uma edição do periódico
Nosso Grito

, da Escola Estadual José Valdo Ribeiro Ramos, uma matéria iria criticar a diretoria por desleixo com as instalações e má utilização de recursos, entre outras acusações. A diretora chamou os alunos-repórteres e teria oferecido R$ 50 para que não publicassem o texto. Os estudantes fingiram entrar no jogo, segundo relato feito por eles, pegaram o dinheiro, gastaram e publicaram a matéria. Se Renan achou correta a atitude dos colegas? “Não.”

Ou seja: com o poder, surgem os dilemas morais – e, diante deles, aumenta a discussão sobre ética. Essas facetas demonstram o quanto os jornais mobilizam a comunidade estudantil. Nas palavras de Renan, eles “têm muito respaldo”. “A escola que tem jornal é diferente”, resume.




Reportagem: Faoze Chibli




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